Poucas estreias desse finalzinho de 2015/comecinho de 2016 na televisão são mais oportunas (e oportunistas) do que Colony. Como toda ficção científica que se preze, a nova aposta do canal USA, cuja estreia oficial acontece no próximo dia 21 de Janeiro, se apoia na reflexão de uma situação muito real por meio das metáforas e situações da trama.

No caso de Colony, co-criada por Carlton Cuse (Lost) e Ryan Condal (Hercules), a referência é óbvia: contando a história de uma família na Los Angeles futurista invadida por uma força militarista misteriosa, se dividindo entre a luta na Resistência contra os invasores e o trabalho como Colaboradores dos mesmos, a série espelha de maneira esperta a situação de muitos países do Oriente Médio e da África invadidos e “protegidos” pelos EUA.

Os termos usados no roteiro, como Área de Exclusão e Zona Verde, são familiares para qualquer um que acompanha as notícias sobre a situação desses países, e é no mínimo subversivo, em tempos de atos terroristas emergindo no Oriente Médio e crise migratória na Europa, retratar os próprios americanos como vítimas de algo que eles afligem a várias localidades estrangeiras. Colony nos desafia a contestar a abominar esses “atos terroristas” quando eles são arma de resistência dos próprios americanos contra uma força que toma e reorganiza, sem muita preocupação com tradições ou famílias, o espaço de uma nação.


Só com esse resuminho já dá para perceber que Colony provavelmente é uma série na qual vale a pena prestar atenção, mas nem tudo são rosas na nova produção de Cuse que, desde o final de Lost, também esteve envolvido com Bates Motel. Os 50 minutos do piloto que vazou online quase um mês antes da estreia oficial são dirigidos com habilidade e inteligência visual por Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos), que também vai assinar vários dos episódios subsequentes, mas o talento do diretor serve aqui para mascarar as falhas de caracterização do roteiro, ainda indeciso sobre a natureza de alguns de seus personagens, e nada sutil na designação dos limites e regras do mundo que nos apresenta.

A boa notícia é que ainda sobra bastante espaço para um cerne humano e envolvente pulsar no coração de Colony. Os elogios precisam começar com Josh Holloway e Sarah Wayne Callies, as âncoras do piloto como o casal Will e Katie – ele, após uma desastrosa tentativa de ultrapassar a fronteira de Los Angeles com Santa Monica para buscar um filho do qual o casal foi separado muito tempo atrás pelos invasores, é recrutado por um político de fala mansa (Peter Jacobson, ótimo) para infiltrar e destruir a Resistência; ela, como descobrimos ao fim do episódio, é um membro ativo da mesma.

Tanto Holloway quanto Callies tem a mistura certa de sinceridade e enigma para encarnarem esses personagens e as complexidades que já começam a aparecer no relacionamento dos dois. Callies estrelou as três primeiras temporadas de The Walking Dead, e traz uma persona mais guardada e detalhista; um belo contraste para o estilo expansivo de Holloway, que reencarna pontos do seu inesquecível Sawyer de Lost aqui, deixando transparecer através do sotaque sulista aquela mesma combinação de honestidade e esperteza, auto depreciação e desenvoltura.

Colony já tem garantida uma primeira temporada com 10 episódios. O rumo que esses episódios vão tomar pode criar uma série de ficção científica envolvente e com algo a dizer, se os roteiristas quiserem. Resta esperar para saber.