Ler a lista de indicados ao Oscar todos os anos, no dia em que ela é lançada, provoca o mesmo tipo de reação: um tipo de decepção controlada, ajustada pelas expectativas que, ano após ano, nos ensina a esperar pouco da festa da Academia. Pouco no sentido de reconhecer só eventualmente, só esporadicamente, determinadas produções que não se encaixam em todos os quesitos e requisitos que os votantes determinaram para si mesmos. Para cada bem-vinda quebra de padrões, um esquecimento que nos leva de volta a eles.

Esse ano não foi diferente. O reconhecimento mais do que merecido de Mad Max: Estrada da Fúria traz para a premiação da Academia a energia e a vitalidade de um dos melhores filmes de ação de todos os tempos. George Miller, que está gloriosamente indicado a Melhor Direção, fez um trabalho excepcional que precisa ser reconhecido – mas não se surpreenda se Mad Max acabar saindo de mãos abanando da festa no dia 28 de Fevereiro. As outras indicações do filme são Melhores Efeitos Visuais, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Fotografia (para o trabalho brilhante de John Seale), Melhor Edição, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhor Cabelo & Maquiagem. No total, são 10 indicações.


Entra Mad Max, sai Carol. O drama de época do diretor Todd Haynes, que chegou à temporada de premiações como franco favorito a todas as estatuetas, perdeu a força nas últimas semanas, com a derrota no Globo de Ouro e em outras premiações menores. Raramente uma sensação do Festival de Cannes como Carol chega ao Oscar com chances de levar nas grandes categorias, e isso é um problema – a Academia tem memória curta, no sentido que filmes lançados mais cedo no ano raramente chegam com força para a premiação; e gosta de exclusividade, ou seja, gosta do fato que os estúdios alinham muitos dos seus lançamentos para coincidir com a “época de Oscar”.

O esquecimento de Carol é mais do que lamentável, visto que o tema abordado pelo diretor (homossexualidade, entre mulheres, e ainda nos anos 50) é tremendamente atual, e que Haynes é um dos grandes talentos não reconhecidos do cinema americano atual (leia a crítica do filme). Indicado ao Oscar só uma vez, pelo roteiro de Longe do Paraíso (2002), esse autor/diretor começou a carreira nos anos 1990, com o polêmico filme independente Veneno, um marco do cinema queer em Hollywood. Desde então, explorou a relação da música com o cinema e desvendou as personalidades intrincadas de dois ídolos, David Bowie (em Velvet Goldmine) e Bob Dylan (Não Estou Lá), e ainda deu para Julianne Moore e Kate Winslet dois de seus melhores papeis recentes, em Longe do Paraíso e Mildred Pierce, respectivamente.

Ao invés de Carol, o grande vencedor do ano deve ser O Regresso, do diretor Alejandro González Iñárritu, que deve bater dois anos seguidos dominando a maior festa do cinema (ele ganhou tudo ano passado, por Birdman). Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) devem pertencer ao filme que impressionou mais com a técnica do que com a narrativa – graças à celebrada decisão de organizar as filmagens apenas com o uso da luz natural, a fotografia de Emmanuel Lubezki deve lhe render o terceiro (!) Oscar seguido na categoria. Além dessas, O Regresso levou indicações em Melhor Ator Coadjuvante (Tom Hardy), Melhores Efeitos Visuais, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhor Cabelo & Maquiagem. São 12, das quais o filme deve levar muitas.

Enquanto Mad Max e O Regresso despontam como os principais concorrentes nas categorias principais, a corrida de Melhor Atriz segue complicada. A Academia não deixou de indicar Cate Blanchett por Carol (ela é uma das 6 indicações do filme), apesar de ter ignorado o filme nas categorias principais, então segue a possibilidade, bastante forte em se tratando de Oscar, da Academia lhe conceder o terceiro prêmio da carreira, pura e simplesmente pelo fato de que, entre as indicadas, ela é a mais experiente em termos de Oscar. Lembrada pela Academia, Charlotte Rampling (45 Anos) foi a preferida de vários dos prêmios menores da temporada pré-Oscar, assim como Saoirse Ronan (Brooklyn) e Brie Larson (O Quarto de Jack). É difícil pesar vantagens e desvantagens nessa corrida – Larson levou o Globo de Ouro, mas o filme em que ela atua não se localiza num gênero que a Academia costuma premiar, e seu status de estrela recém-revelada não ajuda; Rampling pode levar pela experiência e pelo conjunto da carreira, já que é sua primeira indicação, aos 70 anos de idade, após uma carreira longa e ultra-celebrada; e Ronan tem a crítica ao seu lado, além da aura de garota prodígio (é sua segunda indicação, aos 21 anos). Nesse complicado jogo de balanceamento, Blanchett pode sair ganhando com a confusão se o Oscar resolver, como frequentemente resolve, ir pelo caminho mais tradicional.

Em Melhor Atriz Coadjuvante, a inclusão de Alicia Vikander (por A Garota Dinamarquesa, e não por Ex Machina, infelizmente) e Rooney Mara (Carol) em categoria diferente da qual foram indicadas no Globo de Ouro as torna imediatamente as favoritas na corrida. É provável que o Oscar resolva premiar Mara, tornando-a assim, também, a vitória mais significativa de Carol, que ainda pode levar alguns dos prêmios mais técnicos. Já a categoria de Melhor Ator Coadjuvante pertence muito provavelmente à Mark Rylance (Ponte de Espiões, que levou 6 indicações), mesmo com a derrota no Globo de Ouro para Sylvester Stallone (Creed).

Enquanto isso, obras de gêneros historicamente mal vistos no Oscar, como a ficção científica, continuaram sendo deixados de fora. Ex Machina, a magistral estreia de Alex Garland na direção, ficou só com 2 indicações (Melhor Roteiro Original, Melhores Efeitos Visuais); Star Wars: O Despertar da Força levou 5, mas todas em categorias técnicas (Melhores Efeitos Visuais, Melhor Trilha-Sonora, Melhor Edição, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som); Os Oito Odiados foi lembrado em Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Melhor Trilha-Sonora e Melhor Fotografia; Perdido em Marte teve mais sorte, com 7 nomeações, incluindo às esperadíssimas para Melhor Filme e Melhor Ator (Matt Damon), e mais cinco nas categorias técnicas. As chances desses filmes de vencerem, no entanto, não são muito animadoras.

Os esforços da Academia para modernizar e atualizar seu repertório vem sendo notados desde muito tempo, e desde muito tempo que esses esforços tem sido travados e freados com a inconfundível vontade de permanecer tradicional que transpira das indicações e vencedores do Oscar todos os anos. O Discurso do Rei venceu no ano em que Cisne Negro, A Origem e A Rede Social estavam indicados; Argo levou no ano em que As Aventuras de Pi estava no páreo. Premiar Alejandro Iñárritu pela segunda vez seguida é, apesar do indubitável talento do diretor, deixar uma realização técnica preceder fundamentalmente uma realização artística (como Carol e Mad Max são) e narrativa. É o tipo de escolha burocrática que o Oscar é conhecido por fazer, e os últimos anos não mudaram isso em nada.

Resta para nós, brasileiros, comemorarmos a indicação de O Menino e O Mundo entre os filmes de animação, recompensando a paixão e persistência do diretor/roteirista Alê Abreu durante os anos e anos de processo de produção. Um daqueles isolados e bem-vindos acertos em uma lista de indicados previsível, mas que ainda vai render muito o que falar até o dia 28 de Fevereiro.

Tudo sobre o Oscar 2016