Como diz um ditado repetido freneticamente por todos que acompanham com avidez os prêmios anuais da Academia (mais conhecidos como o Oscar), “merecer não tem nada a ver com isso”. Ser indicado e vencer uma estatueta dourada tem a ver com campanhas multimilionárias, com se ajustar a um estilo pré-determinado de filme, com impacto cultural – de vez em quando, todas essas coisas convergem em uma atuação ou trabalho que realmente merece ser premiado como o melhor do ano.

Se nos esforçássemos mesmo, poderíamos explicar exatamente o porquê cada um dos filmes incluídos nessa lista ter sido ignorado pelo Oscar 2016, e nenhuma vez teríamos que escrever que eles não são bons o bastante. No entanto, preferimos cantar as virtudes desses ótimos trabalhos ao invés de lamentar sua falta de reconhecimento na festa elitista (e americanizada) da Academia. Vamos lá?

Beasts of No Nation

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Um épico de guerra vindo do diretor Cary Fukunaga, conhecido pela excelente versão de Jane Eyre e pelo trabalho espetacular na primeira temporada de True Detective, já seria motivo o bastante para se animar mesmo que o filme em questão não fosse relevante, urgente e devastador como Beasts of No Nation. Embora o elemento mais reconhecido do filme nas temporadas de premiação seja a performance gigantesca de Idris Elba, o dono por direito do Oscar (para o qual não foi indicado) de Melhor Ator Coadjuvante desse ano, Beasts of No Nation tem muito mais o que ser celebrado: dirigido e escrito com bravura e empatia, protagonizado por um Abraham Attah inesquecível, fotografado com beleza brutal. É uma das peças de cinema mais ambiciosamente e belamente realizadas do ano, e sua ausência do Oscar é imperdoável.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Filme, Melhor Direção (Cary Fukunaga), Melhor Ator (Abraham Attah), Melhor Ator Coadjuvante (Idris Elba), Melhor Edição (Pete Beaudreau & Mikkel E.G. Nielsen)

Tangerine

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O que mais se fala de Tangerine é a técnica com a qual ele foi fotografado: usando câmeras de iPhone, em locações reais em uma zona de prostituição de mulheres trans e travestis em Los Angeles, com atrizes “pescadas” de dentro da própria comunidade. O que pouco se discute, no entanto, é o impacto do filme e do que ele traz, da imensa solidariedade e compreensão que demonstra em relação a esses personagens, suas tragédias e seu humor. Em muitos momentos, Tangerine é um filme muito divertido, feito em esquema de guerrilha notável, mas ainda com uma fotografia maravilhosa (acredite) e uma trilha-sonora destruidora. Falar das atuações de Mya Taylor e Kitana Rodriguez chega a ser redundante: elas são a alma, o fôlego, o batimento cardíaco do filme, trazendo sua realidade para a tela com uma consciência social, de cena e de personagem que barra em autenticidade todos os atores profissionais que já interpretaram personagens como elas no cinema. Talvez tenham havido filmes melhores em 2015, mas nenhum foi mais importante que Tangerine.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Atriz Coadjuvante (Mya Taylor), Melhor Roteiro Original (Sean Baker & Chris Bergoch), Melhor Fotografia (Sean Baker & Radium Cheng)

Um Deslize Perigoso

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Mais um para a lista de filmes protagonizados por atores negros que mereciam mais atenção da Academia, Um Deslize Perigoso (ou Dope, no título original) é uma refrescante comédia criminal do diretor Rick Famuyiwa, um elogiado cineasta negro que trabalha há mais de 20 anos nas periferias da indústria, pulando entre gêneros mas sempre trazendo um discurso social forte. Em Dope, o encanto está nos personagens principais, jovens nerds de uma escola de um bairro perigoso que tentam se manter longe do tráfico que rola solto pela vizinhança. Famuyiwa retrata esses jovens com inteligência ímpar, os fazendo ao mesmo tempo como qualquer outro adolescente impopular e irreparavelmente diferentes pela forma como a cor de sua pele impôs-lhes determinadas vivências sociais.

Feito de dentro para fora, assim, Dope é um dos filmes obrigatórios do ano passado, e ainda acha tempo para ser insanamente divertido (e bem atuado, e inteligente) no meio do caminho. Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Roteiro Original (Rick Famuyiwa), Melhor Edição (Lee Haugen)

Mistress America

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Há tempos que os filmes de Noah Baumbach merecem reconhecimento. O diretor e autor americano, que foi indicado apenas uma vez, pelo roteiro de A Lula e a Baleia, em 2006, é um dos parceiros de Wes Anderson, o famoso cineasta de Moonrise Kingdom e O Grande Hotel Budapeste. Quando investe em seus próprios filmes, no entanto, Baumbach se mostra um autor próprio, com um olhar agudíssimo para as falhas e os comportamentos de cada geração e de cada personagem, uma vontade de ser social sem perder o envolvimento emocional do espectador, e acidez misturada com doçura que é a receita vencedora de Mistress America, uma espécie de “continuação espiritual” para o seu Frances Ha. Mais uma vez co-escrito e estrelado (com absurdo brilhantismo) pela namorada do diretor, Greta Gerwig, Mistress America é uma fábula em eterno movimento e discurso, editado com ritmo e energia indispensáveis para o filme funcionar, e que fala alto sobre os sonhos quebrados (e o idealismo inquebrável) da juventude.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Filme, Melhor Direção (Noah Baumbach), Melhor Atriz (Greta Gerwig), Melhor Roteiro Original (Noah Baumbach & Greta Gerwig), Melhor Edição (Jennifer Lame)

Corrente do Mal

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Há décadas que o cinema de terror não entra na roda da Academia. E há anos que jovens cineastas do mundo todo estão provando que o gênero ainda é vital para a cinematografia moderna, e anda produzindo consistentemente alguns dos melhores filmes do cenário. Corrente do Mal, ao contrário por exemplo de The Babadook e Boa Noite, Mamãe, tem o benefício de ser um filme americano, elogiadíssimo pela crítica inteira, e mesmo assim falhando em ganhar uma única indicação ao Oscar. A teimosia de Academia em olhar para o cinema de gênero pode persistir, mas Corrente do Mal é indiscutivelmente um dos melhores filmes de 2015, com sua premissa fascinante, sua execução pensada nos menores detalhes, seu discurso filosófico profundo e exasperante, seus personagens envolventes e inesquecíveis.

Este que vos fala já assistiu o filme de David Robert Mitchell pelo menos umas 5 vezes, e a cada sessão uma nova dimensão da história e da técnica se abriu para mim. Quem ainda tem um pé atrás, faça-se um favor e veja Corrente do Mal assim que possível – mas veja com vontade, completamente aberto à mensagem, às sensações e aos mínimos detalhes que o filme pode te proporcionar.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Filme, Melhor Direção (David Robert Mitchell), Melhor Roteiro Original (David Robert Mitchell), Melhor Fotografia (Mike Goulakis), Melhor Trilha-Sonora (Disasterpeace)

A Espiã que Sabia de Menos

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Tal e qual o terror, a comédia (comédia rasgada mesmo, não dramédia indie) não aparece no Oscar há muito, muito tempo. Historicamente, a Academia alimenta um preconceito enorme pelo gênero, considerando-o menor que o drama, e ainda mais por mulheres que praticam humor no cinema. Não é surpresa que A Espiã que Sabia de Menos ficou de fora, portanto, mas continua sendo condenável: a aventura escrita e dirigida por Paul Feig para a parceira de longa data Melissa McCarthy (os dois fizeram As Bem-Armadas juntos) é histericamente engraçada, notavelmente empoderadora, e tem algumas das melhores cenas de ação do ano (ainda não superamos a luta à la Jackie Chan na cozinha do restaurante, honestamente). Posando bem ao lado do revolucionário Mad Max: Estrada da Fúria, o filme da hilária McCarthy é talvez o grande exemplo de que grandes produções de Hollywood (e comédias, principalmente) ainda podem ser filme de qualidade artística e entretenimento irretocável.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Filme, Melhor Atriz (Melissa McCarthy), Melhor Roteiro Original (Paul Feig), Melhor Figurino (Christine Bieselin)

Que Horas Ela Volta?

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Sim, nós vamos falar de novo do filme brasileiro que fez todos nós acharmos que teríamos uma chance no Oscar novamente. Talvez tenha sido a história que ressoa mais com o nosso modelo social do que com o deles, mas a excelência do filme Anna Muylaert (excelência narrativa e técnica) não poderia ter sido ignorada. Seja pela fotografia genial, que evolui organicamente com o filme, pela performance mais do que cativante de Regina Casé, ou pela direção equilibrada e pelo roteiro espetacularmente estruturado de Muylaert. Que Horas Ela Volta? é brilhante e funciona em tantos níveis e de tantas formas, refletidas em seu esperto título em inglês (The Second Mother, ou “A Segunda Mãe”) que fica difícil tecer argumento segundo o qual o Brasil não merecia estar na lista de indicações a Melhor Filme em Língua Estrangeira desse ano.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Atriz (Regina Casé), Melhor Roteiro Original (Anna Muylaert), Melhor Fotografia (Barbara Alvarez)

Nocaute

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Por toda a conversa em torno da performance de Jake Gyllenhaal em O Abutre, talvez a Academia estivesse certa: ele ainda não estava no auge de sua fase recente (e espetacular) da carreira. Nocaute pode ser um filme tremendamente falho, dirigido sem muita novidade por Antoine Fuqua e injetado com alguma emoção genuína, mas pouca criatividade, pelo roteirista Kurt Sutter, de Sons of Anarchy, mas a atuação de Gyllenhaal como o boxeador Billy Hope é imponentemente perfeita. Trabalhando a linguagem corporal com confiança, a pilha de músculos cansados e os movimentos quebrados de um atleta que abusa do seu corpo no trabalho, Gyllenhaal compõe um Hope pelo qual vale a pena torcer sem cair em clichês fáceis. Falho, difícil, violento e “intenso”, o personagem caminha pelo fogo e assume a postura de cachorro perdido de quem se queimou.

Talvez o filme de Fuqua não merecesse tanto reconhecimento, mas tanto Gyllenhaal quanto seu parceiro de cena, Forest Whitaker, entregam peças de atuação que estão entre as absolutas melhores do ano passado. Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Ator (Jake Gyllenhaal), Melhor Ator Coadjuvante (Forest Whitaker)

Advantageous

Advantageous

A Academia foi sábia o bastante para reconhecer Ex Machina (embora não tanto quanto gostaríamos), mas deixou para trás outra grande ficção científica do ano passado, Advantageous. Outro gênero que vem transbordando de boas produções ultimamente, a ficção é também notavelmente ausente do histórico do Oscar, e a obra de Jennifer Phang é uma daquelas oportunidades que é difícil deixar passar – sensível, dinâmico, se arriscando a alienar sua audiência pelo bem da história e da profunda contestação que pretende fazer, Advantageous é o melhor tipo de ficção científica: aquele que nos trás perguntas válidas para a nossa realidade. É um libelo feminista, um belo conto sobre o amor e o terror da maternidade, uma impressionante narrativa sobre a valorização da aparência sobre a consciência, e encontra uma atriz capaz de escorar tudo isso na maravilhosa Jacqueline Kim, que também co-escreve o roteiro. Advantageous está disponível no Netflix.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Atriz (Jacqueline Kim), Melhor Roteiro Original (Jennifer Phang & Jacqueline Kim)

Mississippi Grind

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Antes de ser o Deadpool, Ryan Reynolds se mostrou muito mais ator do que muita gente imagina em Mississippi Grind, drama indie dos diretores Anna Boden e Ryan Fleck (Se Enlouquecer Não se Apaixone). Na trama, Ryan interpreta um charmoso apostador de cassinos que topa com o fracassado Gerry (Ben Mendelsohn, de Bloodline) e acaba concordando em acompanha-lo em uma viagem pelos antros de aposta do Sul dos EUA a fim de recuperar um dinheiro que Gerry perdeu. Reynolds está espetacular no papel do sedutor “amuleto da sorte” do protagonista, esbanjando seu carisma verborrágico mas emprestando sombras e sutilezas para o personagem que seriam insuspeitas nas mãos de um outro ator. Ele também duela de igual para igual com o sempre ótimo Mendelsohn, o que não é missão para qualquer intérprete – no coração do filme, o veterano ator australiano mostra porque se tornou um dos protagonistas preferidos de Hollywood mesmo na idade avançada.

Num mundo ideal, indicaríamos para: Melhor Ator (Ben Mendelsohn), Melhor Ator Coadjuvante (Ryan Reynolds).