Nenhum filme é só um filme. Cinema é importante demais para um filme ser só um filme. Como instrumento de discussão social e espelho da nossa sociedade, assim como qualquer outra forma de arte e entretenimento, o cinema frequentemente aborda temas e discussões muito atuais, mesmo que de forma mais sutil do que se pode imaginar. No entanto, lendo sobre cada um dos oito indicados a Melhor Filme nas redes sociais por aí, fica fácil achar que muitos desses filmes são de pouca ou nenhuma consequência nesse sentido de comentário social.

De fato, quando o filme não se baseia em um fato muito pontual que o liga a nossa realidade atual, muita gente automaticamente o dispensa como documento histórico, pedaço de entretenimento, ou uma história fácil qualquer. Não é bem assim. Dos oito indicados a Melhor Filme (e vários que nem entraram na disputa), quase todos se conectam a discussões e temas muito presentes e muito importantes.

https://www.youtube.com/watch?v=R0aKPegDWHY


Os mais óbvios nesse sentido são, é claro, A Grande Aposta e Spotlight: Segredos Revelados. O primeiro destrincha a crise econômica de 2008, nos explicando (de forma bastante didática, diga-se) por que talvez não tenhamos nos indignado com a atuação dos grandes bancos na história toda tanto quanto deveríamos. Deixando claro que as consequências da crise ainda são muito atuais em pleno 2016, e que o sistema financeiro aprendeu pouco ou nada com o colapso que sofreu (em grande parte porque o dinheiro governamental os resgatou temendo pelo futuro da economia mundial), A Grande Aposta se posiciona como uma história vital, um docudrama que abusa da criatividade para mostrar a essencial perversidade de um sistema no qual o nosso mundo todo está apoiado. E o filme de Adam McKay não absolve seus personagens, que também lucram com a derrocada da economia – nesse jogo, só há vítima e algoz, não mocinho.

Spotlight, por sua vez, se posiciona como pedaço de cinema “relevante” pela triste urgência e atualidade de seu tema. Mesmo 14 anos depois das investigações dos repórteres do Boston Globe, os escândalos de pedofilia dentro da Igreja Católica continuam sendo encobertos, padres abusadores continuam sendo apenas movidos de uma diocese para a outra, e muita gente segue ignorando o tamanho do problema.

A chocante declaração do psicólogo, escritor e ex-padre que os repórteres entrevistam, colocando a porcentagem de sacerdotes pedófilos em torno de 6% do total de padres da Igreja, segue sendo um dolorido soco no estômago de realidade hoje, uma década e meia depois do que foi publicado pelos repórteres do Globe. Curiosamente, Spotlight divide com A Grande Aposta a característica de não colocar em um pedestal os seus “heróis” – o filme de Tom McCarthy, ao contrário, é honesto e enfático nos preconceitos e falhas diárias dos jornalistas que retrata, sem diminuir a nobreza do que eles tentam fazer.

É quando saímos do reino desses dois filmes que fica mais difícil argumentar, principalmente com alguns comentadores de redes sociais por aí, que os outros seis indicados a Melhor Filme tem algo para nos dizer. O argumento que mais ouvi recentemente tem a ver com Brooklyn, o encantador romance britânico que surpreendeu muita gente na corrida pelas premiações – ver o filme só como uma história “limpinha” de uma imigração “idealizada”, e especialmente a história de uma imigrante privilegiada pela cor de pele e origem amigável aos EUA, é redutível e ingrato.

O filme de John Crowley é sim uma idealização do “sonho americano”, mostrando um país e uma comunidade que acolhem a Eilis de Saoirse Ronan com os braços abertos e muita gentileza. E sim, Eilis tem a sorte de ser uma imigrante branca, mas nos dias de hoje, com a crise de refugiados islâmicos na Europa e no mundo todo, será que Brooklyn não é essencialmente um filme contestador e crítico em seu retrato de uma época, e de um momento, em que o ideal americano era mais real do que é hoje?

Quando o cinema nos mostra uma coisa para dizer outra, muita gente passa batido. Brooklyn é uma adorável e poética realização do roteirista Nick Hornby, emocionante em sua sensibilidade e na atuação espetacular de Ronan, mas é também uma análise minuta das particularidades da imigração, da dor de ser removido do lugar que chamamos de casa, da saudade e da particularidade de construir uma vida para si em um local que não é o seu. É um filme de amadurecimento, mas é também um filme que nos pergunta, discretamente, por que a América e os países desenvolvidos, agora que já tem uma identidade e uma estrutura próprias, não estão mais tão abertos à entrada de estrangeiros como um dia estiveram, e quais preconceitos movem essa mudança.

Quase a mesma coisa vale para Ponte dos Espiões, que não pode passar como só um retrato histórico de um episódio tenso e (de certa forma) emblemático da Guerra Fria. Em um ambiente político em que os Estados Unidos contestam ou tentam reafirmar seus princípios como república e como potência mundial, Steven Spielberg e os Irmãos Coen (que assinam o roteiro) fizeram um filme que nos mostra a forma como pressões e calores ideológicos, superstições e culturas equivocadas interferem no sistema de justiça americano, e colocaram no centro da história um homem cuja cruzada é para fazer com que isso deixe de acontecer. As vitórias do advogado James B. Donovan (Tom Hanks) são pequenas frente ao mastodonte que é o sistema, mas Ponte dos Espiões, com sua solidariedade estendida para os dois lados do conflito ideológico mais famoso da história, é um filme firmemente anti-guerra, e firmemente crítico das falhas do sistema democrático/capitalista. Com a tensão entre EUA, Rússia e outros países com ideologias diferentes da americana em crescimento, Ponte dos Espiões passa uma mensagem mais do que urgente.

Em O Regresso, talvez o mais cínico e pessimista dos oito indicados, Alejandro G. Iñárritu aproveita a jornada do explorador das fronteiras americanas Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) para analisar as políticas sociais e éticas da colonização. Os nativo-americanos são uma presença constante no decorrer das quase três horas de filme, e a relação deles com os colonizadores é marcada não só por tensão, mas por ressentimento – quando um colonizador francês acusa uma tribo de roubar os couros de animais que outro grupo de europeus (o grupo de Glass) estava tentando vender, o indígena retruca: “Vocês nos roubaram tudo”.

O coração de O Regresso está na animalidade do instinto humano, e retratar o preconceito e o senso de superioridade que levou o homem europeu a oprimir e invadir o espaço do homem nativo-americano é o cerne de tudo isso. Glass, notadamente o personagem do filme com uma atitude mais positiva em relação aos nativos, encontra solidariedade e piedade onde ele a distribui, e a lição de O Regresso parece ser que a atitude humana de “conquistar” outro povo é suja (e típica), e que quebrar com ela pode prover uma recompensa espiritual e emocional que não se encontraria de outra forma.

O blockbuster Mad Max: Estrada da Fúria, por sua vez, é essencialmente uma história de ficção científica, vamos concordar. E não há gênero mais político e mais reflexivo socialmente do que a ficção científica – com sua terra pós-apocalíptica dominada por homens tomados pelos seus instintos mais básicos e pela loucura de um mundo sem esperanças, e por mulheres que lutam contra a opressão desses homens, guardando a pulso firme a humanidade de um mundo que é tudo, menos humano, Estrada da Fúria é um libelo feminista e uma revolução em termos de cinema.

É também um conto metafórico de busca por paz e justiça, realizado em uma grande perseguição pelo deserto essencialmente porque vê a nossa busca por um sentido nos tempos caóticos em que nos encontramos como uma corrida contra inimigos cada vez mais numerosos (e cada vez mais próximos no nosso retrovisor). Não é a toa que Max e Furiosa eventualmente apenas dão meia volta e enfrentam a caravana de Immortan Joe de frente, ao invés de continuar fugindo. Mad Max é um filme tão urgente quanto todos seus companheiros de Oscar, é a realização cinematográfica mais emblemática do ano e da época em que nos encontramos, e precisa ser reconhecido como tal (mas provavelmente não vai).

https://www.youtube.com/watch?v=uUa–AemxYo

Eu poderia ficar aqui por horas destrinchando cada um dos indicados. O Quarto de Jack, em tempos de feminismo mais forte do que nunca, avalia com cuidado uma história em que abuso, maternidade, trauma e responsabilidade parental são centrais – e tudo em um contexto lamentavelmente realista.

Apesar de esnobado da lista de Melhor Filme, Carol é uma obra com temática LGBT que ousa ter um final feliz, um romance efervescente e complexo como qualquer outro, e personagens heroicas que, mesmo pressionadas pelo mundo ao seu redor, seguem se amando. Os Oito Odiados analisa o papel da violência na cultura americana e discute misoginia e racismo com contundência, abordando dessa forma o que são provavelmente as três questões sociais mais relevantes do momento. Ex Machina, Straight Outta Compton, os tristemente ignorados Tangerine e Beasts of No Nation – cada um deles é, além de uma peça espetacular de cinema, uma obra importante em algum sentido.

A lição que fica dessa longa análise sobre o Oscar 2016, portanto, é que cinema não existe em um vácuo. Dizer que “arte é arte”, e que sua moralidade ou sua intenção social não pode ser questionada ou analisada, como defendia antigamente Mark Twain para a literatura, não é só ingênuo para os dias de hoje, mas também faz um desfavor a produção artística atual.

Arte não é só arte. Arte é importante, é instrumento de expressão e comunicação social, é meio de transformações, é o fluxo ininterrupto da nossa cultura, e diz muito sobre nós e o que queremos refletir e mudar no nosso mundo. Ignorar essa dimensão dos indicados ao Oscar 2016 é como ver uma seleção excepcional de filmes pela metade.