Quando penso nos cinco atores que indicaria para o Oscar da categoria em 2016, caso fosse votante da Academia, quase nenhum deles coincide com a lista que estará concorrendo ao prêmio no próximo domingo, dia 28. “Quase” nenhum porque, no topo da minha lista, assim como da lista da Academia, está Leonardo DiCaprio por sua atuação em O Regresso, desconfortável épico de colonização e vingança de Alejandro González Iñárritu que chega à cerimônia como um dos preferidos nas categorias principais.

No entanto, se a disputa em Melhor Filme ainda é duvidosa e acirrada (não contem com Spotlight, A Grande Aposta ou Mad Max fora da disputa ainda), em Melhor Ator o protagonista DiCaprio parece soberano. Cochichos sobre uma possível segunda vitória seguida de Eddie Redmayne por A Garota Dinamarquesa não passam disso: cochichos. O filme não foi bem recebido pela crítica americana, a atuação de Redmayne sofreu contestações por parte dos movimentos que supostamente o filme representaria em tela, e 2016, de uma forma ou de outra, é o ano de DiCaprio.

Aos 41 anos e na quinta indicação, a trajetória de Leonardo DiCaprio não é tão incomum quanto os memes da internet podem fazer parecer. Sua companheira de Titanic, Kate Winslet, ganhou seu Oscar em 2009 por O Leitor, no que já era sua sexta nomeação ao prêmio; o mesmo vale para Julianne Moore, que ganhou no ano passado, por Para Sempre Alice, quando estava sendo indicada também pela quinta vez. É de praxe da Academia querer esperar o “momento certo” para premiar um ator ou diretor, e muitas vezes passar um pouco do ponto nessa espera.


7 razões pelas quais Leonardo DiCaprio ainda não ganhou um Oscar

Há muitos argumentos que podem ser feitos, no entanto, para posicionar O Regresso como a atuação pela qual DiCaprio mais merece levar para casa a estatueta. Exigido fisicamente por Iñárritu de uma forma que nunca foi pelos diretores com os quais trabalha mais frequentemente, o ator ítalo-americano passa por um processo tortuoso que é um desafio para qualquer ator de método. Mas o que é um ator de método, mesmo?

O Método é uma técnica de atuação desenvolvida pelo influente professor de teatro Lee Strasberg, que pede aos atores que usem experiências pessoais como uma forma de entender o estado psicológico do personagem, resgatando as memórias sensitivas dessas experiências e as trazendo para a atuação. Como muitos atores acabam interpretando personagens que pouco tem a ver com suas experiências de vida, a solução é basicamente viver tudo aquilo que o personagem vive, de verdade – trajar-se e comportar-se como ele, passar pelas mesmas provações físicas e psicológicas que ele passa, viver a situação da obra de ficção com a mesma intensidade que o personagem viveria se fosse real.

Por isso é tão impressionante ver Leonardo DiCaprio se arrastando com um pé quebrado e se recuperando da dor em O Regresso, ou tão incômodo vê-lo enterrar os dentes em carne crua em outro ponto do filme. Vegetariano e um grande defensor dos diretos dos animais e do meio-ambiente, DiCaprio mergulhou tanto no personagem que exigiu que o pedaço de carne em suas mãos naquela cena fosse de verdade, para que a situação parecesse genuína.

Como espectadores, no entanto, pouco nos vale o método ou a falta dele se a atuação não atinge a profundidade emocional que DiCaprio empresta ao personagem. Se forçando até o limite fisicamente para viver genuinamente a situação extrema que o personagem vive, o ator encontra também uma existência e uma vida interna nele que não aparece totalmente no roteiro. É na expressividade de DiCaprio, em seu comprometimento com os cantos mais sombrios do sentimento de vingança, e com as áreas mais iluminadas da nobreza que seu personagem apresenta, que O Regresso ganha o jogo.

Leonardo DiCaprio nos dá um herói falho para quem torcer no meio do mundo-cão e cínico de Iñárritu. Ele entende a fundamental esperança que existe por baixo das narrativas sombrias de mesquinhez humana do diretor, e corajosamente a incorpora por baixo dos casacos de pele e do sofrimento físico. DiCaprio é a coisa mais verdadeiramente humana em um filme que tem sentimentos complicados sobre a humanidade – e se essa performance não é o auge de uma carreira que está em movimento ascendente há algum tempo, eu não sei o que é.