ATENÇÃO: O texto a seguir, é claro, está cheio de spoilers!

Nos últimos dois meses, quais vocês consideram as mortes mais chocantes e repercutidas das séries de TV? Talvez sua lista tenha Laurel Lance, a Canário Negro em Arrow (veja aqui); talvez, mesmo que seja um pouco de trapaça incluí-la, sua lista tenha a morte misteriosa causada por Negan em sua estreia em The Walking Dead; e talvez, se você ainda estava assistindo, sua lista tenha Abbie Mills, uma das protagonistas de Sleepy Hollow (e essa já é outra história, mas veja aqui). As três (ou quatro) personagens mortas que com certeza estão na sua lista e na lista de todo mundo, no entanto, tem algo um pouco perturbador em comum: são todas mulheres lésbicas.

Estamos falando, é claro, principalmente de Lexa, personagem de Alycia Debnam-Carey em The 100, que foi atingida por uma bala que era dirigida a sua amante Clarke (Eliza Taylor) no episódio “Thirteen”, sétimo da terceira temporada da fantasia pós-apocalíptica da CW. De forma muito semelhante foi eliminada a Dra. Denise Cloyd, interpretada pela vencedora do Emmy Merritt Weaver em The Walking Dead – atingida por uma flecha que era na verdade para Daryl (Norman Reedus), a parceira de Tara (Alanna Masterson) morreu para que Maggie (Lauren Cohan) não tivesse uma médica por perto quando entrasse em trabalho de parto, e, portanto os eventos do finale pudessem acontecer da forma que vimos.


Denise encontrou o seu cruel destino em “Twice as Far” (6×14), episódio exibido no dia 20 de Março, pouco mais de duas semanas depois da morte de Lexa. No entanto, ela não é a mais recente vítima da mania das séries de TV de matar suas personagens lésbicas de formas cruéis, e só isso já deveria ser lido como preocupante. No episódio “A Rose by Any Other Name”, exibido no último dia 06 de Abril, o novelão Empire chocou os fãs com a morte dupla de Mimi (Marisa Tomei) e Camilla (Naomi Campbell).

Marisa Tomei como Mimi
Marisa Tomei como Mimi

O casal de lésbicas foi apresentado de maneira vilanesca na série, especialmente Camilla, que vimos se envolver com Hakeem (Bryshere Y. Gray) na primeira temporada e que voltou nesse segundo ano revelando estar casada com Mimi, parceira de negócios do chefão da Empire, Lucious (Terrence Howard). Em um plano de vingança mirabolante, Camilla removeu Lucious da empresa e colocou Hakeem no seu lugar, com Mimi atuando como a principal acionista da gravadora. Acometida de câncer e muito doente, Mimi percebe que Camilla só se casou com ela para conseguir o poder e ficar com Hakeem quando o mais jovem dos Lyon filma uma sextape com Camilla e manda para a esposa. A fim de não perder o controle sobre seu plano de vingança, Camilla envenena Mimi e monta uma cena na casa das duas que faz parecer que a moça cometeu suicídio, mas Lucious aparece com uma arma apontada para a rival e Camilla prontamente bebe do mesmo veneno, em um aceno da série para uma versão torta de Romeu & Julieta.

Mirabolante, né? É assim que as coisas funcionam em Empire, e as referências à Shakespeare são bem corriqueiras na série. Em uma defesa parecida, é possível dizer que tanto The 100 quanto The Walking Dead se localizam em mundos em que nenhum dos personagens está seguro e em que a violência é a regra do reino. Que fique claro, todas essas três séries já se mostraram por A+B como campeãs da diversidade na televisão americana, tanto na escalação dos atores quanto na construção dos personagens.

A ideia aqui não é dizer que The 100, Empire ou The Walking Dead são homofóbicas, ou que seus criadores e showrunners são, ou que a convergência dessas mortes dentro de poucas semanas é parte de um esforço conjunto para contar histórias negativas associadas a personagens LGBT e especialmente mulheres lésbicas. O que está em jogo aqui é algo um pouco mais sutil que tudo isso, e é uma forma de preconceito que está tão arraigada na nossa sociedade que é difícil até para quem o carrega pensar nele.

A princípio, vale pensar: por que as mulheres lésbicas parecem ser o alvo principal, enquanto homens gays tanto em The Walking Dead quanto em Empire permanecem (relativamente) seguros? A discussão aqui é a distinção entre homofobia e lesbofobia, se referindo às opressões particulares enfrentadas pelas mulheres que se atraem por outras mulheres, a fetichização do relacionamento entre elas e da sexualidade, e ao mesmo tempo a noção fatalista de que esses relacionamentos não devem dar certo. Existe um estigma muito particular que merece ser analisado em separação ao que recai sobre os homens gays e, por tabela, sobre os personagens gays.

Segundo a GLAAD Media, principal fonte quando o assunto é representação LGBT nas mídias em geral, dos 881 personagens que apareceriam na TV entre 2015 e 2016, 4% se identificavam como gays, lésbicas ou bissexuais. O argumento de que essa é uma representação proporcional à porcentagem de pessoas LGBT no mundo não confere: além de não existir virtualmente nenhuma forma de realmente medir esse número, visto que o assunto ainda é delicado e muita gente não responderia à pergunta ou responderia falsamente devido ao preconceito, uma recente pesquisa com a população jovem britânica, entre 18 e 24 anos, mostra que quase metade delas não se identifica como exclusivamente heterossexual. Sim, metade – ou melhor, 49%.

E vamos ser sinceros, televisão hoje em dia, especialmente na esfera de séries que repercutem on-line e ganham o seu público nesse ambiente, é feita para o público jovem, que pouco foge dessa faixa de idade pesquisada na Inglaterra. Emissoras ainda medem suas séries largamente pelo número de espectadores nas idades de 18 a 49 anos, mas quando se trata de fenômenos da cultura pop, o público jovem usuário das redes sociais é quem manda, e cada vez mais os produtores ficam cientes disso.

Jason Rothenberg
Jason Rothenberg

É justamente aí que o showrunner de The 100, Jason Rothenberg, se encontrou com um problemão. Como recentemente destacou um ator que saiu da série devido a problemas com o roteirista e produtor, The 100 é uma série com uma protagonista (Clarke) bissexual, personagens negros em posições de poder, personagens femininas fortes. Em todos os sentidos, é um exemplo de como criar um elenco diverso e interessante, e tem se promovido em cima disso, ganhado fãs que se enxergam nos personagens da série como não conseguem se enxergar em outros. Não é uma questão de espectadores LGBT só se identificarem com personagens LGBT, é uma questão de esses fãs estarem finalmente vendo em tela uma narrativa que faz parte de certa forma do seu dia a dia, uma realidade da qual eles fazem parte e que raramente esteve na tela da TV antes.

A reação desses fãs à cruel morte de Lexa foi espetacular: campanhas para abandonar e/ou cancelar a série, tweets raivosos direcionados à equipe de roteiristas e à Rothenberg, uma massiva queda de audiência na semana seguinte, e até uma corrente de fãs que usou a notoriedade para angariar fundos para um projeto que ajuda jovens LGBT em situações de risco. Como muitos apontaram, o ponto não é exatamente que Lexa morreu ou saiu da série, algo que os fãs já esperavam principalmente por conta de Alycia Debnam-Carey, a atriz que deu vida à personagem, ter um emprego regular em Fear the Walking Dead – conciliar duas séries em tempo integral não é algo que muitos atores fazem.

Ao invés disso, o problema foi como a saída da personagem foi tratada, e como a equipe da série reagiu à indignação dos fãs. Lexa morreu minutos (literalmente) depois de finalmente consumar sua relação com Clarke pela primeira vez, atingida por uma bala que era direcionada à protagonista, disparada por um homem de sua confiança que havia mostrado tendências homofóbicas e preconceituosas em capítulos anteriores. A intenção pode não ter sido essa, mas a mensagem que a morte manda é que o mundo, o acaso, alguma providência celestial, pune aqueles que amam pessoas do mesmo sexo. Que as pessoas que “se importam” podem se virar contra você se você for homossexual; que nenhum caminho é seguro se você “escolher” amar a quem você ama.

É uma mensagem cruel, e uma que vimos repetida tantas vezes no cinema e na TV que fica difícil engolir. A impressão é que roteiristas e diretores só estão interessados em contar histórias de personagens LGBT se esses personagens sofrerem algum tipo de retribuição cármica e trágica pelos atos que “cometem”. Ao mesmo tempo, as séries matam suas mulheres lésbicas com o descaso absoluto de quem só quer mover a trama adiante – nós nem mesmo vimos a reação de Tara à morte da sua amada Dra. Denise em The Walking Dead, e o assassinato de Mimi aconteceu fora de cena em Empire. Engajar espectadores em personagens que colocam a representatividade em pauta e depois dispensá-los dessa forma não é só desapontador e doloroso – é, de uma forma muito palpável, ofensivo.

denise-tara

Uma escritora do site Fandom Following, falando sobre a morte de Lexa, tornou tudo muito palpável ao citar o caso de pessoas que ela conhece que tomaram a partida da personagem com muita dificuldade. Falando à Jason Rothenberg em uma carta aberta, ela escreveu: “Aprenda como é ser uma lésbica de 20 anos de idade que não conseguiu dormir mais de três horas na última semana. Aprenda o que é ser um estudante de 16 anos, questionando sua sexualidade, que teve que voltar para casa da escola na manhã seguinte ao episódio, por conta de ataques de pânico. E se isso parece uma reação exagerada para você, só o que eu posso dizer é que você é muito sortudo por nunca ter precisado colocar tanta bagagem em cima de seu apego a um único personagem, porque você se sente representado em outros lugares. Nem todos nós temos esse privilégio”.

E o ponto não é, nem nunca foi, que personagens LGBT não podem morrer em séries, filmes ou outras obras de ficção. Não, o ponto é que é preciso contar as histórias deles, deixar que eles respirem e tomem vida antes de encontrar os seus destinos em mortes causadas pelo acaso ou pela falta de sorte. O ponto é que dói profundamente em muita gente ver que as pessoas com as quais elas dividem esse traço tão pontual e tão malvisto socialmente, na ficção, são constantemente mortas para servirem aos propósitos das histórias de outros personagens, ao invés de contar as suas. Dói ver que, mesmo que os roteiristas reproduzam isso inconscientemente, a história mais comum de uma personagem lésbica na TV é uma em que ela é imediatamente “punida” por se apaixonar por outra mulher.

Narrativa nenhuma existe num vácuo. Nenhuma série de TV é só uma série de TV. É discurso social, é importante, e tem um impacto profundo sobre a forma como vemos temas chaves e nuances de humanidade que existem, palpavelmente, na nossa sociedade. Uma ficção que não considera isso é uma ficção irresponsável, no mínimo, e preconceituosa, no máximo. E é triste que Empire, The 100, The Walking Dead e tantas outras caiam tão facilmente nessa armadilha.