A produção atribulada de Liberdade, Liberdade fica latente no primeiro capítulo da novela, exibido hoje (11) pela Rede Globo. A nova trama do horário das 11 estreou com um episódio curto, que amontoou em menos de meia hora a história de Tiradentes (Thiago Lacerda), líder da Inconfidência Mineira, guerreiro pela independência do Brasil e pai de Joaquina (Mel Maia), filha ilegítima que o soldado reconheceu só no final da vida.

Inicialmente assumida por Márcia Prates, que estrearia no comando de uma novela após uma série de parcerias, Liberdade, Liberdade passou por supervisões de texto de Euclydes Marinho (Capitu) e Glória Perez (O Clone) antes de cair no colo de Mário Teixeira, co-autor de I Love Paraisópolis, sob a direção geral do talentoso Vinícius Coimbra, da minissérie Ligações Perigosas. O resultado é uma história de roteiro truncado e um festival de clichês, mas habilmente dirigida e estilizada por Coimbra.

O primeiro take nos mostra Tiradentes olhando para o mar, e em seguida o acompanha por uma caminhada por Vila Rica – hoje Ouro Preto –, para encontrar um camarada inconfidente que lhe entrega um livro. O roubo desse livro e a revolta da rainha D. Maria I (Lu Grimaldi) levam Tiradentes e seu companheiro José Maria Rubião (Mateus Solano) a serem presos e torturados para entregarem os outros conspiradores. Cooperativos, os outros inconfidentes são perdoados, mas Tiradentes é “feito de exemplo” e, no final do episódio, condenado à forca.


A pequena Joaquina testemunha o acontecido, socorrida pouco depois da morte do pai por Raposo (Dalton Vigh), que a vê com o olhar fixo no corpo inerte do inconfidente. Nos próximos episódios, Raposo e Joaquina vão fugir do Brasil, perseguidos pelo traidor Rubião, e na segunda fase a menina vai voltar para Vila Rica já crescida, na pele de Andreia Horta, e despertar a paixão dos homens e o desejo de liberdade do povo.

Se a história parece ingênua e idealizada, talvez seja porque ela realmente é. Os diálogos de Mário Teixeira deixam a desejar em termos de profundidade e a novela parece só estar levando as coisas adiante, sem se importar muito com a construção dos personagens, ou a complexidade da mensagem que tenta passar. A mensagem de libertação e as cenas de tortura que devem ter lembrado a qualquer um assistindo os atos da ditadura militar no Brasil não consoam com o clima de tensão político que a Globo claramente tenta invocar com a chegada dessa história ao deu bloco dramatúrgico.

Toques de sutileza são adicionados pela direção. A cena da execução de Tiradentes é lindamente estruturada, com o detalhe de Joaquina assistindo à morte do pai e de Raposo a fazendo olhar para o outro lado lembrando a inesquecível cena da execução de certo personagem no final da primeira temporada de Game of Thrones – para a versão brasileira de um dos momentos mais marcantes de um dos melhores dramas no ar atualmente nos EUA, até que poderia ser pior.

Presos no texto, poucos atores se destacam do elenco: Lília Cabral é uma força da natureza como de costume, trazendo profundidade a uma personagem que parece deixada de lado pelo roteiro, como acontece com a maioria das personagens femininas, inclusive; a personalidade irascível de Antônia, mãe de Joaquina, só é vendida mesmo pela interpretação de Letícia Sabatella, porque o homem por traz do roteiro não parece disposto a lançar uma luz positiva sobre a personagem; por fim, Marco Ricca constrói um vilão imediatamente memorável e cheio de tiques como o saqueador Mão de Luva.

Confusa e pouco interessada em aprofundar-se nos personagens, ao menos nessa primeira fatia de história que corre e tropeça por uma parte enorme de narrativa que poderia render muito mais, Liberdade, Liberdade estreia sem a promessa de Velho Chico ou mesmo de sua antecessora no horário das 11, Verdades Secretas. Resta esperar para ver se a trama toma vitalidade na segunda fase.