ATENÇÃO PARA SPOILERS DA SÉRIE A SEGUIR!

Penny Dreadful é uma das melhores séries da televisão americana desde 2014. Quando a trama de terror de John Logan (007 – Operação Skyfall) estreou, dois anos atrás, era um animal difícil de decifrar, que se insinuava por cantos sobrenaturais e atualizava personagens clássicos do horror em uma narrativa coesa e mais preocupada com a essência dos seus protagonistas do que com qualquer estrutura convencional. Para gostar de Penny Dreadful, era importante acreditar nela.

O episódio de estreia da terceira temporada, “The Day Tennyson Died”, vai ao ar nessa sexta-feira, às 22h, na HBO. Dois anos depois da sua estreia, o que Penny Dreadful fez não foi só se comprometer intransigentemente a sua própria visão e estilo, mas construir uma história e uma galeria de personagens que convence, intriga, eletriza e carrega uma pesada carga sentimental para o espectador. Assustadora, de faro visual impecável e escrita com cuidado imenso, Penny Dreadful se tornou a obra-prima de todos os envolvidos nela.


O médico, o monstro e o lobisomem

Nesse começo do terceiro ano, encontramos nossos personagens espalhados pelo mundo: Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton) está na África, onde foi enterrar o corpo de seu fiel companheiro Sembene (Danny Sapani), morto por Ethan (Josh Hartnett) no final da temporada anterior, quando encontra com outro estrangeiro misterioso, o Nativo-americano Kaetenay (Wes Studi), que o chama para ir até os Estados Unidos ajudar Ethan. O lobisomem americano, por sua vez, está sendo escoltado pela polícia através do coração dos EUA quando mercenários, contratados por seu misterioso pai, matam todos no trem e levam Ethan com eles.

Dr. Frankenstein (Harry Treadaway) e sua criatura (Rory Kinnear) também estão separados. O doutor permanece em Londres, se entupindo de drogas para esquecer a traição de Lily (Billie Piper) – ele pede pela ajuda de um antigo colega de faculdade, um tal de Dr. Jekyll (Shazad Latif, excelente no papel), um cientista obcecado, é claro, por controlar quimicamente as reações emocionais raivosas dos seres humanos. Esse pequeno prelúdio de O Médico e O Monstro é escrito com inteligência por Logan, que entremeia a camaradagem cautelosa entre os dois doutores com a vontade de ambos de “domar” Lily, um impulso primal e machista que o roteirista retrata com incisiva negatividade.

Já o monstro, que como os fãs devem se lembrar passou a chamar a si mesmo de John Clare, se vê preso em um barco atolado no Ártico, com um grupo de homens que começa a pensar em se matar para ter o que comer. Quando uma criança doente dentro do navio começa a dar sinais de que está a beira da morte, Clare impede que os homens a matem e destrinchem, sentando-se para entoar uma cantiga de ninar para o menino – de repente, a criatura de Frankenstein tem um flash (lembrança, alucinação?) de estar fazendo a mesma coisa para outra criança, em outra vida, com um rosto não deformado pelas experiências do doutor. Clare termina com a agonia do menino ao seu lado de forma brutal, e parte do barco a pé, em meio ao gelo.

Vanessa e seus vampiros

Enquanto isso, Vanessa (Eva Green) se trancou na mansão em que foi deixada sozinha no final da temporada passada, vivendo em estado de letargia deprimida até que Ferdinand Lyle (Simon Russell Beale) vem ao seu resgate, lhe indicando para a Dra. Seward (Patti LuPone, retornando como personagem recorrente após a performance espetacular de convidada na temporada anterior).

Incentivando Vanessa a sair de seu estado deplorável, Lyle conta que também passou por um estágio de depressão, e que a Dra. Seward o ajudou a voltar a ter orgulho de ser quem é. Quando Vanessa vai visitá-la, a psiquiatra lhe passa um sermão impressionante, incluindo a descrição perfeita do ciclo de culpa em que Vanessa está metida há tanto tempo em sua vida amaldiçoada – na recepção da doutora, Renfield (Samuel Barnett), o famoso “devoto” de Drácula no livro original, aparece sem pretensão para, no final do episódio, nos dar o maior choque de todos: a primeira aparição, ainda que só em voz, do rei dos vampiros.

Esse fio de narrativa principal do episódio não só joga nas imensas virtudes de Green, Beale e LuPone, argumentadamente os melhores atores da série, mas representa muito a essência de Penny Dreadful: o que é a série de terror de John Logan senão o conto de personagens tão desafiadoramente humanos, falhos, imperfeitos e equivocados que são vistos como monstros pela sociedade monótona ao seu redor? Lá no final da primeira temporada, Penny Dreadful nos perguntou: é melhor ser tocado pelas trevas ou não ser tocado por nada? A resposta ainda está aberta para debate, é claro, mas a pergunta não é parte inerente à condição humana?

Alguém avise a Universal que não precisa mais produzir as refilmagens de filmes de monstros que eles tanto estão planejando. Nós já temos Penny Dreadful, e é mais do que o bastante.

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