Bem-vindos de volta ao Olhar Geek, e já que o assunto predominante na coluna da semana passada foi DC, nessa edição vamos falar de Marvel! Guerra Civil 2 está chegando, e com isso os motores dos fãs de quadrinhos vão esquentando para encarar mais um belo confronto entre os heróis da editora, que novamente se voltam uns contra os outros ao discutir uma questão fundamentalmente moral que tem muitas reflexões sobre o nosso mundo.

A primeira Guerra Civil foi sobre controle e responsabilidade governamental vs. liberdades individuais, especialmente dentro de um universo Marvel em que instituições e heróis corruptos se tornaram rotina. Muito se fala do “tom sombrio” da DC, mas em muitos sentidos a Marvel discute questões mais realistas e desafiadoras (e polêmicas) para a nossa realidade.

O que não faltou durante a divulgação de Guerra Civil, o filme, foram os diretores Joe e Anthony Russo dizendo que queriam se afastar um pouco dos quadrinhos no sentido de relativizar melhor a discussão e não deixar Tony Stark e o seu time como vilões. Parece que o lado editorial da Marvel tomou conhecimento, e o editor Tom Brevoort já fala sobre não fazer nenhum dos times da nova Guerra Civil estar “absolutamente certo ou absolutamente errado”.


Em um universo Marvel com um Capitão América agente da HYDRA, ambiguidade ética parece ser a palavra de ordem dentro da editora, e na levada de reverter expectativas, Guerra Civil 2 pode trazer uma resposta diferente da mais óbvia no sentido de quem será vitorioso no final e quem está com a superioridade moral na discussão. Um pouco mais á frente no nosso artigo, vamos falar um pouco sobre quem achamos que está certo, e por quê.

O que não deve ser novidade, no entanto, é exatamente qual tópico quente os heróis terão que discutir dessa vez – para os fãs de ficção científica e viagens no tempo, pelo menos, o dilema é bastante familiar.


Tom Cruise e Samantha Morton em Minority Report (2002)
Tom Cruise e Samantha Morton em Minority Report (2002)

O futuro a Ulysses pertence

A nova trama da Marvel chega com duas frases de efeito: “change the future” (mude o futuro) e “protect the future” (proteja o futuro). O conflito chega quando se descobre um novo Inumano, Ulysses, com a capacidade de prever o futuro de maneira muito exata – quando o novo personagem prevê que um herói vai causar muitos problemas em um futuro próximo, os outros vigilantes da Marvel se dividem em dois “times” quanto à forma de lidar com a informação.

De um lado, o time liderado por Carol Danvers, a Capitã Marvel, que advoga que, usando as habilidades de Ulysses, os heróis podem prever e parar crimes e eventos potencialmente cataclísmicos mesmo antes que eles aconteçam (mudar o futuro). De outro, o time liderado por Tony Stark, o Homem de Ferro, que advoga que crimes não podem ser julgados e condenados antes de acontecerem (proteja o futuro). O dilema aqui é entre determinismo e livre arbítrio, e é um em que fãs de ficção científica já se embromaram bastante.

Em 1956, o lendário escritor do gênero Philip K. Dick publicou Minority Report, um conto protagonizado por John Anderton, o chefe de uma divisão da polícia futurista em que três “videntes” preveem crimes antes de acontecerem. Quando um dos novos relatórios desses videntes aponta que o próprio Anderton irá cometer assassinato, ele começa a correr para descobrir porque mataria alguém que nem mesmo conhece, e se essa previsão determinista pode ser evitada ou não.

No final do conto de K. Dick, as falhas do sistema de “precogs” (nome dado a esses videntes) ficam expostas quando Anderton descobre que um dos relatórios dos videntes (1 de 3, e por tanto um “relatório da minoria” ou “minority report”) na verdade previa que ele não mataria Leopold Kaplan, um homem que está trabalhando para expor as falhas do sistema comandado por John. Cada um dos relatórios dos videntes previa uma realidade alternativa em que John havia lido o relatório anterior e, por isso, mudava sua decisão.

A teia de paranoias e controle governamental de K. Dick é típica do escritor, conhecido por assinar o livro que deu origem a Blade Runner – O Caçador de Androides, e alguns outros clássicos do gênero. No final de Minority Report, o conto, Anderton decide matar Kaplan, descobrindo através do terceiro dos relatórios que a sua vítima estava planejando um golpe de estado que instalaria uma ditadura severa. Na trama, os “precogs” são “o menor de dois males”, e prevenir crimes que ainda não aconteceram assim se justifica – mesmo que você também mate para fazê-lo.

O filme feito por Steven Spielberg em 2002, embora apenas levemente inspirado pela premissa original, traz um dilema parecido com uma resolução diferente. Quando, no final, o previsto assassino decide se matar ao invés de puxar o gatilho no herói Anderton (Tom Cruise), o sistema dos “precogs” é desativado e descreditado, e a liberdade individual de escolher seus próprios crimes, especialmente com a consciência do próprio futuro instalada na cabeça do assassino (ou da vítima), sai soberana da história. Uma vez que sabemos de nosso destino, somos capazes, nós mesmos, de muda-lo.


Kyle Chandler na série Edição de Amanhã (1996-2000)
Kyle Chandler na série Edição de Amanhã (1996-2000)

Jornalismo premonitório

Tom Cruise não foi o único a lutar com a possibilidade de prever o futuro, no entanto. Na ficção científica O Tempo é uma Ilusão, produzida em 1944, Dick Powell interpreta um ambicioso repórter dá virada do século que recebe de um misterioso velho na rua um jornal muito especial, contendo todos os acontecimentos do dia seguinte. Ele usa as informações para ganhar promoções e aumentos de salário, casa-se com a filha de um vidente (Linda Darnell) e tudo parece estar dando certo, até que o jornal “do futuro” prevê que ele mesmo irá morrer em breve, o que deixa o jovem jornalista em busca de uma forma de mudar esses acontecimentos.

Quase a mesma coisa acontecia em Edição de Amanhã, série exibida pela CBS entre 1996 e 2000, levemente inspirada no filme estrelado por Dick Powell. Aqui, um Kyle Chandler pré-Friday Night Lights e Bloodline interpreta o recém-demitido banqueiro Gary Hobson, que um dia, sem mais nem menos, começa a receber em sua porta a edição do jornal do dia seguinte. Em cada um dos 90 episódios produzidos, Gary tem a ajuda dos amigos Chuck (Fisher Stevens) e Marissa (Shanesia Davis) para decidir o que fazer com as informações que recebe.

O Tempo é uma Ilusão e Edição de Amanhã são uma dupla interessante de se colocar lado a lado largamente porque representam dois lados de uma mesma situação. Enquanto no filme de 1944 os esforços do jovem jornalista para impedir coisas terríveis de acontecer são em vão (de fato, a sua interferência cria as circunstâncias que levam o previsto a se concretizar), em Edição de Amanhã o banqueiro Hobson tem níveis variados de sucesso na missão de “mudar o futuro”, dependendo do caso.

A reflexão sobre determinismo e destino é perpetuamente interessante para nós como espectadores (e leitores) porque é uma questão que muitas vezes fazemos a nós mesmos – são as nossas escolhas que nos guiam, ou estamos predestinados a algo? Há um destino escrito à ferro e fogo, ou nossos atos são capazes de nos levar para caminhos completamente diferentes? No famoso dilema do gato de Schrodinger, não sabemos se o animal preso em uma caixa está vivo ou morto até abrirmos a caixa, o que indica que o nosso futuro é incerto até que tomamos a decisão que o torna definitivo. Ao mesmo tempo, o gato não esteve apenas morto (ou apenas vivo) esse tempo todo? O nosso destino é algo que descobrimos, ou algo que criamos?

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Qual é o seu time?

Esses são os times de Guerra Civil 2, o novo evento da Marvel. Do lado da Capitã Marvel, buscando prevenir crimes que ainda não aconteceram e “mudar o futuro”, ficaram Steve Rogers (Capitão América), Máquina de Guerra, Homem-Aranha, Visão, Medusa, Marvel Azul, Soldado Invernal, Spectrum, Mulher-Hulk, Gavião Arqueiro e Homem-Formiga. Já no time do Homem de Ferro, advogando por “proteger o futuro”, chegaram Sam Wilson (Capitão América), Jane Foster (Thor), Pantera Negra, Senhor das Estrelas, Luke Cage, Hércules, Miss America, Demolidor, Viúva Negra, Hulk e Deadpool.

As motivações de cada um dos heróis devem aos poucos ficar claras conforme o leitor passar pela minissérie e pelas edições “extras” de outros personagens. Os X-Men vão ganhar uma série particular em que Magneto e Tempestade se enfrentam pela posse do poder de Ulysses, o Inumano que prevê o futuro; já o Homem-Aranha vai servir como uma espécie de mentor para o novo personagem, o ensinando a lidar (é claro) com a responsabilidade de seus poderes.

Mas e aí, qual é o seu time? Como a cultura pop nos mostrou, prever o futuro e tentar muda-lo é como andar na corda bamba. O famoso “efeito borboleta” prega que cada um de nossos atos tem uma consequência firme no desenrolar do futuro, mas, ao realmente saber do nosso futuro, nós não agiríamos diferente? Ou será que esse futuro acontece justamente porque ficamos sabendo, e por isso agimos diferente?

Na luta por “mudar o futuro”, a Capitã Marvel e seus apoiadores podem fazer tal futuro acontecer. Na luta por “proteger o futuro”, Tony Stark e companhia podem permitir um terrível destino de se concretizar. Parece que a moral da história quando se trata de prever o nosso futuro é que, mesmo quando sabemos, nós não sabemos de fato de nada. Dependendo das regras do universo Marvel, a razão pode estar com um ou outro dos grupos – ou pode não estar com ninguém.

A Olhar Geek retorna na próxima quarta-feira (08).