Nas últimas semanas, a Netflix conseguiu um feito com a sua série original inspirada nos mais bem sucedidos filmes oitentistas de aventura e terror. Além de provocar uma comoção nas redes sociais com memes, discussões acaloradas sobre teorias e caça as referencias dos anos 80, não me recordo da Netflix ter tido uma recepção tão eficiente a uma produção original desde House of Cards. Ponto para o serviço de streaming que acertou na mosca ao produzir uma aventura bem amarrada com roteiro e elenco afiadíssimos.

Se escalar atores do cinema oitentista como Winona Ryder (Edward Mãos de Tesoura) e Matthew Modine (Nascido para Matar) foi um acerto, surpresa mesmo é ver a nova geração de atores mirins roubarem a cena. O grupo de adolescentes que serve de espinha dorsal para a trama é formado por Mike Wheeler (Finn Wolhard), Dustin (Gaten Matarazzo), Lucas (Caleb McLaughlin), Will Byers (Noah Schnapp) e a revelação Eleven (Millie Bobby Brown). A química da garotada funciona que é uma beleza e prestigia o público com aquele mood que os Goonies ou Conta Comigo tinham de nos entreter com um grupo de amigos aventureiros com walkie talkies, mochilas e bicicletas.

Em linhas gerais, a série dá o start com o sumiço misterioso de um membro do grupo, Will Byers. Depois de uma noite regada a RPG com Demagorgons (Dungeons & Dragons), Will sai pedalando tarde da noite pela estrada deserta e é surpreendido por uma ameaça sem rosto monstruosa. A partir dali, seus amigos surtam com seu sumiço e principalmente sua mãe, a instável Joyce (Ryder). O desaparecimento do garoto vem acompanhado de uma série de fenômenos sobrenaturais que acompanham a rotina bucólica dos cidadãos da pequena cidade de Hawkins, Indiana.


Escolha acertada dos realizadores, demorar para revelar a ameaça em sí é bastante eficaz, o espectador leva um tempo para ver na tela o ser nitidamente, o que ressalta mais ainda o terror e a aflição. Além disso, todo o clima perturbador minuciosamente construído para cada cena é brilhantemente emoldurado pela trilha sonora fiel aos filmes da época com seus sintetizadores a todo vapor. Falando nisso, somos brindados com uma seleção de músicas maneiríssimas que vão desde Joy Division até Modern English. Se estivéssemos nos anos 80 as fitas cassete ou vinis de Stranger Things venderiam que nem água…

Os realizadores da série são os Irmãos Duffer, que assinam como roteiristas e diretores da maioria dos episódios da primeira temporada. Com uma carreira até então tímida, os irmãos pisam agora no acelerador e movimentam o mercado com um potencial enorme para outros projetos, especialmente no cinema. É notório que Stranger Things é criação de gente que consumiu cultura pop oitentista e tem carinho pelas produções da época.

Uma miscelânea de referências se desenham na tela a todo momento, seja em um momento Poltergeist com criança sozinha no quarto sendo atraída pelo ser sobrenatural, ou o grupo de amigos caminhando ao longo do trilho de trem à la Conta Comigo, sem contar os passeios de bicicleta que a qualquer momento parecem que vão levantar vôo ao melhor estilo ET – O extraterrestre. Spielberg deve ter dado um sorriso em algum lugar dos Estados Unidos.

Stranger Things veio para se consolidar como um novo Twilight Zone, quem sabe? É produção de qualidade, com um time altamente qualificado e que tem oportunidades diversas para explorar o sobrenatural de forma inteligente, como foi esta primeira temporada.

A segunda temporada não foi confirmada ainda pela empresa de streaming, porém é quase certo um retorno, ainda mais depois do clamor social. O desfecho, como tem de ser, implanta uma dúvida interessante no público e deixa no ar o gancho para ser desenvolvido em 2017, com sorte, assim esperamos.

Que a expressiva Eleven continue entre nós.