Todas as histórias da Marvel Studios, desde 2008, quando o estúdio nasceu com Homem de Ferro, foram contadas sob o ponto de vista de um homem branco – e isso não pode ser ignorado. Embora tenha enriquecido seu mundo com coadjuvantes de etnias diferentes (e caminhe ainda mais nesse sentido no futuro), a Marvel ainda não havia contado uma história que mergulhasse fundo nas questões particulares do universo do afro-americano – e a hora chegou, com Luke Cage.

Mergulhado na cultura hip hop, nas ruas do Harlem e na força de seu protagonista, que enfrenta questões de racismo de frente, a nova série da Marvel/Netflix é uma anomalia bem-vinda ao universo cinematográfico da editora, conforme saudada pela maioria dos críticos que já viram metade dos episódios da primeira temporada antes da estreia.

Briga de gangues

A história começa meses depois de Jessica Jones, com Luke Cage tendo se mudado de Hell’s Kitchen para seu Harlem natal, onde tenta manter um perfil discreto e trabalhar dois empregos: varrendo os cabelos do chão da barbearia de Pops (Frankie Falson) e lavando pratos na boate de Cornell “Cottonmouth” Stokes (Mahershala Ali). Alguns dos meninos que frequentam a barbearia tentam roubar a boate de Cottonmouth, e o conflito resulta em Cage finalmente usando seus poderes de superforça, colocando a narrativa em movimento.


A história de Luke Cage se concentra na dupla de vilões formada por Cottonmouth e sua irmã, a política Mariah (Alfre Woodard), que deseja que seu irmão mantenha um perfil mais discreto. A crítica da Collider aponta que essa dualidade é a mesma que existe dentro de um vilão só em Wilson Fisk, de Demolidor. “Cottonmouth só se importa com dinheiro, poder e respeito, e Mariah usa esses mesmos meios para chegar em seus fins, que são altruístas. É uma corrupção complicada”, escreveu em seu review.

“A palavra certa para Luke Cage é ‘real’. A série considera questões reais e importantes para a comunidade afro-americana, o que resulta em uma história que carrega uma gravidade sóbria”, comentou o crítico da We Got This Covered, por sua vez, elogiando o fato de que o universo Marvel encontrou sua relevância sociopolítica dentro da Netflix, enquanto a Collider faz paralelos com a forma como Jessica Jones aborda “questões complicadas sobre estupro, consentimento, poder e sobrevivência”.

The Wire com superpoderes

Comparação feita pelo próprio Mike Colter e aproveitada por virtualmente todos os críticos, Luke Cage é como The Wire com superpoderes. Exibida entre 2002 e 2008 na HBO, The Wire (ou A Escuta, como ficou conhecida por alguns no Brasil) mostrava o mundo das drogas de Baltimore, visto tanto por policiais quanto por criminosos. Por conta de sua origem quadrinesca, Luke Cage se restringe a certa dose de realismo e certa dose de caricatura, com policiais escorregadios e abusadores a todo canto, mas a mensagem e o espírito de mergulho na cultura do crime urbano é a mesma.

Isso sem contar o elenco de personagens inesquecíveis. Simone Missick, que interpreta a detetive Missy Knight, novo par romântico de Luke, não limita a esse papel – o We Got This Covered descreve sua participação assim: “Ela identifica pistas e até vê aparições quando olha para as cenas de crime, e sua intuição afiada é apresentada como um superpoder tão extraordinário quanto o de Luke, o que é muito, muito legal”. As participações de músicos reais em meio às muitas referências da série ao hip hop (todos na boate de Cottonmouth) também não passam despercebidas.

No entanto, é Mike Colter quem brilha mais. “Como vimos em pedaços de Jessica Jones, ele empresta à Luke um senso de reticência misturado com um senso de desafio, que encontra todos os momentos certos para brilhar. Ele é um herói que usa sua força como último recurso, e a usa em tons baixos e com confiança. Embora não seja sempre tão convencido, Luke Cage tem esse magnetismo e esses princípios que os fazem como um Capitão América para esse grupo específico de personagens, nesse contexto”, escreveu a Collider.

Luke Cage, aclamada com ao melhor série da Marvel até o momento, chega à Netflix nesta sexta, 30 de setembro.

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