ATENÇÃO PARA SPOILERS A SEGUIR

American Horror Story é uma série de terror em que o que menos importa é ser assustador. Desde sua atribulada estreia em Murder House, e de forma definitiva a partir de Asylum, American Horror Story sempre foi mais sobre o “story” do que sobre o “horror” – o que definia uma boa ou má temporada era o engajamento de Ryan Murphy e companhia com a história, e os temas em que ela tocava, que traduziam medos e ansiedades de toda a sociedade ocidental (não só norte-americana).

Por isso, durante os cinco primeiros episódios de Roanoke, 6ª encarnação da trama na FX, a verdade é que este que vos fala não sabia exatamente o que estava movendo tanta gente a proclamar essa temporada como a melhor de American Horror Story até agora. My Roanoke Nightmare tinha alguns sustos, sim, mas a trama parecia preguiçosa, o formato pouco aproveitado para os efeitos da história, e, essencialmente, a temporada não parecia estar falando de nada.


Então, como um oásis no meio do deserto, apareceu “Chapter Six” (6×06), o excepcional episódio dirigido por Angela Bassett que virava a premissa da temporada de cabeça para baixo ao encerrar as encenações de My Roanoke Nightmare e mergulhar nos bastidores de uma segunda produção, que levava atores e personagens “reais” de volta para a casa mal-assombrada da trama. Naquele momento, American Horror Story: Roanoke passou a fazer sentido, e daí em diante não descansou mais – a verdade é que essa 6ª temporada triunfa por ser uma paródia de si mesma.

Asylum traduziu ansiedades sobre a banalidade do mal e a culpa católica; Frakshow era sobre rejeição, soberba, opressão e a ilusão de superioridade dos ditos “normais”; e Roanoke é uma sátira sobre a obsessão pela celebridade, a cultura da mídia alimentada por um ciclo de notícias de 24 horas. Só durante seu episódio final, exibido na última quarta-feria (16), Roanoke passou por uma série de “reinvenções” – um programa documental detalhando a vida de Lee pós-Roanoke, uma entrevista da mesma com Lana Winters, um programa de caçadores de fantasmas…

A cada renovação dentro de si mesma, Roanoke parece querer nos mostrar que o ridículo da nossa obsessão por consumo atinge níveis ainda maiores que o esperado. Sucesso em mídias sociais, números de audiência, tudo isso parece importar mais do que a a vida humana. O que Murphy quer nos mostrar é que a linha entre realidade e ficção está tão borrada num mundo pós-reality shows que, às vezes, esquecemos de considerar consequências muito concretas de atos desenhados para suportar uma narrativa ficcional, seja ela a ideia iludida que temos de nós mesmos ou, mais literalmente, um programa de TV.

É preciso parar para aplaudir a performance de Sarah Paulson nesse sentido: sua Shelby Miller era a perfeita e sutil paródia da personagem que Lily Rabe veio a interpretar (magnificamente) na segunda metade da temporada, mas é como a atriz Audrey Tindall que Paulson brilha em toda a glória de seu sotaque britânico exagerado, suas exclamações fora de hora (“Me deixem em paz! Não sou americana! Não estou acostumada com essa carnificina!”), seu entendimento perfeito do tom e mensagem da temporada.

Comparável a ela, só mesmo a sempre magnífica Kathy Bates, que encontra papeis saborosos tanto na Butcher quanto na atriz que a interpreta, a perturbada Agnes Mary Winstead – sem descambar para o exagero, Bates é capaz de inspirar medo tanto quanto pena e fascinação. Frances Conroy faz um trabalho semelhantemente memorável em seu único episódio como a matriarca “falsa” da família Polk, e nessa brincadeira os elos fracos da temporada acabam sendo os homens – de um histriônico Cuba Gooding Jr a um inexpressivo Wes Bentley.

A aparição de Paulson durante o episódio final, no papel de Lana Winters, a personagem que encarnou em Asylum, resume bem o espírito de Roanoke, que encontra na sua linguagem e formato uma forma de passar sua mensagem: Lana parece fascinada por Lee, mas extremamente entediada com toda a atenção que a mesma está recebendo. O nada sutil escárnio de Lana pelo comportamento do jornalista que a entrevista no final é a marca de uma American Horror Story que olhou para si mesma, e para a comoção que tem causado, e não gostou do que viu.

A boa (?) notícia é que, gostando ou não, ano que vem tem mais.

American Horror Story: Roanoke
American Horror Story: Roanoke