ATENÇÃO PARA SPOILERS DA SÉRIE A SEGUIR

Entre 2007 e 2016, datas de término e “ressurreição” de Gilmore Girls, o mundo mudou muito. Da dominação das redes sociais às mudanças de poder tanto nos EUA quanto aqui no Brasil, parece que nossas vidas estão mais cheias do conflito que eram anteriormente – e talvez por isso o revival bancado pela Netflix, com o subtítulo Um Ano Para Recordar, é o tipo de série confortável, deliciosa e engraçada que precisamos.

Claro, isso não significa que a série tem medo de empurrar seus personagens para caminhos difíceis e trazer alguns momentos dolorosos – não seria Gilmore Girls sem uma dose saudável de drama também. O formato de 90 minutos por episódio poderia ter sido uma armadilha para uma série que sempre teve capítulos com metade dessa duração, mas todos eles são bem escritos e tem um ritmo que nunca parece arrastado, já que há muita coisa que a criadora Amy Sherman-Palladino queria passar.


Se Stars Hollow continua basicamente a mesma, as Gilmores Girls de fato (Rory, Lorelai e Emily) estão em momentos difíceis de suas vidas. Lorelai ainda vive com Luke, mas está começando a se sentir estranhamente acomodada; Rory, apesar do sucesso na carreira, subitamente se encontra sem emprego e sem um teto para morar, o que a deixa perplexa; por fim, Emily está de luto pela morte de Richard, trocando suas roupas elegantes por jeans e camiseta e parecendo mais deprimida e ácida do que nunca.

Reunião agridoce

Com retornos de séries amadas pelo público, pode ser uma tentação muito grande fazer com que os personagens retornem amáveis e com vidas perfeitas, mas Gilmore Girls não tem medo de mostrar que elas ainda estão crescendo, e inevitavelmente entrando em conflito. Lorelai e Emily tem discussões particularmente importantes, e Lauren Graham e Kelly Bishop continuam afiadíssimas na pele dessas personagens, apresentando uma sinceridade emocional que é parte grande do porquê amamos Gilmore Girls.

Mesmo assim, Gilmore Girls não tem medo de se divertir. Rever os personagens é delicioso, e Amy Sherman-Palladino traz todos eles de volta mesmo que em pequenas cenas, enquanto revela coisas novas sobre eles e sobre Stars Hollow, a cidade cheia de surpresas mais amada de todo mundo. Alguns convidados especiais inéditos também aparecem, o que adiciona ao tom paciente e relaxado da série, que segue a deixa da original e parece mais uma continuação do que um reboot.

De forma infame, os Emmys ignoraram Gilmore Girls em suas temporadas originais, mas seria um crime se a premiação da TV novamente negligenciasse indicações para as três mulheres centrais e o trabalho de Sherman-Palladino no roteiro. Gilmore Girls é um conto sobre família, em muitos sentidos, e a estreia no Dia de Ação de Graças, feriado mais “familiar” dos EUA, não é por acaso.

Não é sempre que vemos uma continuação exceder expectativas e trazer de volta uma série que amamos de forma digna – valem palmas para a Netflix, para Palladino, e para cada uma dessas maravilhosas atrizes.

Gilmore Girls: Um Ano para Recordar
Gilmore Girls: Um Ano para Recordar