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Quando Westworld começou, 10 semanas atrás, a conversa dos críticos em torno do tema da série parecia girar sempre no mesmo eixo: o que é ser humano? Essa pergunta essencial que tantas obras de ficção científica fazem, fizeram e continuarão fazendo é tão ampla e vaga, no entanto, que me parece um descrédito a Westworld repeti-la. A série da HBO não é sobre “o que é ser humano”, mas muito mais essencialmente sobre a natureza da realidade.

Com seus pianos mecânicos e seus “fins violentos para prazeres violentos”, Westworld traça a jornada de seus protagonistas robóticos tomando cuidado para nos apresentar uma história que é espelho perfeito da nossa experiência humana, mesmo que em situações tão radicalmente diferentes (na superfície). Basta olhar para Dolores (Evan Rachel Wood) no primeiro e no último episódios da temporada para perceber que a personagem passou por um arco de questionamento da realidade repetitiva e ditada por forças exteriores que ela vivia.


Sutilmente transgressiva, Westworld quer nos mostrar que a realidade de estar “preso em um pesadelo” inventado por outrem não é tão distante do que vivemos diariamente, e o ciclo de empoderamento de Dolores e Maeve (Thandie Newton) é especialmente simbólico pelas situações cruéis em que ambas se encontravam nessa ordem social. Como toda boa ficção científica, Westworld é “uma mentira que conta uma verdade mais profunda”, e é urgente que a vejamos assim, ou seu valor como fenômeno pop é praticamente nulo.

O trabalho de Jonathan Nolan e da esposa Lisa Joy liderando os roteiros e (no caso dele) a direção da série faz diferença pela unidade criativa que representa, o que já é de praxe nas produções da HBO. Usual também é a excelência em aspectos técnicos e na concepção de detalhes como o figurino e o design de produção. Nolan, especialmente, demonstra insuspeito talento para a cadeira de diretor, estabelecendo referências visuais claras no episódio de estreia, “The Original” (1×01) e concluindo a jornada com precisão e coerência em “The Bicameral Mind” (1×10).

Ajuda que a dupla de criadores tenha um elenco tão diverso e eficiente em mãos. Por seus papeis de androides, os destaques são provavelmente Evan Rachel Wood, Thandie Newton e Jeffrey Wright, que acompanhamos mais de perto enquanto revelavam as particularidades e reações emocionais dos chamados “anfitriões”. A transparência de Wood, o brilho nos olhos de Newton e a profundamente compreendida confusão mental de Wright são pontos altos dos dez episódios iniciais.

No elenco de humanos, não dá para negar que Anthony Hopkins trouxe o melhor do seu jogo para a série, como não vemos há algum tempo no cinema – seu Ford é um enigma quietamente ameaçador, mas intrinsecamente resignado, e Hopkins planta pequenas dicas durante a temporada das verdadeiras intenções do personagem. A chave aqui é que o eterno Hannibal Lecter atua o tempo todo como o Ford que só viríamos a conhecer de verdade no episódio final da temporada, e sua morte só se torna mais agridoce por isso.

Não tão diferente do que fez com sua última série, Person of Interest, Jonathan Nolan constrói aqui uma narrativa profundamente interessada no universo em que seus personagens atuam, que procura comunicar noções e ideias complexas de uma forma acessível. O nível de sofisticação de Westworld é enganoso – no fundo, essa não é uma série sobre robótica, múltiplas linhas do tempo e disputas de poder corporativo. É só mais uma história sobre nós, e com o que nos importamos. Como tal, ela precisa ser ouvida.

Westworld
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