Entrevista | “Eu cresci como pessoa depois do filme”, diz Octavia Spencer sobre A Cabana

Na última semana, a atriz vencedora do Oscar Octavia Spencer esteve no Windsor Plaza Hotel, em Copacabana, no Rio de Janeiro para uma coletiva de imprensa sobre o filme A Cabana. Baseado na obra literária de mesmo nome, um best-seller escrito por William P. Young, o longa acompanha a jornada de Mackenzie enquanto este passa por provações que o levam a um encontro definitivo com Deus.

Confira a entrevista completa de Octavia Spencer:

Qual é a mensagem principal do filme e o que Papa falaria para Trump se ele chegasse na cabana?

Acho que a mensagem para o Trump seria a mesma mensagem para todos: “amem uns aos outros”. É de acordo com isso que tento viver. Quanto a mensagem do filme… Eu prefiro não dizer às pessoas o que pensar. Acho que todos temos tantas experiências diferentes e são essas experiências que moldam quem somos, então a mensagem que nós precisamos do filme é sempre diferente da mensagem que outros precisarão. Eu apenas os convido a ver o filme de acordo com suas próprias experiências.

O filme trata de motivação e de fé. De ter ou não fé. E você faz um papel extremamente importante no filme, que é Deus. Como você recebeu esse papel e como foi criar esse personagem tão forte e tão especial?

Eu li o livro esperando que ele fosse um suspense, pois ele era vendido como um. Mas eu amei o fato de ter esse lindo elemento de fé onde um homem sofre uma tremenda perda que o deixa incapaz de retomar a vida e evoluir como ser humano. Amei a maneira com que a fé foi introduzida. Ali são feitas perguntas muito importantes para Deus, coisas que muitas pessoas perguntariam. Quando eu li o livro percebi que haviam coisas das quais eu precisaria me desprender. E depois que eu terminei de fazer o filme eu senti isso mais uma vez como uma espécie de epifania, uma catarse. Minha motivação como atriz foi puramente egoísta. Eu queria fazer parte de algo que oferecesse esperança e cura para o mundo e, meu Deus, como precisamos disso agora!

Como você vê toda essa movimentação de Deus tentando dar uma oportunidade para o personagem do Sam Worthington ter fé?

A maneira com que Deus se apresenta ao Sam é muito orgânica. Deus não tenta forçar ele a acreditar ou a perdoar. Ele basicamente permite que ele tenha experiências diferentes e chegue a suas próprias conclusões.

Uma das grandes qualidades do livro “A Cabana” é a caracterização socialmente descontraída da Santa Trindade. Trata-se de uma jornada de autoconhecimento e sua base é sobre amor e perdão. Numa fase tão conturbada historicamente, como você enxerga esse processo?

Uma das coisas que eu também amei sobre o filme e o livro foi como a Santa Trindade foi apresentada. Eu amei poder interpretar o Todo Poderoso de uma perspectiva “de mãe para filho”. Essa foi a forma com a qual eu construí a personagem. Deus nos fez à sua imagem. E o fato de que William P. Young (o autor do livro) decidiu incluir latinos, asiáticos, israelense e afro-americanos na história não muda o cristianismo, apenas nos permite ver Deus através de nós. E não creio que haja uma afirmação de que Deus seja uma mulher, uma mulher negra. Acho que tem mais a ver com o fato de termos, todos nós, sido feitos à Sua imagem.

Como foi para você a experiência de adaptar um livro que é um best-seller com mais de 30 milhões de exemplares vendidos no mundo todo?

O fato de o livro ser um best-seller de tanto impacto apenas mostra que as pessoas se sentem da mesma forma que eu em relação a ele: que elas encontraram o componente de cura que elas precisavam no livro. Eu não acho que seria um best-seller se as pessoas não vissem a beleza que está contida nessa história.

E como foi atuar com o Sam e com a brasileira Alice Braga?

Eu realmente gostei de trabalhar com o Sam. E com a Alice eu não tive nenhuma cena, mas sou uma grande fã de seu trabalho. A cena na qual ela trava o diálogo com Sam é a minha favorita no filme: quando a Sabedoria mostra para o homem como passamos boa parte de nosso tempo julgando as pessoas.

No início do filme, Missy pergunta ao seu pai algumas sérias questões sobre religião. Você acha que as pessoas podem se identificar com tais questionamentos de uma forma melhor sendo que eles vêm de uma criança e não de um adulto?

Sem dúvidas. Uma das maiores qualidades do “storytelling” através dos olhar de uma criança é que há a inocência e não há julgamentos. Sempre vem de um lugar de curiosidade e amor. Eu amo que ela pergunte várias coisas importantes para seu pai e que para muitas dessas coisas ele também não saiba a resposta… até o momento em que ele perde sua filha. É uma história muito bonita e tocante.

Alguma coisa mudou em você depois de fazer esse papel? No modo de pensar, de agir ou de tratar as pessoas?

Eu gosto de pensar que sempre fui a mesma pessoa. Vivo minha vida de acordo com a regra de ouro: “trate os outros como você gostaria de ser tratado”. Então não mudou tanta coisa assim para mim. Mas fazer esse papel definitivamente teve um impacto em minha vida e eu percebi que haviam algumas coisas nas quais eu havia me apegado que antes eu nem sequer sabia que estava me apegando. E quando eu me libertei disso eu fui capaz de seguir em frente. Eu cresci como pessoa depois do filme. A vida é uma jornada espiritual. Todo dia você enfrenta decisões que vão afetar a sua vida e também as vidas de outras pessoas. Como se administrar essas decisões? Enfim, eu não posso dizer que mudei muito a ponto de me olhar no espelho e não me reconhecer. Mas essa é a beleza disso tudo: eu mudei apenas o suficiente.

Como foi a preparação para o papel?

Eu trabalhei com um pastor local, que é meu amigo, para conhecer melhor as doutrinas do cristianismo. Também recebi muitos livros do diretor e isso acabou ficando comigo dentro do meu coração. Não há uma referencia específica de como se interpretar Deus. Então eu tive que focar na humanidade. E, para mim, o foco era: se o Todo Poderoso é o pai de todos nós, então o meu papel como Deus será o de mãe do Sam. Essa foi a forma com a qual eu abordei a personagem. Eu era uma mãe que tinha um filho que pensava ter sido traído ou abandonado. E não houve muito tempo de preparação para desenvolver uma espécie de relação com o Sam, o que foi lindo para mim, pois os nossos personagens eram estranhos um para o outro. Então essa distância foi boa para a nossa interação em cena.

Vivemos dias muito conturbados, onde a violência e o ódio têm predominado ao redor do globo. Você acredita que as pessoas, ao assistirem ao filme e ao entenderem essa mensagem de perdão, de cura, de esperança vão poder trabalhar para ter uma sociedade um pouco melhor?

Eu acho que violência, ódio e todas essas coisas estão aí desde o início dos tempos. Mas existe um outro lado nosso como seres humanos. E é nisso que devemos nos apoiar: no bem que existe em todos os seres humanos. Se pararmos de olhar para nossas diferenças e focarmos em nossas semelhanças – todos nós queremos felicidade, todos nós queremos o melhor para nossos filhos, todos nós queremos fazer as coisas que amamos – se forcarmos nessas coisas viveremos felizes. De qualquer forma, há também gente que quer mais. E aí faz guerras, gera violência. Espero então que esse filme faça com que cada um se examine. Espero que ele ofereça isso, mas também espero que ofereça cura, pois muita gente faz coisas erradas por estar ferido. Se essa pessoa for capaz de se curar, este é um grande início. Para mudarmos o mundo, primeiro precisamos mudar a nós mesmos.

No dia a dia, Octavia conversa com Papa?

Sim. Eu converso com Deus todos os dias. Essa é a melhor maneira de se começar um dia.

E como foi a construção dessa conversa no filme, baseado na que você tem com Deus?

É muito diferente quando se precisa “encarnar” Deus. Mas minha relação com Ele certamente me orientou a construir o papel. Eu também sou uma serva e também sou uma filha de Deus. Para mim, era como se eu estivesse a serviço do papel. Minhas conversas com Deus… Bom, é meio esquizofrênico conversar com Deus quando se interpreta Ele, então eu tive que me desprender disso e abordar o papel numa perspectiva de mãe para filho ao invés de representa-lo como uma deidade.

A Cabana estreia nos cinemas brasileiros no dia 06 de abril.

Crítica | A Cabana