Crítica | Sense8 – 2ª Temporada

A primeira temporada de Sense8 foi celebrada, com razão, em diversos sentidos. Criativa, a série marcava o retorno das Wachowski aos bons momentos vistos lá atrás com Matrix, Sense8 alia diversos gêneros através de uma premissa fantástica, unindo mentalmente diversas pessoas ao redor do mundo. Além de curiosa, empolgante e até mesmo divertida, a produção trazia em seu cerne temas que tocam diretamente o íntimo de suas realizadoras, a questão fundamental da identidade, não só de gênero, mas de realmente descobrir o lugar do indivíduo no mundo. A segunda temporada ainda debate essa temática, mas agora numa dimensão muito mais ampla, numa perigosa pretensão.

A segunda temporada começa imediatamente após o longo episódio especial de natal, os conflitos pincelados ali serão levados a cabo durante os dez episódios e promete ocupar por muito tempo as vidas dos oito heróis da série. Pode se dizer que o grupo está muito mais forte e unido, compreendendo muito bem seus poderes, entendendo a habilidade específica de cada um e podendo visitarem-se com muito mais liberdade e consciência. Logo de cara isso faz com que seus desafios necessitem de uma maior complexidade e suas relações tornam-se muito mais intensa, os oito interferem conscientemente em cada decisão.

Essa radicalização das habilidades especiais do grupo faz com que a narrativa seja levada para essa dimensão do bigger than life, colocando cada um dos personagens em conflitos que vão muito longe de problemas internos ou particulares. Se na primeira temporada esse conexão estava bastante ligado a dramas de ordem pessoais agora quase tudo está inserido numa esfera global. Algo muito notável em Kala e Capheus, por exemplo, a primeira tinha sua narrativa muito ligada a um choque de cultura, uma vez que ansiava por mais liberdade frente as suas tradições na mesma medida que respeitava tudo aquilo que foi passado de geração a geração. Nessa conjuntura os outros sete personagens ajudavam Kala a ter uma nova perspectiva de seu mundo. Agora mesmo com problemas no casamento e seu relacionamento com Wolgang, Kala está notando a presença de seu marido numa grande conspiração envolvendo a indústria farmacêutica e também é um dos pivôs de uma efervescência entre grupos de conservadores e reformistas da cultura de seu país.

Algo parecido ocorre com Capheus, se antes a violência de sua região habitava num pequeno grupo de influência regional, sendo os problemas solucionados ali pelo personagem passavam-se em seu bairro. Agora, com sua popularidade e fama nacional, Capheus entra para a conturbada política de seu país, e agoraa violência vista na primeira temporada torna-se muito maior e mais institucionalizada, debatendo temas complexos como política africana. Além dessa maior proporção dos conflitos de cada personagem, há, finalmente, em Sense8 um melhor desenvolvimento do desafio comum de todos os personagens: os Sussurros .

Esse talvez seja o grande ponto dessa segunda temporada, mas também uma perigosa característica. A ascensão da importância dos sussurros faz com que a série ganhe uma unidade alcançada em poucos momentos da temporada anterior. Essa configuração em que todos se unem para resolver um problema em comum dá um dinamismo bastante interessante à segunda temporada de Sense8. Evidente, que assim como a primeira temporada, pelo fato de ter oito protagonistas, a série convive com uma espécie de falta de sincronia, onde alguns episódios concentram-se em personagens num momento menos urgente que outros, como se nem todos estivessem num mesmo tom narrativo. E isto não tem nada a ver com gênero, mas sim com um alinhamento entre os núcleos, se um estiver no clímax o outro também deve estar, independente se for numa fuga de uma cadeia ou no meio da parada gay em São Paulo.

O perigo desse conflito em comum, mais do que conviver com outros problemas de ordem pessoal, está na sua complexidade, desenrolando-se cada vez mais distante da sua resolução. Assim, a segunda temporada de Sense8 vive uma pretensão narrativa que pode muito bem sufocar o restante da série, todos os dramas (de ordem geral ou particular) caminham em direção ao extraordinário, a problemas que não podem ser resolvidos. Lana Wachowski e Michael Straczynski, os roteiristas da série (Lilly Wachowski afastou-se durante essa temporada) parecem dispor de muita corda narrativa que no final pode acabar os enforcando. A produção insere elementos e mais elementos, afastando-se de qualquer concisão.

Isto já ocorreu em outros projetos das Wachowskis, como o prolixo A Viagem, e no final o que surge é uma necessidade atabalhoada de unir todas as pontas soltas, algo que vem acontecendo em Sense8. Se antes, o projeto parecia uma obra mais contida dentro do trabalho da dupla criativa responsável por projetos como Matrix, Speed Racer e V de Vingança, agora se mostra perdendo o rumo, mais uma vez. Nessa segunda temporada, a grande desculpa narrativa para aparar as diversas pontas soltas é a descoberta que existem diversos sensates no mundo e que podem se conectar com os nossos heróis apenas com uma troca de olhar, sem necessitar ser do grupo de nascença. Isso faz com que surjam personagens que são meras muletas narrativas. Eles aparecem, solucionam algum conflito e vão embora.

A pretensão de Sense8 faz com que sua diegese – o mundo da trama, seja totalmente conivente com os dramas dos personagens, parece que aqueles seres são de fato imbatíveis e nada pode ataca-los. Se antes, conectados a oito pessoas, já era difícil, imagina agora com uma infinidade de seres. A segunda temporada vai se demonstrando cada vez mais frágil e enrolada, cabe aos personagens sustentarem aqueles dez episódios. Fato é que nunca foi o forte das Wachowskis lidarem com a emoção de seus protagonistas, e aqui não é diferente.

Se Lito, Riley, Nomi e etc, já são bastante cativantes, há uma nítida dificuldade em transmitir para o público o sentimento daquelas figuras. Evidente que a confusão narrativa reflete nesse ponto, uma vez que falta tempo para o desenvolvimento de personagem diante de tantos conflitos externos. Resta aos realizadores uma série de medidas espalhafatosas e exageradas, uma manipulação nada sutil da audiência, que muitas vezes não funciona. Em alguns pontos Sense8 ganha contornos novelescos, o exagero na utilização dos closes, a música sentimental e as frases de efeito são atalhos emocionais comprados pelos realizadores, que, ao invés de conectar audiência com os personagens, retiram verdade e o sentimento daquilo que se vê.

Sense8 ainda continua com uma série de destreza técnica, o uso da montagem que conecta diversos locais e personagens, as inúmeras cenas de ação, planos e movimentos que parecem impossível, mas algo que parece estar se perdendo é essa pungência dos corpos conectados. Sense8 demonstrava-se como uma série muito intensa, em que todos partilhavam, acima de tudo, sentimentos e sensações, isto era extraído nos mínimos detalhes, nas pequenas missões de cada figura. Nessa segunda temporada, a série parece extremamente preocupada em criar mirabolantes narrativas e esquece-se dessa essência,o sentimento a flor da pele de cada Sensate.

Essa segunda temporada da série vem para demonstrar algo que já se temia na primeira parte da produção. Essa possibilidade de mais uma vez as Wachowskis se perderem nas próprias pretensões. Se antes aquele parecia um pequeno projeto focado nas sensações da conexão entre seres totalmente diversos, agora Sense8 demonstra mais irregularidades do que qualquer outra coisa. A série acaba perdendo o que possuía de mais interessante e pode muito bem acabar sufocada pelo anseio de criar algo extremamente majestoso e complexo.

Sense8
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