Como Nossos Pais | Elenco fala sobre o filme e sobre ser mulher em nossos tempos

Neste dia 31 de abril estreia no Brasil Como Nossos Pais, o quarto longa ficcional de Laís Bodanzky (que estreou na direção em 2001 com o celebrado Bicho de Sete Cabeças – e depois dirigiu Chega de Saudade e As Melhores Coisas do Mundo). Neste filme, que teve sua estreia mundial na última edição do Festival de Berlim, a diretora reitera a parceria com Luiz Bolognesi – o qual já havia escrito as suas outras três ficções – e co-assina o roteiro com o colega. O elenco do filme ainda conta com Maria Ribeiro (no papel principal), Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena e Jorge Mautner. Ribeiro, Abjuamra e Vilhena, somados a Bodanzky, Bolognesi e ainda Fabiano Gullane – um dos produtores -, concederam uma entrevista coletiva para a imprensa nesta semana e aqui você confere os destaques desta conversa.

“A revolução das mulheres (…) começa dentro de você, com suas pequenas atitudes em casa, na escola, com seus filhos, no seu trabalho. (…) E já começou!”. Com essa frase Bodanzky iniciou suas falas, tocando no tema central do filme que é, justamente, o confronto de uma mulher com o machismo e a luta feminista contra o sistema e a cultura machista. “O ponto nerval realmente é o da culpa. (…) Se tem uma gripe, vou achar que fui eu que esqueci de dizer para ele botar um casaco porque o tempo ia mudar: a culpa recai nas costas das mulheres desde sempre e a mudança também é nossa, interna”, completou Clarisse Abujamra, que ainda falou sobre outro tema muito relevante nos debates sobre os efeitos do machismo: as coerções sociais que atingem as mulheres especificamente na dita “terceira idade”. Falou primeira sobre a obrigação de ser “eternamente jovem, linda, maravilhosa…”, que isso é uma batalha desumana, cruel e que por vezes leva uma mulher à solidão. Também disse sobre a relação da mulher com sua libido, que sobretudo nessa época da vida é marcada por uma pressão social que a leva a “uma negação ao desejo sexual mentirosa, pois o auge da libido da mulher é entre os 60 e 70 anos” – expôs a atriz.

O filme narra a vida de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher que tem todas as tarefas de casa e obrigações com os filhos recaídas sobre suas costas – como ocorre em milhões de lares. Contudo, como também ocorre em milhões de lares, no começo do filme a personagem tem muita dificuldade de indicar a infração do marido em descumprir com as suas obrigações domésticas e pouco pedia a ele que fizesse algo relacionado à manutenção da casa ou cuidado com as filhas. Bodanzky comentou sobre isso: “a mulher, quando ela toma essa atitude, muitas vezes ela é classificada como dura, chata, louca, preguiçosa…”. Depois, a diretora afirmou que para se combater tal cultura é necessário agir de forma coletiva: “todas nós começarmos a falarmos juntas, deixar a casa suja e falar ‘agora é com você’…”. Completou com uma provocação – que contudo é muito realista: “homem não lava nem a própria cueca!”

Maria Ribeiro comentou sobre sua personagem, e disse sobre como as cenas de nudez têm um significado importante para a narrativa da história de Rosa. Para ela, tais cenas “estavam em um contexto do filme muito bem colocado, de uma maneira bastante sutil e ao mesmo tempo forte.” Como exemplo, Maria Ribeiro citou uma cena do filme na qual aparece nua em frente a uma janela de hotel. Disse que ali se simbolizava o sentimento dentro de Rosa o qual lhe motivava a rever tudo a sua volta, já que estava descobrindo que ela não era quem achava que era. Aproveitando o tema da nudez, falou sobre o fato das mulheres serem punidas pela sexualidade: “eu tive uma história de repressão sexual, como a maioria das mulheres do Brasil. Mas a sexualidade faz parte da mulher, e não podemos abrir mão disso.” Bodanzky apenas acrescentou, sobre esta fala de Ribeiro, que ficou emocionada em ter filmado uma cena de nudez feminina sem um caráter erótico ou de sedução – mas na qual ela apenas queria ficar a vontade sozinha.

Durante a entrevista, ainda, o elenco falou sobre a expectativa em poder ser o representante do Brasil ao Oscar. Ressaltou-se que o filme teve uma recepção muito positiva num dos principais festivais de cinema do mundo, o Festival de Berlim – aonde foi exibido pela primeira vez. Desde lá, para o produtor Fabiano Gullane, fez uma carreira internacional muito boa, com recepções favoráveis em mercados internacionais e ainda recebendo um espaço grande na imprensa estrangeira. “E quando o filme constrói uma carreira sólida internacional ganha uma força grande a ser um candidato ao Oscar. Vamos torcer!”, disse Gullane.

Também é interessante registrar o fato de Bolognesi ter revelado o passo a passo da construção do roteiro de Como Nossos Pais. Disse que a concepção original, a história que seria escrita no roteiro, foi concedida junto a Bodanzky. Porém, diferentemente de outros filmes que escreveu para a diretora, não roteirizou sozinho esta ideia. A questão é simples: ele é um homem, e logo não poderia traduzir as nuances da violência machista que recai sobre as mulheres de forma a tornar a narrativa minimamente verídica. Logo, os últimos tratamentos do roteiro foram feitos justamente por Bodanzky.