O planejamento do universo estendido da DC no cinema feito pela própria DC em conjunto com a Warner Bros não ocorreu como planejado. Não somente por conta dos problemas nas produções do filmes mas com a recepção morna do público e a maioria dos filmes tendo uma performance bem abaixo do esperado nas bilheterias, exceto para Mulher-Maravilha.

O Homem de Aço, de 2013, Batman v Superman em 2015, Esquadrão Suicida em 2016 e, Mulher-Maravilha e Liga da Justiça em 2017 ditam os primeiros passos do DCEU. Mas são passos, movimentos um pouco tortos, sem direção e que acabaram por até mesmo fazendo a DC tropeçar na própria caminhada. Então, a recuperação dos filmes devem ocorrer não somente para conseguir chegar ao nível – em planejamento e construção de identidade – da Marvel, mas para trazer de volta uma legião de fãs que sentem um pouco decepcionados, viabilizando que esses filmes foram muito aquém do que poderiam ser.

E como recomeçar – se casso necessário – agora que parece ser um pouco tarde? Retornando aos anos 80 já traz uma certa luz sobre possibilidades acessíveis. Alan Moore e Dave Gibbons publicaram uma das maiores histórias em quadrinho da história: Watchmen. A série serviu não somente como marco criativo de ambos mas porque sua premissa era essa desconstrução do mito do herói, os colocando em situações tão civis e comuns que os deslocava do universo fantasioso e utópico de capas, glórias e conquistas.

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Zack Snyder, responsável direto pela realização de quase todos os filmes da DC, adaptou essa história. Mais do que uma adaptação direta, Snyder quis reimaginar certos conceitos para que a obra ficasse mais atual e sensível. Reações mistas, confusas, colocando o longa-metragem Watchmen em uma classificação radical – 8 ou 80 – mas conseguindo difundir uma obra considerada fora do circuito mais comercial.

Desde então, por conta da liberdade criativa e por ser um grande fã das HQ’s da DC, Snyder recebeu aval de Geoff Johns para conduzir esse universo cinematográfico. Zack é visto nos sets de filmagens não somente como um cineasta criativo mas amante pelo que faz, principalmente pelas obras originais, das quais brada livremente que é fã. São esses os motivos que o colocaram onde ele está atualmente. Homem de Aço foi um início de sua trajetória dentro desse aspecto mais comum. Dentro do selo da DC, dos braços de Geoff e na condução de Henry Cavill como o Superman. Mesmo que bagunçado, foi uma obra que despertou certa curiosidade ao se analisar como Snyder se apropriou do universo ali já conhecido e montou seu próprio vislumbre sobre os personagens, os cenários, seus motivos, metáforas bíblicas. Snyder quis de Superman um Deus. Um totem. Desde lá até Liga da Justiça, por mais que tenham suas falhas e recepções nada tão convincentes, principalmente em lucro, é visível perceber que um norte foi adquirido.

Que uma direção, um caminho está sendo finalmente trilhado. Mesmo que o que está lá na frente permaneça incerto e imprevisível, a DC se encaminha com seus próprios pés em uma direção que finalmente está querendo dizer alguma coisa. Uma liberdade para mais personagens e seus universos. A mitologia de todos eles unidos perante uma adaptação e um uso controlado das fontes e dos materiais principais. É um conteúdo que aparentemente, é o ideal.

E por falar nesses personagens, há uma conquista que só a DC tem e que ela deve ser parabenizada. Duas de suas principais personagens – Arlequina e Mulher-Maravilha – se tornaram… não, na verdade voltaram a se tornar, marcas. Representações. Ícones. Mulheres, garotas, todas vestidas e trajadas com os uniformes de cada um porque Margot Robbie e Gal Gadot, respectivamente, manejaram suas performances a ponto de entender o que são suas personagens e o que elas devem significar para o público. É um acerto de mão cheia da DC e da Warner. Não só a escalação mas a representatividade imposta por ambas dentro de um cenário de cultura pop dos quais as mulheres são consideradas minorias. Vejam: os mais famosos heróis atualmente do universo cinematográfico da DC são mulheres. E há méritos gigantes por isso.

Isso disponibiliza aos fãs alguns sinais de esperanças no processo de reconquistá-los e de agraciá-los. De fato, o cinema é feito para ser visto mas nesse caso, com um público tão apaixonado, é mais ainda feito para eles. Margot Robbie voltará para o seu papel de Arlequina em Esquadrão Suicida 2 e em As Sereias de Gotham . Mulher-Maravilha 2 foi anunciado como projeto da DCEU durante a CCXP 2017. Obviamente que depositar todas as esperanças e anseios positivos sobre somente elas é um fardo muito pesado. Patty Jenkins claramente deseja esse fardo, afinal, é a principal diretora agora do universo da DC nos cinemas. Mas há outros heróis a serem olhados e vistos.

James Wan, que revitalizou o gênero do terror para os cinemas, dirige Aquaman. Esse é o próximo filme da DC nos cinemas. Um ator carismático, um resgate de um herói que teve épocas de renegação. Agora, subiu à superfície novamente e com ele, toda a onda de expectativas boas. Parece ser uma aposta que foi bem acertada pela DC, pelo menos nesse campo da produção. Dar liberdade mas conseguir imprimir as propriedades próprias dos personagens. Arremedar outros tipos de olhares na condução dos filmes.

Os fãs de quadrinhos, de heróis, eles dificilmente se saturarão desse novo gênero nos cinemas. Até porque acontece esse senso de pertencimento muito grande deles a esses filmes. E a DC já percebeu isso. Conseguiu identificar que seu público deseja aquilo que mais lhe são familiares: seus amados e queridos personagens sendo representados em live-action de uma maneira respeitosa, honrosa, mas renovando-se. Criando novas alternativas. O poder feminino, as histórias individuais de cada personagem em seu pequeno universo. Batman, Flash, Lanterna Verde, Shazam. Todos consagrados dentro do que é popular. E para poder falar sobre o que é popular, a DC parece ter se encontrado.

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