O ano de 2017 foi terrível em muitos sentidos para a indústria do entretenimento – seja pela consolidação de um monopóliopela exposição de um abismo de impropriedades sexuais ou pelo êxodo em massa de espectadores do cinema, que preferiram assistir filmes em casa.

Para a televisão, no entanto, a Era de Ouro continua a todo vapor, com mais produções do que nunca, de forma que é impossível para qualquer crítico ou jornalista (incluindo este que vos fala) assistir a tudo que é considerado “TV imperdível” durante o espaço de um ano.

A lista que você encontra abaixo elenca as 15 melhores séries de TV que eu tive o prazer de ver em 2017. Esse artigo não se pretende um review completo do mundo da televisão no ano. Tudo o que podemos fazer, em plena Peak TV, é tentar explorar da melhor forma possível, fazendo escolhas de qualidade.

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Foi o que tentei fazer. Confira o resultado:

15. Mary Kills People (1ª temporada) – Global

Mary Harris é uma médica competente, mãe divorciada de duas filhas – e, pelo preço certo e para as pessoas certas, o próprio anjo da morte. Em Mary Kills People, que a emissora canadense Global estreou em 2017 com uma primeira temporada sólida e ágil de apenas seis episódios, Caroline Dhavernas entrega uma modulada e vívida performance como a Dra. Harris, que vai contra as leis de seu país para prover ajuda a pacientes que desejam o suicídio assistido quando confrontados com uma doença terminal. A criação de Tara Armstrong é uma série madura, que navega por emoções complexas e pela forma com as quais adultos de verdade lidam com elas – é refrescante não ver uma solução fácil ou uma atitude infantil guiando a direção da trama em uma narrativa de TV. Assim como na “profissão” de sua protagonista, tudo em Mary Kills People é terrivelmente ambíguo – e, por isso, deliciosamente fascinante.

14. Ozark (1ª temporada) – Netflix

A Netflix acertou em cheio com essa mistura difícil de comédia de humor negro e thriller criminal. Em Ozark, Jason Bateman é Marty Byrde, um trambiqueiro de carteirinha que convence um traficante de drogas a não matá-lo usando uma promessa que ele sabe ser quase impossível de cumprir – após descobrir o caso extraconjugal de sua mulher, Marty pega ela (Laura Linney) e os dois filhos e vai para a região do título, onde tem que lidar com pequenos criminosos e donos de negócios falidos para lavar uma quantidade absurda de dinheiro em um tempo curto. Os 10 episódios da primeira temporada são um exercício de tensão e ironia, que em alguns momentos se apoiam no trabalho excepcional de seus atores um pouco demais, mas que triunfam ao nunca subestimar a inteligência do espectador – Ozark sabe que nós sabemos que ele é um pastiche de clichês misturados com o forte elemento de ligação de suas performances, e usa essa consciência para nos transmitir uma mensagem que poucas vezes foi tão extraordinariamente atraente.

13. Orphan Black (5ª temporada) – BBC America/Space

Em seu quinto e último ano, a ficção científica liderada por Tatiana Maslany encontrou uma profundidade em sua mensagem sobre opressão e machismo que a escapou na maior parte do tempo durante as (ainda terrivelmente excitantes) temporadas anteriores. Aqui, não eram apenas flashes de brilhantismo e a interpretação da Maslany que faziam Orphan Black uma série que merecia ser vista – na conclusão épica de sua trama, os criadores John Fawcett e Gaeme Manson encontraram uma reflexão sobre as formas insidiosas através das quais tomamos posse dos corpos e dos espíritos de mulheres que, livres, florescem em relações ternas ou frias, sinérgicas ou adversárias, plenamente humanas e complexas. O rol de castelos de cartas delicados e detalhistas em forma de personagens construídos por Maslany finalmente encontra um material à altura – e o resultado é espetacular de se ver.

12. Harlots (1ª temporada) – Hulu/ITV

Harlots é a primeira de duas séries sobre prostituição no nosso top 15, e é também a primeira de duas séries que abordam esse tema com uma sensibilidade aguda para a complexidade das mulheres que se veem em situação de prostituição. A diferença é que Harlots é mais construída em trama e intriga do que em drama e reconstituição de época – ao invés de se ater aos detalhes da Londres do século XVIII, onde passa a história de duas donas de bordel rivais e seus rebeldes filhos e filhas, Harlots apresenta uma produção luxuosa que moderniza e fantasia esse período. Com trabalhos de fotografia, figurino, direção, cabelo & maquiagem e direção de arte estupendamente opulentos, Harlots ainda evita transformar em espetáculo a vida das mulheres que retrata, desnudando tudo isso ao básico e ao emocional quando é preciso – e dando espaço para atrizes como Samantha Morton e Lesley Manville passearem entre esses dois extremos com a mesma desenvoltura com a qual suas personagens passeiam entre as fantasias apresentadas ao público e a realidade por trás das portas trancadas de suas “sedes” de exploração sexual.

11. Feud: Bette and Joan – FX

Em um ano no qual as indignidades de mulheres inseridas na máquina de Hollywood tomaram todas as manchetes de assalto, Ryan Murphy, Jessica Lange e Susan Sarandon nos avisaram sobre a exploração particular que a fama impunha sobre elas em um mundo machista com Feud: Bette and Joan. A história lendária da rivalidade entre Joan Crawford e Bette Davis, duas das maiores divas do cinema da Era de Ouro, transcendeu os deliciosos (ainda que culpadamente) detalhes de sarcasmo e ressentimento para explorar por que a combinação ente elas foi explosiva, e por que “rixas nunca são sobre ódio, e sim sobre dor”. Feud carrega a marca especial de artificialidade bem-produzida e camp de Murphy, mas não seu descaso narrativo, se comprometendo com arcos precisos e tocantes para ambas as protagonistas (e muitos dos coadjuvantes). Para contar essa história, é a combinação perfeita, que sublinha os seus aspectos mais frívolos tanto quanto os seus ecos mais profundos com uma realidade bem diferente, mais dura, do que aquela onde aconteceu.

10. This is Us (1ª/2ª temporada) – NBC

Após encontrar um lugar muito específico dentro da Peak TV (e do coração de milhões de espectadores nos EUA) na primeira metade de sua temporada de estreia, This is Us reclinou o assento de sua confortável “cadeira do papai” na sala de estar de qualquer família ocidental e se deu ao trabalho de desenhar arcos mais claros para seus personagens, conjurando um motivo para existir que transcendia a sua particular mistura de gêneros. Mais do que “um drama sincero em meio a uma paisagem televisiva cínica”, This is Us é uma narrativa sobre a forma como nos colocamos no nosso próprio caminho, e no caminho dos outros, ao fazer escolhas e enfrentar acasos cujas consequências nunca podemos solidamente imaginar. A saga da família Pearson, e de todas as vidas que a tocam, é tão bem sucedida e identificável porque entende a sequência de tiros no escuro que é o próprio ato de viver e se relacionar com outras pessoas que tem tão pouca ideia do que estão fazendo quanto nós mesmos.

9. Big Little Lies (1ª temporada) – HBO

Quando Big Little Lies exibiu seu episódio de estreia, em 19 de fevereiro de 2017, há de se desculpar quem pensou que ela seria uma refinadíssima bobagem. No entanto, por baixo da direção cristalina de Jean-Marc Vallée, das escolhas alternativas da trilha sonora e do design de produção modernoso de John Paino vivia uma complexidade inédita para a abordagem das vidas de mulheres na TV. Ao misturar seu humor sutil com um retrato honesto de aspectos importantes (e escondidos) da vida de suas protagonistas, Big Little Lies abordou trauma, infidelidade, relacionamentos abusivos, estupro, maternidade, mortalidade, afetividade e muito mais em um pacote elegante de produção, que expunha uma opressão muito mais insidiosa e delicada do que aquela vista em outras séries populares do ano. A história dessas cinco mulheres complexas e as relações entre elas fez mais do que celebrá-las – criou-as e realizou-as de forma vívida e fundamental.

8. Mindhunter (1ª temporada) – Netflix

Em certo momento de Mindhunter, o protagonista Holden (Jonathan Groff) conversa com um colega do FBI sobre o estudo relativamente recente do comportamento de criminosos cujas ações não parecem motivadas pelas mesmas razões de sempre (paixão, dinheiro, política ou o que mais for). Os dois falam de “um aspecto inédito” na violência sem sentido de homens como Charles Manson, e no mundo perdido do pós-Contracultura que os criou – é fácil identificar aspectos desse mesmo momento histórico, incluindo suas consequências sanguinárias e seu efeito desorientador, nos dias de hoje. A série de David Fincher é sobre o impulso de inovação em tempos assim, tanto a importância quanto os abismos que vem com ele – o roteirista Joe Penhall examina essas questões com diálogos densos, de um ritmo particular ao qual os atores se adaptam rapidamente. Mindhunter incomoda pela fascinação que provoca ao mostrar assassinos em série em profundidade, mas também pelas questões que levanta.

7. Queen Sugar (2ª temporada) – OWN

A inclusão de personagens afro-americanos na TV nos últimos anos, e especialmente a multiplicação de séries protagonizadas quase exclusivamente por eles (Power, Empire, Survivor’s Remorse, Greenleaf) é notável, mas nenhuma delas ainda é exatamente como Queen Sugar, uma obra de feminilidade inegável, e de força social ainda mais. Continuando a saga da família Bordelon na segunda temporada, Ava DuVernay e sua equipe de roteiristas e diretoras seguem sendo cirurgicamente habilidosas em introduzir questões pontuais, retiradas direto das manchetes (nesse ano: direitos transgênero, monumentos da confederação americana, violência policial) em histórias que arquivam profundidade emocional o bastante para não parecerem acenos vazios aos jornais do dia. Em outra dimensão, no entanto, Queen Sugar desenha arcos mais complexos e consequentes para os seus personagens, dando espaço aos excepcionais atores que tem no elenco (Tina Lifford, Bianca Lawson, Kofi Siriboe, Rutina Wesley) para respirarem e construírem alguns dos retratos mais refrescantes de humanidade da TV americana.

6. The Deuce (1ª temporada) – HBO

Fãs de Homicide, The Wire, Treme ou Show Me a Hero já conhecem o estilo peculiar de David Simon construir mundos e histórias na TV. Excepcionalmente paciente, o escritor passa minutos preciosos em detalhes minutos dos universos que explora, tanto dentro do microcosmo íntimo de seus personagens quanto fora, na sociedade em que eles habitam. Em The Deuce, essa paciência é especialmente recompensada porque tão poucas vezes vimos os personagens retratados por Simon aqui terem sua história contada na TV – prostitutas, atrizes e produtores de filmes pornográficos, cafetões, policiais de rua, jornalistas negras, donos de barzinhos sujos na Nova York dos anos 1970, seus irmãos gêmeos trambiqueiros e barmen gays… Ao lado de George Pelecanos, o roteirista retrata as prisões e liberdades de uma época e lugar específico enquanto nos transporta até lá de forma quase transcendental. Excepcionalmente produzida e retratando uma realidade complexa da forma como ela merece, The Deuce é exatamente a série que precisávamos em 2017.

5. Girls (6ª temporada) – HBO

É impressionante como a comédia da HBO cresceu com o passar dos anos – e como ela não deu o braço a torcer para as críticas fáceis e rasas que normalmente eram atiradas a ela. Girls não desenhou arcos artificiais de amadurecimento para suas personagens, mas passou a ver seus defeitos quase imperdoáveis com mais clareza e contraste do que nunca, ao mesmo tempo em que desenvolvia certo afeto por eles. Quando chegou ao seu final, a série havia se tornado (apesar de si mesma, em muitos sentidos) um retrato terno, ainda que inclemente, da geração que representa, e também uma jornada honesta sobre a permanência de quem somos mesmo contra os traços que evoluem em nós com o tempo. A protagonista Hannah chegou ao final, em muitos aspectos, como a mesma garota egoísta, pretensiosa e inconsciente de si mesma que era naquele primeiro episódio, quando disse aos seus pais ser “a voz da sua geração” – e, ao mesmo tempo, é impossível imaginá-la dizendo isso de novo, talvez pela vida tê-la feito “baixar a bola” um pouco. Como faz com todos nós, que continuamos esses estúpidos inconstantes apesar de todos as lições que o mundo quer nos passar.

4. The Handmaid’s Tale (1ª temporada) – Hulu

É um enorme prazer ver alguém como Margaret Atwood se tornar um ícone popular em pleno 2017, um ano em que muitos de seus escritos ganharam uma atualidade que, se não fosse deprimente, seria simplesmente impressionante pelo caráter acertado das previsões. Não vivemos no mundo de Gilead, mas o movimento que o criou no mundo de The Handmaid’s Tale é assustadoramente parecido com aquele que ameaça crescer nos EUA e em muitos países do mundo, um conservadorismo agressivo e, acima de qualquer coisa, regressivo, cujas ideias pareceriam quase ridiculamente improváveis se não fossem, na série, terrivelmente reais (mulheres açoitadas por bastões eletrocutados, estupradas enquanto deitam no meio das pernas das esposas inférteis de seus “proprietários”). Com uma elaboração visual sóbria e iluminada, um design de produção incansavelmente criativo e atuações centradas e emocionais, The Handmaid’s Tale realiza o mundo de Atwood e até o transcende em uma reflexão mais contemporânea, aterradora e desafiadora, em última instância, do que nunca.

3. The Keepers – Netflix

A “prima bastarda” de Making a Murderer, da Netflix, é uma das melhores (e mais subestimadas) séries de TV do ano, não perdendo em refinamento narrativo, visual e artístico para quase nenhuma produção de ficção. Mérito do diretor Ryan White, que mergulhou fundo na história do assassinato da Irmã Cathy – o incidente com a freira de Maryland (EUA), cujo corpo foi encontrado em 1969, revela um problema mais profundo e mais sistêmico do que inicialmente parece, e White estrutura seu documentário em sete partes de forma a revelar o mistério de forma tão elegante quanto uma Agatha Christie, ao mesmo tempo entendendo profundamente as consequências humanas dessa trama de detetive em especial. É uma série sobre o trauma do abuso sexual tanto quanto é sobre, como o título revela, a morte lenta e dolorosa das memórias machucadas que cercam essa história de crime não resolvido. É uma série audaciona, montada, editada e realizada com coragem de tirar o fôlego, e que merece mais espaço do que lhe foi dado no ciclo de cultura pop do ano.

2. The Americans (5ª temporada) – FX

Em seu penúltimo ano, The Americans revolucionou a própria roda com a mesma discrição e a mesma despretensão brilhante que marcaram todas as suas outras reviravoltas anteriores. Em 13 episódios, o thriller da FX redefiniu o que a sua narrativa poderia significar, a começar pela introdução de uma parte da trama passada inteiramente na União Soviética, examinando as cicatrizes profundas da Segunda Guerra que definiram toda uma geração (representada pelos pais de Oleg, mas também por Gabriel e Claudia nesse lado do Atlântico). Em seu contraste perfeito das imperfeições de dois sistemas de governo radicalmente diferentes, e portanto com problemas radicalmente diferentes (mas, ambos, determinados pelo passado das nações em que estão instalados), The Americans é capaz de analisar de forma objetiva e profunda o impacto que a guerra como instituição violenta, e não como embate político, pode provocar em casamentos, famílias e indivíduos. É uma obra-prima irrefutável para quem quer que esteja prestando (muita) atenção.

1. Mr. Robot (3ª temporada) – USA

Eu não sou um dos detratores da 2ª temporada de Mr. Robot – embora narrativamente atribulado, o segundo ano da série de Sam Esmail é excepcional nos simbolismos e melismas emocionais dos personagens, perdidos na maré alta da revolução que eles mesmos começaram. É fato, no entanto, que o ritmo mudou e o foco narrativo também na 3ª temporada, que viu os protagonistas de Mr. Robot tomarem o controle de suas próprias jornadas novamente (na medida do possível, é claro, no mundo de manipulações orquestradas pelos poderosos criado por Sam Esmail). Esse terceiro ano é sobre tomar responsabilidade por atos de consequências amplas e complexas – como Elliot diz no episódio de estreia, não basta culpar corporações, adversários políticos ou ideológicos, pelo que nos enfurece no mundo em que vivemos. Em uma metáfora perfeita, o protagonista revisita um evento do seu passado em que se via como a vítima, e descobre que afligiu a si mesmo o machucado que imputava a outra pessoa, mudando fundamentalmente não só sua relação com essa pessoa, como sua visão do papel que desempenha em um universo teatral onde as marionetes ainda podem, com muita dificuldade, se revoltarem contra seus mestres. Mr. Robot continua explodindo em pedacinhos o que achamos que pode ser uma série de TV no século XXI, mas agora tem a profundidade narrativa para suportar essa revolução.

Menções honrosas

O universo amplo da TV de hoje em dia significa que não conseguimos “espremer” nessa listinha todo mundo que queríamos. Eis algumas séries que quase entraram: Stranger Things (na foto) aprofundou seus temas de identidade queer (é sério!) e sua inventividade na 2ª temporada; Billions encontrou sua verve mais venenosa e surpreendente no segundo ano; Mr. Mercedes é a adaptação de Stephen King mais conectada com os temas sociais afiados do escritor em 2017; Insecure segue sendo uma das comédias mais espertas e surpreendentes da TV; e Baskets se deliciou em ambiguidades emocionais para uma 2ª temporada espetacular.

Outras listas:
Atuações masculinas
Atuações femininas
Episódios

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