CCXP 2017

Na última semana, durante os dias 7 a 10 de dezembro, ocorreu a tão esperada 4ª edição da Comic-Con Experience, ou, como ficou popularmente conhecida CCXP 2017. Novamente o evento prometeu ser “épico” (uma palavra que está sendo usada a exaustão hoje em dia) e trazer conteúdos exclusivos de filmes, séries e quadrinhos para os fãs de toda a América Latina.

A CCXP cresceu. Em questão de público, ela se tornou a maior do mundo e recebeu mais de 200 mil visitantes durante os quatro dias em que esteve aberta ao público. Ela também se tornou o evento com o nome Comic-Con com o maior Artist Alley de todo o mundo (o Artist Alley é o local reservado para o encontro dos fãs de quadrinhos com os quadrinistas que eles tanto adoram). Porém, mesmo com o maior público do mundo e com um invejável Artist Alley, os estúdios de cinema parecem não olhar para o evento com tanta preocupação e muito do que foi visto em painéis foi quase uma presente de consolação para os fãs sem grandes novidades.

Antes de falar dos painéis, é necessário falar da feira em si, suas novidades e estandes. A maior e bem-vinda novidade foi a Spoiler Night, uma noite um dia antes da abertura oficial do evento no qual alguns fãs (aqueles que pagaram bem caro por um ingresso), poderiam conferir os estandes sem a grande multidão que se tem nos outros dias. Por mais que possa parecer errado cobrar tão caro para participar de uma noite de prévia, trata-se de uma espécie de uma “chance exclusiva” que o evento oferece para seus visitantes, e por isso o ingresso mais caro, para manter a “exclusividade”.


Este ano, muitos estantes buscaram oferecer aos fãs atividades divertidas que se alinhavam as temáticas dos produtos ali expostos. Por exemplo: o estande de Tomb Raider: A Origem, tinha uma parede de escalada para brincar; no de Supergirl, era possível brincar de voar; o de Star Wars oferecia a chance de tirar uma foto com um BB-8 que se mexia de verdade; enquanto que a HBO oferecia um tour pelo mundo das séries exclusivas de sua plataforma streaming, o HBO GO, além do já esperado Trono de Ferro de Game of Thrones.

As atividades foram divertidas, mas geraram filas, algo que um evento desse porte nunca poderá escapar. Para ver tudo, é sempre necessário pegar filas, não importa onde. Entretanto, ficou faltando um pouco mais de elementos das próprias obras nos estandes, como roupas dos filmes e das séries. Nesse caso, a Marvel foi um dos poucos que apostou em trazer tais itens para os fãs darem uma olhada – e ainda assim, trouxe itens de filmes que já chegaram aos cinemas ou estão disponível em DVD, como a roupa do Pantera Negra de Capitão América: Guerra Civil. Nada de novo, o que prejudica um pouco o evento e mostra o descaso do estúdio com os fãs brasileiros.

Uma das maiores novidades foi uma loja oficial de Harry Potter dentro do evento. Trata-se de única loja que vende produtos oficiais fora do Reino Unido e dos Estados Unidos. Claro, ela estava cheia de fãs e com uma enorme fila, mas foi bem ter algo assim na CCXP. Aliás, a CCXP ainda é um dos melhores lugares para se comprar produtos de séries, filmes e quadrinhos, já que muitas lojas vêm ao evento para vender seus itens.

No geral, mesmo com algumas ressalvas, os estandes cumpriram o seu papel: fazer propaganda dos grandes lançamentos do próximo ano e dar aquela sensação aos fãs de que eles estão tendo contato com algo do universo daquela série ou filme. Já nos painéis, as coisas foram um pouco diferente.

Sim, o evento trouxe grandes astros de Hollywood para seus painéis, como Will Smith, Alicia Vikander e Joe Jonas, mas pecou em exibir novidades reais e mostrou que um grande estúdio para não dar a mínima para o Brasil: a Disney. Teve três painéis: a exibição do filme Viva: A Vida é uma Festa, um painel de Star Wars e um dos filmes da Marvel. A exibição de Vivva: A Vida é uma Festa não é novidade, pois o estúdio sempre exibe uma animação antes da estreia oficial no país no evento. Porém, também não é exclusividade, pois o filme já estreou lá fora há algum tempo e até mesmo pode ser encontrado para baixar por meios ilícitos.

Vale ressaltar que a exibição da animação mostrou o descaso por parte do estúdio e do próprio evento com a imprensa. A exibição ocorreria às 10:30 do sábado, mas evento em si começaria às 11:00. Acontece que às 10:00 deixaram algumas pessoas da fila normal entrarem e lotaram o auditório, enquanto seguraram a imprensa até às 10:30. Claro, a imprensa não conseguiu entrar e ver o filme.

Já os painéis de Star Wars e da Marvel foram consideráveis decepções – embora muitos fãs vão dizer o contrário. Em relação ao primeiro, não houve nenhuma novidade e não havia ninguém do elenco ou da produção do filme ali, de modo que os fãs se contentaram com o trailer e com um featurette sem novidades. O da Marvel foi prejudicado pelo cancelamento da vinda de Nate Moore, produtor de Pantera Negra, mas novamente, pouca coisa nova foi exibida. A única grande novidade foi a exibição do mesmo trailer exibido na San-Diego Comic-Con (e que não foi ainda divulgado na internet). Um fã ainda foi premiado com ingressos para a premiere internacional de Pantera Negra – que é muito legal.

Similar ao painel da Disney, foi o painel da Warner. Porém, o estúdio trouxe Alicia Vikander para dar aquela animada nos fãs. É sempre bom par ao evento trazer grandes celebridades para os painéis, ainda que Vikander pouco tenha revelado sobre seu novo filme. Na verdade, é bom deixar claro que nenhum dos entrevistados dos painéis revelaram grandes novidades. Todos estavam lá apenas para promover seus filmes e séries e não para soltar spoilers, mas vale ressaltar que as perguntas dos entrevistadores também não ajudou (não sei quantas vezes ouvi a pergunta “Aconteceu algum fato engraçado entre você e um fã?” para diferentes entrevistados). O restante do painel da Warner exibiu trailers e featurettes já vistos antes de outros filmes além da entrevista sem graça com o Tye Sheridan de Jogador Nº 1, mas Jason Momoa pelo menos deu um olá para o Brasil e revelou parte do calendário da DC no cinema.

A Universal foi um pouco mais amiga dos brasileiros e exibiu o trailer inédito de Jurassic World: Reino Ameaçado, poucas horas antes dele cair na internet. As que mais investiram no evento foram a Sony e a Fox. A primeira trouxe Nick Jonas, revelou cenas novas e exclusivas de Jumanji e Sobrenatural: A Última Chave, detalhes em primeira mão da animação Homem-Aranha no Aranhaverso, trouxe a presença surpresa dos diretores da animação e colocou Tom Hardy para falar com os fãs na tela do auditório (o ator ia vir para o evento de surpresa, mas acabou tendo problemas com seu voo).

A Fox investiu em os Novos Mutantes e exibiu um trailer que, pasmem, ainda não chegou na internet. Também teve entrevista com as dubladoras brasileiras da animação e a presença de Robert Rodriguez para falar de Alita: Anjo de Batalha (com a exibição em primeira mão do trailer que chegou na internet logo depois). Foi um ótimo painel para quem queria coisa exclusiva.

Dos entrevistados de fora, quem mais se destacou foi Dania Gurira, atriz de The Walking Dead e Pantera Negra. Ela estava a vontade no palco e deu um dos discursos mais inspirados de todo o evento, falando sobre representatividade e a benção que é interpretar uma mulher negra forte nas telas. Já, Dean-Charles Chapman foi a estrela do painel de entrevista mais sem graça do evento, além de participar de uma das maiores gafes da organização do local: enquanto a entrevistadora dizia que iria passar a primeira cena de Chapman em Game of Thrones, a cena exibida na tela do auditório foi uma com Callum Wharry, que interpretou o mesmo personagem de Chapman antes de reescalarem o personagem.

Entretanto, de fora, quem mais apostou no evento brasileiro foi a Netflix. Ela não só trouxe Will Smith para o evento, ela exibiu o filme Bright inteirinho para a plateia do auditório. Também teve a exibição dos primeiros trailers da 2ª temporada de Jessica Jones e da finale de Sense 8, além da presença de todo o elenco da nova série Altered Carbon e das protagonistas de 3% – que mostraram um teaser da 2ª temporada da série.

A Netflix só não tratou melhor o evento do que a Globo e a Maurício de Souza Produções. A Globo trouxe Fernanda Montenegro e apostou em exibir para o público detalhes da sua nova novela das sete, Deus Salve o Rei, com a presença das atrizes Bruna Marquezine, Tatá Werneck e Marina Ruy Barbosa. Já a MSP anunciou diversas animações da Turma da Mônica.

Os painéis de quadrinhos também trouxeram grandes nomes lá de fora, porém, aqui quem fez descaso foi o público. Na verdade, parecia que o público não estava com muita vontade de ver detalhes sobre os próximos lançamentos de quadrinhos, o que foi triste. Durante o painel da Marvel Comics, por exemplo, vi muita gente entrando achando se tratar da Marvel Studios, e quando se deram conta de que se tratava de quadrinhos, debandaram depressa.

No geral, a CCXP 2017 foi um bom evento para os fãs de cinema, quadrinhos e séries. Porém, está sofrendo com a falta de interesse dos grandes estúdios de lá fora, ao passo que a organização poderia melhor organizar os painéis de quadrinhos para que cenas vergonhosas como uma grande parcela do público indo embora não ocorressem. Trata-se de um evento divertido, sim, mas que ainda não chegou a ser “épico” (e por favor, parem de usar essa palavra em exaustão).