Quem vê a desenvoltura com que o ator Giovanni Ribisi pratica seus golpes na série Sneaky Pete, cuja segunda temporada acaba de estrear no serviço de streaming Amazon Prime, se surpreende com a timidez e a pouca eloquência do ator em entrevistas.

Mas é exatamente isso que faz de sua performance nesta série criada pelo ator Brian Cranston (o Walter White de Breaking Bad) tão envolvente. Ribisi interpreta Marius, um golpista que armou sua própria prisão para escapar das mãos de Vince, um dono de cassino vivido por Cranston na primeira temporada, a quem ele deve uma bolada.

Ao sair da prisão, resolve assumir a identidade de seu companheiro de cela Pete para enganar os capangas de Vince, e é aí que a história se torna interessante, pois ele acaba se envolvendo com a família de Pete — eles mesmos pessoas que também vão dando seus jeitinhos para sobreviver em meio às dificuldade da vida. Isso, pelo menos, nos primeiros episódios, porque até o fim da primeira temporada a coisa engrossa feio.

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O enredo é típico na ficção americana: a família aparentemente honesta, mas que, levada pelas circunstâncias, acaba virando uma quadrilha. Destaque para a matriarca interpretada pela brilhante Margo Martindale (a Claudia de The Americans ou character actress Margo Martindale de Bojack Horseman).

Em entrevista ao Observatório do Cinema em um hotel de Manhattan, Ribisi disse discordar de que o destino desses personagens tão complexos e, ao mesmo tempo, tão cativantes, seja fruto das circunstâncias.

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A questão foi colocada ao ator quando a reportagem leu um trecho de uma crítica sobre a série, que dizia que ela retratava de certa forma o fim do sonho americano.

Seus personagens são de classe média, que matam um leão por dia. Os avós de Pete lutam para que sua firma de fianças não abra falência. Sua prima Julia vive no perrengue para sustentar os dois filhos ganhando pouco mais de US$ 2 por hora, além de outros aspectos apresentados na narrativa que o público brasileiro talvez não acredite que existam nos Estados Unidos, embora o país tenha quase 40 milhões de pobres e, nas grandes cidades americanas, desviar de pedintes e moradores de rua seja tão comum quanto no Brasil.

“Para mim, e vou me forçar a um ponto de vista sociológico aqui, eu cresci sendo educado de uma forma a acreditar que as pessoas são verdadeiramente responsáveis por suas condições de vida. Eu acho que um dos maiores problemas de nossa sociedade atualmente é jogar a responsabilidade de seus problemas no governo ou achar que isso é fruto de sua classe social, gênero ou raça. E eu não gostaria de ser silenciado sobre minha opinião a este respeito, mas eu acredito firmemente que, em última instância, você é responsável por si.”

O discurso, no entanto, muda quando ele defende seu personagem, que “em última instância”, é um golpista covarde que acaba trazendo dor e morte para todos que o cercam. Marius, aliás, é o pior tipo de bandido: aquele que se importa, não com os outros, mas com a imagem que os outros farão dele. Por isso está sempre tentando consertar seus erros sem nunca deixar de cometê-los.

Mas Ribisi disse, aos risos, que ainda “está tentando entender a ideologia de seu personagem” e que espera “ver como seu personagem irá aprender com seus erros” e “possivelmente mudar, caso haja uma terceira temporada”.

Até o momento, as críticas foram medianas sobre a segunda temporada. Algumas apontavam que a ausência de Bryan Cranston “tirou a força da série”, o que é uma grande bobagem, já que todos os outros personagens são muito cativantes e têm suas agendas próprias.

Além disso, o grande trunfo deste segundo ano da série são a saída do verdadeiro Pete da cadeia (Ethan Embry, o Coyote de Grace and Frankie) e aparição de sua mãe Maggie (Jane Addams). E como Cranston não morreu, é bem possível que ele faça uma segunda participação especial.

Mas o que é o mais interessante mesmo em Sneaky Pete é que golpistas são, na verdade, atores. Portanto o trabalho de interpretação tem dois níveis: o da cena e o do público.

E para nós brasileiros, vale pelo viés antropológico, ao mostrar que jeitinho também pode ser americano.

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Por James Cimino direto de Nova York

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