Qual foi o melhor filme do ano passado? O ponto não é exatamente que essa é uma pergunta difícil de responder, mas sim que é impossível. Arte não é esporte. Não existe um placar, nem regras pelas quais podemos medir quem chega mais rápido, quem pula mais alto, quem marca mais pontos. Por qual métrica A Forma da Água, que venceu o Oscar de Melhor Filme na noite de domingo (04), é matematicamente, incontestavelmente superior aos seus outros oito indicados? Nenhuma, porque cinema não é matemática.

Um ano de fúria: As mulheres do Oscar 2018 estão com raiva – e com razão

Nesse sentido, portanto, é evidente que o Oscar é uma mentira (proposição nº1 que quero apresentar nesse artigo). O Oscar é uma mentira porque, assim como qualquer premiação, transforma em competição por superioridade, em bênção acadêmica, uma atividade humana puramente subjetiva. Existe técnica envolvida em cinema, sim, mas até na mais trivial das categorias existe também uma dimensão de expressão artística, e ela não pode realmente ser medida para decidir quem é o melhor. O que vale mais, a criatividade incansável dos efeitos de Guardiões da Galáxia Vol. 2, ou o fotorrealismo impressionante de Planeta dos Macacos: A Guerra? A Academia escolheu, ao invés disso, a construção de mundo digital de Blade Runner 2049 como o premiado de Melhores Efeitos Especiais – uma categoria supostamente técnica, mas uma escolha essencialmente artística.


Guillermo Del Toro, melhor diretor por A Forma da Água, com a atriz Emma Stone (que lhe entregou a estatueta)

Se o Oscar é uma mentira, segue-se outra proposição (nº2): o melhor nunca ganha, porque não existe o melhor. Uma Frances McDormand triunfante levou o Oscar de Melhor Atriz por Três Anúncios Para Um Crime, por sua interpretação devastadora de uma mãe em luto (e com raiva). Ela concorria com uma atriz que não disse uma palavra em cena, mas ainda conseguiu emocionar (Sally Hawkins, A Forma da Água); com o maior talento jovem de sua geração (Saoirse Ronan, Lady Bird: A Hora de Voar); e por aí vai. É um troféu difícil de se julgar em qualquer sentido, como tantos outros da noite – mas, porque o Oscar é o Oscar, alguém precisa sair vitorioso.

O que nos leva a nossa terceira proposição, que nasce de uma pergunta: Se o “melhor” nunca ganha, quem ganha? Veteranos que acompanham essa e outras premiações todos os anos te dirão que é uma combinação bizarra de dinheiro investido na campanha, momento social oportuno, adequação a “padrões” de cinema acadêmicos, prestígio entre colegas de indústria. Allison Janney ganhou seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Eu, Tonya porque é uma figura querida na indústria que, segundo muitos, já deveria ter um careca dourado na prateleira – simples assim.

Gary Oldman, Melhor Ator por O Destino de Uma Nação

Terceira proposição, portanto: o Oscar é político. Se o Oscar não é sobre premiar o melhor,  por que assisti-lo? Aqui, chegamos à parte do “precisamos ouvir” do meu título, caro leitor – prestar atenção no Oscar todos os anos é tentar entender como uma instituição do porte da Academia está interpretando e moldando a nossa cultura, e isso é um ato político. Apontar a hipocrisia de dedicar um segmento a ativistas do Time’s Up, que denuncia assédio sexual no mercado de trabalho, e pouco depois conceder o Oscar de Melhor Ator a Gary Oldman (por O Destino de Uma Nação), acusado de agressão doméstica, é a parte mais importante da noite do Oscar.

O Oscar é político porque acontece em uma plataforma pública, e porque coloca arte em uma posição de competição, para entregar prêmios que consagram uns e deixam de consagrar outros. O tempo por vezes “remenda” o Oscar (enquanto ainda discutimos A Rede Social, de David Fincher, raramente alguém se lembra de O Discurso do Rei, de Tom Hooper, vencedor de Melhor Filme contra ele), mas ele é uma coroa de louros imediata para os vencedores, que são garantidos um lugarzinho nos livros de história e, portanto, na narrativa da nossa sociedade.

Allison Janney, Melhor Atriz Coadjuvante por Eu, Tonya

Premiar A Forma da Água como Melhor Filme parece o menor risco que o Oscar poderia ter corrido. Sim, é um filme de fantasia, uma poesia aos rejeitados sociais, e sem dúvida um grande filme. No entanto, concorriam com ele o conto complicado e polêmico da raiva de uma mulher (Três Anúncios Para Um Crime), a história de um relacionamento gay que não pede desculpas por ser visceralmente sexual (Me Chame Pelo Seu Nome), e um longa de terror estupendamente realizado que endereça temas complexos de racismo institucional de uma forma que vai marcar a cultura pop para sempre (Corra!) – só para citar três concorrentes imediatos.

O espírito de “menor risco possível”, aliás, parece ter permeado toda a cerimônia. Não só os vencedores foram os esperados por qualquer um que tenha acompanhado o restante dessa temporada de premiações (os mesmos quatro atores venceram Critics’ Choice Awards, Globo de Ouro e SAG Awards, por exemplo), como a cerimônia apostou no luxo e na seriedade para combater o caos surpreendente do ano passado, em que o Oscar passou uma vergonha histórica que, é impossível negar, também gerou um momento inesquecível de televisão.

https://youtu.be/5JEI0sjJs8c

Não houve nada nem remotamente perto disso no Oscar 2018. O apresentador Jimmy Kimmel parecia contido, os discursos (com a honrosa exceção da sempre incrível McDormand) seguiram o padrão de agradecimentos esperados, os segmentos pré-gravados expressaram sentimentos idealistas que são difíceis de traduzir para o mundo real, embora sua inspiração seja mais do que apreciada e bem-vinda.

Abrindo caminho em silêncio, e da forma mais mínima possível, para a inclusão, o Oscar 2018 vai deixar uma marca de moderação na história política dessa cerimônia. De certa forma, essa marca é bem característica da Academia, que como qualquer instituição prefere seguir no centro do que dar apoio ao radicalismo necessário, por vezes, para mudar as coisas. O Oscar não vai parar ativistas ao redor do mundo – mas pode ter criado, em sua atuação típica nesse ano de 2018, um mundo que os ignore mais facilmente.