No último dia 27 de dezembro, o Vulture publicou um perfil de Laura Dern, atriz que se destacou com grandes papéis durante o ano de 2017 tanto na TV (Big Little Lies, Twin Peaks) quanto nos cinemas (Star Wars: Os Últimos Jedi). A peça era intitulada “As mulheres furiosas de Laura Dern”.

Nos primeiros parágrafos, a atriz descrevia a luta para fazer Enlightened, sua elogiada série da HBO que, apesar de críticas positivas e premiações, foi cancelada após duas temporadas de baixa audiência. A trama era sobre uma mulher autodestrutiva em seu caminho para a “iluminação moral”, e o pôster trazia uma Dern esbravejante, com o lápis escorrendo dos olhos, o cabelo desarrumado, a boca entreaberta. A face da revolta – e uma imagem que a HBO lutou para não colocar no cartaz.

Almirante Holdo (Laura Dern) em Star Wars: Os Últimos Jedi

Se o mundo (e Hollywood) não estava pronto para as “mulheres furiosas” de Dern em 2011, quando Enlightened estreou, porque estava pronto agora, em 2017? Dern encarnou a revoltada Renata em Big Little Lies, vencendo um Emmy pelo trabalho; e se tornou a heroína com coração de fogo de Os Últimos Jedi (indicado a 4 Oscar), que demonstra abertamente seu desprezo pela imaturidade de “heróis machões” que se sentem no direito de liderar mesmo quando, hierarquicamente, não o tem.


A Almirante Holdo de Dern não está sozinha em expressar esse sentimento no maior blockbuster do ano passado, no entanto – a protagonista Rey (Daisy Ridley) encontra as mesmas frustrações ao encarar outro “herói machão”, com status de lenda, que não tem todas as respostas que ela deseja, ou merece. Por isso, ela decide explorar as possibilidades dos dois lados da Força sem sua instrução (e não se dá tão mal quanto muitos imaginariam ao fazê-lo).

Mais do que tudo isso, no entanto, o fato é que elas não estão sozinhas nessa edição do Oscar, essa premiação tão imperfeita, mas tão simbólica do estado do cinema mais culturalmente influente do mundo (o americano). As mulheres tiveram um verdadeiro ano de fúria no cinema, e ele se reflete na lista do Oscar tanto quanto é reflexão direta do momento social em que vivemos.

Três Anúncios Para um Crime.
Mildred Hayes (Frances McDormand) em Três Anúncios Para um Crime

“Isso é só a p*rra do começo”

“Como mulher na nossa sociedade, do que você sente raiva?”, pergunto à jornalista Flávia Kassinoff, de 23 anos. “Putz, realmente nem sei por onde começar”, disfarça ela, embora saiba muito bem. “Eu acho revoltante ter que usar uma roupa mais quente no verão por medo de pegar transporte público de vestido ou shorts. Acho revoltante aqueles héteros babacas (acho um pouco pleonasmo isso) que não sabem o significado da palavra NÃO”.

Em Três Anúncios Para Um Crime (indicado a 7 Oscar), Angela (Kathryn Newton) sai para se encontrar com os amigos após uma briga com a mãe, mas no caminho é estuprada e morta. Quando conhecemos a mãe, Mildred (Frances McDormand), o assassinato já completa sete meses, e ela está furiosa com a falta de ação da polícia local, comandada pelo Xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson). Sua resposta? Alugar três outdoors enormes com os dizeres: “Estuprada enquanto morria. E ainda sem prisões? Como assim, Xerife Willoughby?”.

McDormand, no papel que ela nasceu para interpretar, faz migalhas do emocional do espectador com uma dança elegante entre o humor negro e o profundo pesar de uma mãe que perdeu a filha para um problema sistêmico que viveu na pele (o ex-marido, feito por John Hawkes, era um homem abusivo) e vê seu assassino impune por culpa de outro. Sua fúria é o que os americanos classificariam como “scorched Earth” – não poupa nada nem ninguém, em seu completo amargor e afiado sarcasmo.

Mesmo assim, ela é nossa heroína, algo que seria simplesmente inadmissível em uma Hollywood pré-Donald Trump, pré-#MeToo, pré-visibilidade de movimentos sociais. Fúria em busca de justiça era um filão monopolizado por homens até pouco tempo atrás – dos tempos de John Wayne e Clint Eastwood, aos de Harrison Ford e Sylvester Stallone, aos de Jason Statham e Gerard Butler. Eles são heróis de ação, é verdade, mas a Mildred de Três Anúncios não é a única heroína vingadora que vimos na cultura pop em 2017.

Eleven (Millie Bobby Brown) em Stranger Things, 2ª temporada

Martha Raquel, também jornalista, cita uma das criações ficcionais mais populares da atualidade como exemplo positivo da raiva como elemento de construção em personas femininas. “[Em] Stranger Things, quando Eleven não deixa que mexam com seus amigos. Claro que Eleven é uma criança, mas foi notável que ninguém esperava aquilo dela e todos ficaram maravilhados (com uma situação que seria comum se fosse um cara defendendo os amigos)”, nota.

Em seu formato diminuto, Eleven é uma heroína de ação – na veia de Sarah Connor (Exterminador do Futuro) e Ellen Ripley (Alien), ela chuta bundas e protege aqueles que ama na força bruta e na base da revolta. Ela não tem medo de assumir as complicações do confronto dessa atitude com um mundo que ainda tenta definir amizade, romance e paternidade dentro de um contexto machista e opressor (sobre o qual, não se engane, Stranger Things está discursando o tempo todo).

Saoirse Ronan em Lady Bird: É Hora de Voar.
Christine (Saoirse Ronan) em Lady Bird: É Hora de Voar

“E se essa for a minha melhor versão?”

Nem todo retrato da fúria feminina em 2017 é tão direto quanto o de Três Anúncios para Um Crime, no entanto. Assim como mulheres sofrem opressões mais sutis em seu dia-a-dia, as mulheres do cinema do ano passado, que foram parar no Oscar desse ano, também se revoltam contra elas de suas próprias formas.

Em Lady Bird: A Hora de Voar (indicado a 5 Oscar), a personagem título, interpretada com gosto por Saoirse Ronan, é uma adolescente de Sacramento (EUA) no começo dos anos 2000. A recepção antagônica aos seus pequenos atos de revolta contra o status quo, assim como suas eventuais “concessões” a ele e suas armadilhas, são simbólicas de um sistema de machismo muito maior e mais influente do que a ordem social do ensino médio.

“Quantas vezes você não ouviu falar [que] ‘mulher não pode falar palavrão’? Ou, quando essas pessoas são confrontadas de forma enfática por alguma mulher, falam: ‘Vish, tá de TPM…’? A raiva em uma mulher muitas vezes é taxada de loucura. Essa é uma forma muito desonesta, porém comum, de se desmoralizar uma mulher e as causas que ela defende”, elabora Flávia.

https://youtu.be/x-glj3gCfHk

Ananda Amenta, 25 anos, auxiliar administrativa no Rio de Janeiro, concorda: “Acredito que isso é um problema enraizado na sociedade patriarcal”, diz, antes de citar exemplos (a mulher taxada de “barraqueira” por brigar por seus direitos em uma situação de comerciante-consumidor, ou a esposa que não pode enfrentar o marido ou está “pedindo para ser traída”). “No fim, sempre falam as mesmas coisas, só muda a ocasião. Por que o homem é mais homem quando se impõe e a mulher, quando faz o mesmo, não ‘presta’?”.

Tudo o que Lady Bird faz no filme que leva o seu nome é “se impor”.  Ela comete erros no caminho, se afasta de pessoas que ama, busca incansavelmente por compreensão e compaixão, se relaciona profundamente com outras pessoas que passam por opressões semelhantes (ou nem tanto). Sua fúria amadurece, mas não muda. “A raiva é importante para o despertar, pra alavancar reações e mudar situações. E ela é completamente legítima”, define Martha.

“Legítima” é provavelmente a palavra que Tonya Harding mais quis ouvir em sua vida. Interpretada por uma Margot Robbie terrivelmente complexa em Eu, Tonya (indicado a 3 Oscar), a patinadora que ficou infame nos anos 1990 por atacar (ou não) uma rival antes das Olimpíadas de Inverno se materializa no filme de uma forma na qual nunca nos demos ao trabalho, como público, de vê-la: como um ser humano completo.

A fúria de Tonya Harding é contra o sistema classista de seu esporte, que a manteve nas “beiradas” da vitória mesmo quando ela era tecnicamente superior a todas as suas competidoras – mas o filme também é a história do abuso machista que ela precisou enfrentar nas mãos do marido, Jeff (Sebastian Stan), o verdadeiro mandante do ataque contra a rival Nancy Kerrigan. É a história de como ela sofreu as consequências, e ele não. É um filme enfurecido que, com sua energia inclemente, enfurece também o espectador.

Tonya é também provocada e moldada por sua mãe, LaVona (Allison Janney, lutando para transcender a caricatura da mãe monstruosa até o fim). O filme desenha o conflito entre duas mulheres que encararam a mesma opressão, a forma como uma tentou preparar a outra para ela, e a tragédia desse desencontro. “Para a minha família, eu estou errada até quando estou certa”, reflete Ananda. “Se um homem da minha família grita comigo, não posso gritar de volta. Eu não sou temperamental, tento resolver tudo sem estresse. Mas eu também tenho meus limites, e minha família não acha bonito que eu não abaixo a minha cabeça pra absolutamente ninguém”.

Elisa (Sally Hawkins) e Zelda (Octavia Spencer) em A Forma da Água

“Ela está dizendo ‘obrigada’!”

“O que me revolta ainda mais [do que qualquer coisa] é que todas essas injustiças que eu como mulher de classe média branca enfrento na minha vida não chegam nem perto do sofrimento e das injustiças sofridas pelas mulheres pobres, negras e periféricas”, intervém a Flávia em meio a nossa conversa.

Em A Forma da Água (indicado a 13 Oscar), Elisa (Sally Hawkins) é a faxineira de uma instalação militar secreta durante a Guerra Fria. Lá, ela descobre que os cientistas estão escondendo uma criatura aquática supostamente trazida da América do Sul, que querem estudar (leia-se: torturar e dissecar) antes dos russos. Elisa é muda, mas se apaixona pelo Homem-Anfíbio (como está creditado no filme) e quer fugir com ele da instalação militar. Sua melhor amiga, Zelda (Octavia Spencer), é uma mulher negra tratada como inferior pelos empregadores, que está presa em um casamento infeliz governado por “regras” tipicamente machistas.

A fúria de Zelda começa como tagarelar neurótico usado como válvula de escape para uma vida miserável, mas termina com um confronto moral entre ela e o marido, e ela e o chefe. A raiva de Elisa explode tanto no ato de rebeldia de lutar por seu amor nada convencional (sua conexão com a água é trabalhada em todo o filme, incluindo em bem-vindas cenas em que a vemos se masturbando) quanto em uma demonstração para seu chefe preconceituoso, Richard (Michael Shannon) – dizendo, em língua de sinais que ele é incapaz de entender, um libertador “vai se f*der”.

Sim, A Forma da Água é um conto de fadas moderno. No entanto, em sua paixão pelos rejeitados, os “monstros” sociais, Guillermo Del Toro cria também uma ode à fúria que move suas ações mais revolucionárias. “Mulheres raivosas fazem revolução e é por isso que a TV e o cinema não mostram mulheres raivosas. Acredito que o medo é trazer esse despertar para a sociedade. Eles entrariam em pânico com mulheres raivosas”, define Martha.

https://youtu.be/BGzKpEgMaiQ

Uma fúria semelhante move Florence (Mary J. Blige) em Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi (indicado a 4 Oscar), mas o belíssimo filme de Dee Rees é mais cruel e mais simbólico da repressão adicional enfrentada por mulheres negras na sociedade. Nele, Florence precisa se resignar a sua posição de subserviência porque, embora Blige a interprete como uma mulher vívida, rica de sutilezas, a sociedade ao seu redor (mesmo pós-escravidão) a vê como instrumento para a satisfação de suas necessidades mais indignas e desumanizantes.

Florence está furiosa, mas descobrimos isso no fundo dos olhos de Blige, ou na narração em off da personagem, porque o sistema sufoca a sua voz metaforicamente tanto quanto sufoca a do seu filho, Ronsel (Jason Mitchell), literalmente. Ao mesmo tempo, o roteiro magistral de Rees e Virgil Williams, baseado no livro de Hillary Jordan, faz com que Florence se encontre com outra mulher frustrada e vulnerável – a Laura da sempre ótima Carey Mulligan. Furiosas de forma semelhante, as duas são diferentes nas possibilidades que tem para retaliar contra a opressão.

“A raiva não é ‘feminina’ ao mesmo tempo em que é. Ela não é feminina quando a sociedade diz que a mulher tem que saber o seu lugar de ser inferior. Quando querem que as mulheres sejam sempre ‘domadas’ e ‘domesticadas’, sempre submissas, sem direito à raiva. E digo que é feminina quando associam a raiva a histeria”, analisa Martha.

Halley (Bria Vinaite) e Moone (Brooklynn Prince) em Projeto Flórida

“Você deixou ela fugir?”

Se você me perguntar, no entanto, nenhuma raiva feminina foi mais sentida, e mais real, do que a de Halley (Bria Vinaite) em Projeto Flórida (indicado a 1 Oscar). A fúria da jovem mãe de Moonee (Brooklynn Prince) é, até as coisas ficarem mais sérias no final, dona de um tom subversivo e sarcástico que impede que qualquer momento do filme soe superficial. A monumentalmente espontânea obra-prima do sempre passional Sean Baker é um conto de injustiçados mantidos na base da pirâmide social por um sistema deliberadamente malicioso, inegavelmente revoltante.

Os atos de rebeldia infantil de Moonee são charmosos, mas o espírito endiabrado de Halley se transforma em frustração real no clímax do filme, em que um grupo de assistentes sociais aparece para tirar a pequena de sua mãe. Na última vez em que vemos Halley em tela, ela está gritando um sonoro palavrão, com a câmera de Baker inclementemente focada na boca aberta de raiva que forma o rugido de uma mulher quebrada e furiosa.

A Noiva (Uma Thurman) em Kill Bill

A raiva de Halley, e das outras mulheres das quais falamos nesse artigo, é diferente daquela de personagens femininas com esses traços retratadas anteriormente. Nas conversas com as mulheres cujas falas são citadas aqui, um número grande delas surgiu: A Noiva (Uma Thurman), de Kill Bill; Arya (Maisie Williams), de Game of Thrones; Octavia (Marie Avgeropoulos), de The 100… “Os casos que eu me lembro, a raiva feminina sempre motiva alguma vingança por parte delas”, percebeu Flávia.

Vingança é parte da trajetória das mulheres furiosas do Oscar 2018 – mas não é tudo nelas. “Acredito que a partir do momento que as mulheres começarem a entender que todos, absolutamente todos, os sentimentos, inclusive a raiva, existem para serem sentidos, isso evitaria muitos outros problemas, principalmente psicológicos, causados pela raiva reprimida”, elabora Ananda. “Se você não souber controlar e direcionar o que sente, vai acabar perdendo o controle e se prejudicando. A gente tem que saber lidar bem com qualquer sentimento, principalmente a raiva”.

https://youtu.be/MnTm4w5ehlU

Em ano de levante de mulheres contra o abuso e o assédio sexual em sua própria indústria, Hollywood refletiu isso em alguns de seus filmes mais prestigiados. Mas será isso uma tendência? E, se sim, o que há para se considerar nela? Flávia responde à questão com uma clareza que eu não poderia emular: “Acredito que tudo depende da forma como é abordado. E [em] cada roteiro, cada história, a raiva teria um papel diferente. Nesses filmes as mulheres têm razões verdadeiras para sua raiva? Elas cometem injustiças por causa dela? Elas são colocadas como loucas? Acredito que o efeito será positivo ou negativo de acordo com o contexto”.

Contexto. O desejo é que as mulheres do cinema continuem rugindo, em sua fúria justa, e continuem se tornando mais completas e complexas em suas ações por causa dela. Que elas vivam nas entrelinhas, no reino do verdadeiramente humano, e não nos símbolos grosseiros e irrealistas em que foram transformadas, historicamente, pela ficção.