3% é um caso curiosíssimo da produção audiovisual nacional. Inegavelmente um marco por se tratar da primeira série brasileira bancada pela gigante do streaming chamada Netflix e com uma abordagem não exatamente inédita, mas ambiciosa como distopia (e parte da ambição pode ser comprovada quando nos lembramos que a Netflix resolveu dar continuidade a série à partir de um episódio piloto lançado direto no YouTube), os oito episódios da primeira temporada dividiram o público brasileiro em pólos bastante extremos onde ou você havia amado ou odiado o material. Grande parte das críticas se concentrou no visível baixo orçamento aplicado em cada episódio (cerca de 10 milhões por cada) e na posição amadora do elenco, em grande parte entregue a atuações risíveis e pouco convincentes. De qualquer forma, 3% não deixou de ser um feito gigante por isso, já que nos EUA, se tornou a série não-inglesa mais vista no país, assim como uma das mais populares da Netflix no mundo todo.

Criada pelo espanhol Pedro Aguilera com uma base extremamente calcada nas distopias hollywoodianas que tomavam conta do circuito há não muito tempo atrás (não à toa, a série surgiu justamente quando tais distopias, geralmente voltada ao público adolescente, se encontrava em seu ápice), 3% segue dividindo seu foco entre o Continente, um lugar pobre, miserável e escasso de recursos naturais, e o Maralto, um lugar abundante, límpido e cheio de oportunidades para os 3% que, anualmente, participam de provas que desafiam a força física e a moralidade dos participantes em diversas provas que decidirão quem é digno de viver no luxo do Maralto. Sim, lapsos absurdamente evidentes de franquias distópicas que fizeram seu nome como Jogos Vorazes ou Divergente foram sentidas na base da trama do seriado, e se a falta de originalidade estava longe de ser o grande problema da temporada anterior, o principal percalço do segundo ano do seriado, ligeiramente superior ao primeiro, talvez seja justamente a dificuldade dos roteiristas em ir além do que já é óbvio.

Agora composta por dez episódios, a segunda temporada de 3%, que chega no próximo dia 27 ao catálogo da Netflix, é condizente no processo de evolução natural de uma trama que, se antes fora focada unicamente nos jogos do chamado Processo, agora decide por adentrar na história que poucos conhecem do que levou a divisão entre o Maralto e o Continente, retomando grande parte dos personagens que marcaram a narrativa da season anterior. E se em qualquer distopia as pinceladas de um cunho político se fazem obrigatórias no pacote (grande parte das críticas negativas para a temporada anterior se deviam a superficialidade com que os roteiristas tratavam estas entrelinhas), a totalidade dos novos episódios se apropria da necessidade de tornar latente os aspectos políticos e sociais daquele universo, e aqui temas como revolução, alienação, manipulações hierárquicas e a dicotomia entre os ricos e os miseráveis se fazem ainda mais presentes. Ponto para os roteiristas que resolveram intensificar tais características da trama, o que sem qualquer necessidade de comparação óbvia, torna a segunda temporada de 3% uma experiência mais instigante, movimentada e intensa que sua anterior, em especial por se tratar do Processo de número 105.

Além do aprimoramento nos questionamentos morais e sociais (que apesar da evolução, nunca escapam do óbvio, vale ressaltar), o design de produção, enfim, se torna mais convincente quando a câmera passa a explorar o contraste entre os cenários sujos e degradados do Continente vs a limpidez do Maralto, o que prova que, desta vez, o orçamento se fez melhor distribuído entre os elementos que compõem cada cena. Da mesma forma, há uma melhora narrativa quando os episódios resolvem voltar no tempo para esclarecer e situar certos detalhes sobre as situações dos personagens, o que em grande parte do tempo, ocorre de forma orgânica (o ápice acontece quando a narrativa se divide em três linhas de tempos diferentes no penúltimo episódio, um primor de controle do tempo).

Mas ainda há superficialidade em 3%, por mais que tal problema esteja suavizado por um roteiro mais desenvolto. Porém, é devido a esse mau desenvolvimento que A Causa, uma organização revolucionária contra o processo, pouco convence ou esclarece sobre os objetivos dos que fazem parte daquela organização, que na maior parte do tempo, é usada como um simbolismo óbvio como forma de criticar as instituições tão alienadas quanto as que foram concebidas pelos maiores. Muitos diálogos também seguem risíveis (“Ema ema ema, cada um com seus problemas”) e se tornam piores quando saem da boca de um grupo de atores que, apesar de mais entrosado, ainda encontra dificuldades para se adequar de forma menos teatral ao texto. E neste caso, é ainda mais lamentável um ator tão talentoso como João Miguel se colocar na pele de um personagem tão caricato e limitado como Miguel, o presidente do Processo.

De qualquer forma, a segunda temporada de 3% se faz mais consciente de seu potencial, o que garante uma experiência muito mais aprazível que a precária primeira temporada. Os arcos deixados para a muito provável terceira temporada são igualmente provocativos e abrem um leque promissor para o que pode ser explorado à partir daqui, e torçamos para que os roteiristas sigam com essa mesma consciência de que, chegando ainda mais longe, 3% pode se tornar um marco ainda maior para o audiovisual nacional, independente do ângulo pelo qual se olhe o resultado.

3%
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