Em 2 de maio de 2008, uma das empreitadas cinematográficas mais épicas da história tinha começo com Homem de Ferro – e você já deve estar careca de ouvir como, dez anos depois, é incrível perceber que a aposta alta e arriscada da Marvel, como estúdio então independente, em um de seus personagens menos populares dos quadrinhos, rendeu a franquia cinematográfica mais bem sucedida da nossa época, provavelmente de todos os tempos.

A história da Marvel nos bastidores foi cheia de percalços, da briga com o CEO Ike Perlmutter à compra pela Disney que permitiu uma expansão muito além de quaisquer sonhos iniciais dos produtores e criativos envolvidos no começo do universo cinematográfico. No entanto, a narrativa da Marvel nas telas é tão interessante quanto aquela fora delas – e é enganoso pensar que as entrelinhas que a fazem assim só surgiram com o passar dos anos e dos filmes.

Jon Favreau no set de Homem de Ferro

Pelo contrário, os temas complexos e políticos do universo cinematográfico Marvel estavam todos presentes naquele primeiro filme, dirigido por Jon Favreau, que estreou exatamente dez anos atrás. Mais impressionantemente, Homem de Ferro é uma obra coesa mesmo escrita a oito mãos, com a dupla Mark Fergus & Hawk Ostby (Filhos da Esperança) tomando a liderança com a assistência de Art Marcus & Matt Holloway (O Justiceiro: Em Zona de Guerra).

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Nenhum dos quatro roteiristas retornou para escrever outros filmes da Marvel, mas o trabalho deles seria sentido de forma definitiva no futuro da franquia. Homem de Ferro é a história de Tony Stark (Robert Downey Jr, no papel que nasceu para interpretar), um bilionário da indústria armamentista que é sequestrado por terroristas no Afeganistão e constrói uma armadura para escapar do cativeiro e, ao mesmo tempo, manter-se seguro dos estilhaços de bomba que se alojaram em seu coração.

Tony Stark (Robert Downey Jr) constrói a primeira armadura do Homem de Ferro

Quando Tony consegue fugir e sofistica sua criação no Ocidente, ao mesmo tempo em que conduz as Indústrias Stark para outra direção, longe do negócio bélico, ele enfurece Obadiah Stone (Jeff Bridges), que constrói sua própria e monstruosa armadura e tenta matar o “chefe”. Como Homem de Ferro, Tony faz intervenções em países em guerra e luta para direcionar seu poder para algo positivo, muito embora seu ego (de bilionário, de americano, etc) o impeça de ver exatamente o que isso significa.

O Tony Stark que quase destrói o mundo querendo protegê-lo, que vimos se espalhar de forma polêmica por filmes como Vingadores: Era de Ultron (2015) e Capitão América: Guerra Civil (2016), já vivia aqui – e já fazia parte da atuação complexa de Downey Jr, um homem capaz de expressar o impulso autodestrutivo e as boas intenções de Stark como ninguém, porque essencialmente viveu tudo isso na vida real.

Homem de Ferro vs. Monge de Ferro no clímax do filme

Mais do que a performance de Downey, no entanto, em Homem de Ferro já vivia também a preocupação do universo cinematográfico Marvel com questões de militarismo e ufanismo. Stark, o símbolo maior do capitalismo bélico no começo do filme, adquire uma consciência em sua duração, mas não parece tirar da cabeça uma concepção militarista (e, porque não, colonialista) de heroísmo – a mesma que colocaria os heróis da Marvel em apuros com o público em filmes posteriores.

É verdade que o primeiro Homem de Ferro não explora questões como o alcoolismo de Stark ou o ressentimento que sente pelo o pai, Howard (aqui, Gerard Sanders; depois, John Slattery e Dominic Cooper), mas isso é em grande parte porque o filme está ocupado demais, em seus “rasteiros” 2h06m, com as próprias fundações dos temas principais do universo Marvel.

Gwyneth Paltrow como Pepper Potts em Homem de Ferro

Capitão América: O Soldado Invernal (2014) leva muita fama como o filme que começou a desconstruir as noções de identidade e autoridade dentro do universo Marvel, mas a verdade é que os Irmãos Russo e a dupla de roteiristas Christopher Markus e Stephen McFreely só fizeram escancarar uma desconfiança e cinismo que já viviam em Homem de Ferro, lançado bons seis anos antes.

A importância fundadora do filme de Jon Favreau para a franquia da Marvel é batida. Você já ouviu sobre como os surpreendentes US$ 585 milhões do filme na bilheteria ajudaram a trazer uma nova era para o cinema de super-heróis – e, essencialmente, para o blockbuster americano como um todo. Você provavelmente ouviu tudo isso pelo menos meia dúzia de vezes só hoje, nessa data especial para o filme.

A importância narrativa de Homem de Ferro, no entanto, não é cantada como deveria. Sua importância, e a do universo Marvel que ele fundou, no discurso político-cultural da atualidade, muito menos. No aniversário de 10 anos da mais titânica franquia de cultura pop do nosso tempo, vale lembrar que nossa produção popular também tem significado, e impacto, e que não podemos tirar o olho dela.

Não que isso seja problema – 10 anos depois, ninguém tirou.