Cara Gente Branca é o exemplo de série que, não há como negar, chegou onde chegou por méritos próprios. Claro que o sucesso do filme homônimo no qual a produção da Netflix é baseado auxiliou no êxito da transposição daqueles meros 108 minutos de projeção para uma narrativa mais ampla e didática sobre todos os temas que o roteiro de Justin Simien abordava no longa de 2014, sendo o racismo, velado ou explícito, feminismo e sexismo os mais populares entre o público consumidor do seriado. Não surpreendente, o anúncio da primeira temporada, em sua época, foi fortemente criticado e até incitou um boicote acusando o show de promover a segregação ou o tal “racismo inverso”.

Os méritos de Justin Simien, conseguem falar mais alto por si só. Passado o boom inicial de suas polêmicas, foi muito mais fácil notar a habilidade de Simien em desmistificar novamente os temas já mencionados através de um humor sarcástico e deveras peculiar que entre narrações em off que nos puxavam pela mão (didatismo proposital, diga-se) e protagonismos divididos entre os episódios, trazia à tona de forma bastante elucidativa a estrutura social e sua hierarquia como a grande vilã da história dentro de uma universidade onde a predominância são estudantes brancos, elitistas e que se apropriam da cultura afro, além de promover o blackface numa festa, ponto de partida do primeiro ano. É neste cenário que fomos apresentados a Sam White (Logan Browning) locutora da rádio que dá título ao seriado.

Em sua segunda temporada, que chegou ao catálogo da Netflix neste 4 de maio, Siemens lida com uma evolução natural do que fora plantado na primeira temporada, inserindo novas abordagens a perseguição online e a adição de alunos brancos em meio ao dormitório dos negros, o que causará novos conflitos e tensões raciais.


E é notável como o roteiro, após a boa recepção da primeira temporada, se revela muito mais espontâneo e naturalista no desenvolvimento das temáticas, que fazem uso do racismo como pontapé inicial para levar adiante diversas abordagens sobre intolerância. E apesar de assuntos como a homofobia e o haterismo gratuito nas redes sociais ser pincelado com muita maestria e pontualidade, a temática principal do seriado ganha novas proporções quando lida com a tão infame “liberdade de expressão”, um grande xeque em nossa sociedade de política tão conflituosa, e declarar isto como uma crítica ao governo de Donald Trump não chega a ser nenhum exagero de visão. Duas participações especiais deixam esse discurso perfeitamente claro (mas que não serão reveladas aqui) ao acentuar os tão promovidos discursos de ódio justificados pelo “eu tenho a liberdade de dizer o que quiser”.

São as personagens femininas que seguem carregando Cara Gente Branca nas costas, por mais que os capítulos que partem do ponto de vista de Lionel (DeRon Horton) e Troy (Brandon P. Bell) tenham seu interesse genuíno. E por mais que seja de se estranhar a falta de foco em Samantha após o primeiro episódio (algo justificável diante da gama de personagens), a locutora segue sendo a grande força motriz e o símbolo do espírito de Cara Gente Branca, o que igualmente comprova o quanto Logan Browning pode ser considerada uma das grandes revelações no momento atual dos seriados. Mas é de se destacar também a transformação gradativa e bem conduzida de Coco (Antoinette Robertson), a amiga patricinha que ganha novas camadas com seu arco complexo, e que vale ressaltar, denotam um episódio poderoso, impactante e deveras reflexivo sobre a posição feminina no seu próprio comando (não estranhamente, este episódio é dirigido por Kimberly Pierce, a responsável por Meninos Não Choram).

E com maior liberdade em suas mãos, Siemens explora com maior intensidade todas as suas reflexões sobre o atual estado de nossa sociedade em relação aos direitos humanos, aos discursos de ódio, a lógica política, a repercussão de anos e anos de opressão, tudo num reflexo de situações e ações que encaramos diariamente em nossa convivência, seja de forma direta ou indireta. E é louvável como, mesmo através de muito humor, sarcasmo e sátiras (a participação de Lena Waithe, vencedora do Emmy por Master of None, é um gancho dos mais inteligentes), Siemens jamais dilui a relevância de Cara Gente Branca como objeto de reflexão.