The Rain, primeira série original da Netflix para a Dinamarca e que chegou ontem ao catálogo da streaming, parte de uma reunião de elementos que hoje já surgem deveras familiar para ambientações pós-apocalípticas como a que acompanhamos aqui. The Walking Dead segue até hoje com seus zumbis em meio a personagens que se tornaram novelescos, apenas para não nos deixar mentir, e até mesmo no Brasil a Netflix já se arrisca com outra produção futurista de um mundo devastado, a ainda oscilante 3%. De qualquer forma, se The Rain já nasceu condenada ao cansaço devido ao seu ponto de partida desgastado por si só, o que dizer da realização da série em si?

Como qualquer trama pós-apocalíptica que se preze, The Rain pouco explica ou situa o espectador em seus primeiros minutos de abertura, onde vemos uma família desesperada fugindo de uma chuva que, aparentemente, está causando a morte de milhões de pessoas no mundo. Escondidos num bunker, com o pai desaparecido e a mãe morta ao tentar salvar os filhos de um suposto infectado, os irmãos Simone (Alba August) e Rasmus (Lucas Lynggaard Tønnesen) sobrevivem sozinhos durante seis anos à espera do retorno do pai, até que chega o momento que seus recursos acabam e ambos se vêem obrigados a abandonar o bunker e tentar buscar formas de sobrevivência no mundo lá fora, devastado por um provável vírus que é carregado pela água da chuva.

Não há, conceitualmente falando, nada de interessante em The Rain. A epidemia varreu grande parte da vida humana na terra, há o clichê da irmã mais velha lutando para manter o irmão mais novo vivo após prometer isso para o pai, além do próprio ser envolto por um mistério que o aponta como uma possível solução para o problema, além da adição de grupos armados que apenas se tornam mais um peso na jornada dos protagonistas e uma seita formada por indivíduos com comportamentos duvidosos, talvez numa alusão óbvia ao uso da religião ou da crença na busca por respostas ou justificativas.

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The Rain, ao menos, traz consigo um roteiro que chacoalha bem suas informações e mistérios ao longo dos oito episódios que compõem a temporada, apesar destes serem atrapalhados por um ritmo irregular, que ora se torna lento demais, ora descamba sem muita sutileza para a correria desenfreada. De qualquer forma, é visível o cuidado na ambientação e no trabalho estético da série para que aquela realidade se torne convincente, e nisto a fotografia busca tons dessaturados, quase cinzentos, que ressaltem o quanto nosso mundo se tornou hostil e claustrofóbico, num embate entre os próprios sobreviventes em busca de comida e outros recursos que possam mantê-los vivos. Os cenários também são caprichados e soturnos o suficiente para auxiliar na constante sensação de desconfiança e perigo que cerca os personagens, por mais que tudo isso ainda remeta demais a outras séries da própria Netflix, como Dark.

É uma pena que, para conseguir caminhar, The Rain obrigue seus personagens a tomar atitudes que são pouco críveis ou justificáveis para indivíduos naquelas situações, e a própria questão do vírus carregado pela chuva é pouco explorada pela série, que em determinados momentos, prefere focar em interações fúteis entre os personagens, inclusive investindo em envolvimentos amorosos banais e mal desenvolvidos. Há sim, o despertar de uma curiosidade genuína para até onde a trama irá chegar, e a protagonista Alba August defende com eficácia sua personagem que sabe tanto quanto nós mesmos, o que nos torna mais próximos de sua figura do que o esperado. Mas o belo acabamento técnico e a ambientação caprichada não mascaram as escolhas por demais tradicionais de The Rain para desenrolar sua história mirabolante. No fim, é apenas um seriado correto, mas sem surpresas.

The Rain
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