Após três temporadas de seguidores fiéis e uma importância significativa no catálogo da gigante do streaming Netflix, o anúncio de mais uma temporada para a série criada por Tina Fey (30 Rock) e Robert Carlock e seu cancelamento após o encerramento desta caiu como um baque em cima de um dos shows que carregaram o nome da Netflix antes de seus tempos mais áureos. Durante seu auge, a série não apenas foi pioneira para o streaming (a primeira série de comédia com 30 minutos encomendada pela empresa, ou seja, de fácil acesso para os assinantes), como colecionou diversas indicações ao prêmio Emmy, o que comprovava que Tina Fey e cia não estavam para brincadeira quando decidiram contar as desventuras de Kimmy Schmidt e seu companheiro de quarto, Titus.

E partindo da mente nada usual de Tina Fey (que não obstante, roteirizou o clássico moderno Meninas Malvadas), não é de se estranhar o quanto Unbreakable Kimmy Schmidt parta de um ponto igualmente incomum. No caso, Kimmy é uma das quatro ex-prisioneiras de um pastor fanático que, durante 15 anos, as trancafiou num bunker afirmando que o mundo lá fora havia acabado (?!). Após ser resgatada, Kimmy decide recomeçar sua vida em NY (vale dizer que este ponto de partida foi inspirado num caso real), dividindo seu apartamento com Titus Andromedon (Tituss Burgess), gay e negro que deseja alcançar o sonho de atuar na Broadway a qualquer custo.

À partir desta premissa aparentemente dramática e novelesca, Unbreakable Kimmy Schmidt se desenvolveu ao longo de três temporadas com um humor negro absolutamente peculiar, crítico, ácido e até mesmo denunciativo, abraçando diversos temas que pautam nosso cotidiano social (o ápice certamente fora o vídeo divulgação da temporada anterior, onde Titus emulava o clipe Hold Up, de Beyoncé). Em seu último ano, a Netflix decidiu dividir esta temporada de encerramento em duas partes, cujos primeiros episódios acabam de chegar ao seu catálogo, mantendo grande parte do espírito e identidade que abocanhou os fãs de Kimmy e Titus.


É de deixar uma dúvida no ar, portanto, quando esta primeira parte de uma última temporada oscila entre episódios iniciais que carregam consigo todo o sarcasmo crítico e igualmente sutil que acompanhou a longevidade da série, e uma outra metade que, estranhamente, passa a perder o fôlego quando as tiradas passam a se tornar repetitivas, acima do tom e sem lá tanta inspiração. Não que Unbreakable Kimmy Schmidt ainda não seja capaz de gerar tantas risadas quanto uma comédia é capaz de fazer, e sempre trazendo ao seu lado um quê de reflexão que, graças à sagacidade dos diálogos, nos permite questionamentos pontuais e muito orgânicos sobre racismo, sexismo, homofobia. Da mesma forma, a Netflix abraça uma bem-vinda e bem humorada metalinguagem num episódio onde Kimmy, Titus fazem maratonas de longas séries de TV (“American Dad já teve 68 temporadas?”) em meio a catálogos de streamings (e o nome House Flix não é mera coincidência)

Portanto, é de se estranhar que, após um deslocado e não muito espirituoso episódio onde um certo documentário é abordado, o roteiro de Unbreakable Kimmy Schmidt comece a oscilar entre tiradas óbvias e plots que não parecem ter fôlego suficiente para gerar risadas e reflexões mais espontâneas, apesar do plot de Titus e sua adolescência no colegial ser particularmente inspirada. O tom soa confuso e indeciso, o que culmina num último episódio cuja impressão é de que há pouca coisa, de fato, para ser resolvida até ali, o que leva os roteiristas a um quase obrigatório cliffhanger para deixar o público com a pulga atrás da orelha sobre o mistério. Não é um artifício que pareça fazer parte do universo de Unbreakable Kimmy Schmidt, assim como a desconfortável mochila falante da protagonista. De qualquer forma, a “dramédia” (encontramos aqui um termo mais adequado) segue tão perspicaz quanto uma criação de Tina Fey poderia ser, e apesar da queda, a despretensão muitíssimo bem aliada com a visão escrachada do roteiro sobre o mundo segue sendo um dos mais originais atrativos em meio ao catálogo atual das séries de TV.