Foi um longo caminho até Ryan Murphy conquistar seu posto como uma das figuras mais relevantes do cenário televisivo atual. O criador de séries como “Glee” e “NIp/Tuck” caiu nas graças dos críticos quando entregou sua maior criação até então, a primeira temporada de American Horror Story, uma série de terror antológica que desafiava os formatos tradicionais para a televisão da época. Eis que o experimento resultou em grandes sucessos, muitos prêmios e uma base de fãs aficionada pelo elenco estelar que foi sendo construído a cada temporada. Oito anos depois, Murphy se propõe a culminar parte deste caminho que traçou com a série até então, e posiciona novos personagens para enfrentarem a sua versão do fim dos tempos.

A nova temporada, batizada de American Horror Story: Apocalypse, consegue trazer o frescor característico que sempre foi o maior trunfo de qualquer antologia, e se provou extremamente eficiente por aqui. A cada temporada, um novo tema é tratado, novos personagens são apresentados, com elencos compostos por novos rostos e atores recorrentes, e um novo cenário é explorado ao máximo permitido pela duração de uma dúzia de episódios. American Horror Story nunca fugiu da oportunidade de levar seus tópicos ao extremo, e costuma desenvolver rapidamente suas narrativas ao longo de cada ano, procurando concluir suas histórias de maneira definitiva. Ainda assim, os fãs sempre souberam que muitas destas histórias poderiam ser retomadas de alguma forma, no futuro, e American Horror Story: Apocalypse estreia carregada de expectativa pelo retorno anunciado de personagens das primeira e terceira temporadas, “Murder House” e “Coven”, respectivamente.

American Horror Story: Apocalypse não demora a nos trazer o fim do mundo em todo o seu terror, e estabelecer suas consequências imediatas para os personagens. Com um ritmo acelerado, somos apresentados aos novos personagens já em situação de perigo, exibindo seus valores morais e personalidades de maneira eficiente, ainda que sucinta. É curioso perceber o contexto real em que estas temporadas da série vem se encaixando. Murphy é um criador com um viés político evidente, sempre argumentando sobre as visões sociais do país e inserindo parte de seus pensamentos em suas obras. No ano passado, com a eleição de Donald Trump, a série não poupou esforços em demonstrar o desespero de parte da população que se via desacreditada pelo sistema político atual e seus absurdos. Nesta nova temporada, no entanto, este desespero parece ter se transformado em desamparo consciente, retratando o fim dos tempos como algo inevitável no mundo atual. “A tecnologia destruiu o mundo. As redes sociais deram às pessoas, a ilusão de que somos todos iguais, mas tudo isso acabou”, é o que diz a personagem Sarah Paulson ao nos apresentar este novo mundo. Depressivo, com certeza, mas também intrigante. O quê Murphy estaria planejando (dramaticamente) com estes comentários metalinguísticos?

>> CONTINUA APÓS PUBLICIDADE

Este primeiro episódio não gastou muito tempo estabelecendo por onde as esperadas interligações virão, preferindo tratar esta nova temporada como qualquer outra, sedimentando o novo cenário aterrorizante e apresentando as novas dinâmicas entre personagens que dividem o curto tempo de tela de um episódio, entre si. Com tão pouco tempo, somos superficialmente introduzidos à este novo grupo de protagonistas. Já é possível perceber as divergências e semelhanças entre os sobreviventes, e os principais arcos narrativos já vão sendo levemente introduzidos (como, por exemplo, um romance proibido entre dois personagens, e uma trama de conspiração que deve tomar forma ao longo destes primeiros episódios). A grande ligação, prometida por Murphy, neste primeiro episódio veio na forma de um personagem misterioso chamado Michael Langdon, que chega ao refúgio nuclear no final do episódio com a intenção de avaliar os refugiados e selecionar aqueles que serão levados por ele para um centro de sobrevivência mais bem estruturado. MIchael Langdon é o mesmo nome do bebê que nasce no final da primeira temporada da série, e é tido como uma versão do anticristo (ou do demônio propriamente dito). Como esta revelação irá afetar este novo contexto de American Horror Story: Apocalypse, ainda é uma mistério, mas é possível supor que toda esta ambientação apocalíptica servirá menos como um tópico à ser explorado, e mais como um campo de operações onde os roteiristas pretendem compor uma trama derivada.

Mas o grande atrativo de American Horror story: Apocalypse permanece sendo, sem sombra de dúvidas, o seu elenco. A série ficou famosa por revelar diversos talentos que ganhariam o público no cinema e na televisão em gêneros ainda mais diversos. Sarah Paulson continua sendo um deleite de se acompanhar em tudo que interpreta, assim como Evan Peters parece encontrar seus melhores momentos sempre que está com a série. E com personagens sempre tão excêntricos ou desconcertantes, há muito o que se esperar desta temporada de nomes como Kathy Bates, Emma Roberts e Taissa Farmiga (que ainda não deram as caras por aqui), além da filha de Carrie Fisher, Billie Lourd.

American Horror Story: Apocalypse consegue, mais uma vez, instigar o espectador com sua nova proposta. Não importando se o público conhece, ou não, a trajetória da série até aqui, ainda há muito para ser aproveitado por esta nova temporada, tanto visualmente quanto tematicamente. E se você é fã da série, e está se perguntando se este novo ano vale a pena, já é possível dizer que, no mínimo, a gratificante audácia de American Horror Story permanece viva e intrigante.

American Horror Story: Apocalypse
COMPARTILHE:

Deixe o seu comentário