Em meio à coleção de jóias que a HBO possui em seu acervo de produções, David Simon é um especialista em criar diamantes escondidos. Sua mais nova série, The Deuce, retorna para sua segunda temporada, nos apresentando novos contextos e a evolução dos personagens após um leve salto temporal. Também demonstra como a abordagem do criador amadureceu nesta nova produção, e como será empregada neste segundo ano.

Simon criou aquela que sempre considerei a melhor série do canal, The WIre (que os Sopranos me perdoem), antecipando algumas maneiras de se construir histórias para a televisão que, eventualmente, tornariam-se o alto padrão para grandes produções. A estrutura de suas séries é abrangente, e procura englobar diversas perspectivas de um mesmo universo para retratar um contexto que serve quase como um experimento social para o autor. Não se preocupa em interligar diretamente suas narrativas, deixando que seus personagem caminhem livremente para se encontrarem conforme as circunstâncias, e sempre procurando exibir as relações subentendidas entre cada núcleo. Nos mundos de David Simon, nada é por acaso.

Saindo das esquinas de Baltimore, o autor voltou sua atenção para o mercado de prostituição e pornografia da Nova York dos anos 70. Embora tenhamos dois protagonistas mais declarados, a série ainda traz diversos outros personagens que seguem suas próprias histórias, sem muitos apelos imediatos ou elementos engajantes que costumam ser essenciais para qualquer série de televisão. É quase como se estivessem nos provocando à acompanhá-los, à questionar sua relevância dentro deste mundo. Até que, episódios depois, somos forçados a encarar esta relevância de maneira pragmática, fria, aceitando as consequências de sistemas estabelecidos organicamente pelas pessoas que nele se envolvem.

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Esta segunda temporada coloca seus personagens alguns anos à frente de onde os vimos pela última vez. Personagem que morreram ou que se distanciaram do sistema não importam mais (até que importem de novo), e os que ficaram, tiveram suas mentalidades amadurecidas. Vinnie (James Franco) ainda possui suas ressalvas características do primeiro ano, mas elas estão muito mais contidas, agora que sua vida está mais confortável. Eileen (Maggie Gyllenhaal) demonstrou aptidão para as produções pornográficas e agora está tentando ir além, editando filmes pornôs como se fossem obras conceituais. E as ruas continuam sendo tão caóticas e mesmerizantes quanto as que deixamos no ano passado. O sistema que as abrange, no entanto, está sempre em evolução, com novas leis sendo passadas à respeito da prostituição, e abrindo espaço para a criação de locais diversificados onde as pessoas podem usufruir deste mercado quase-ilegal. Se estivéssemos em The WIre, a ideia por aqui seria mostrar como é impossível quebrar o sistema, banir a prostituição e a depravação, tal qual “tentavam” banir o mercado de drogas de Baltimore. Mas em The Deuce, ninguém iria querer banir um aspecto comum da vida social. É tudo uma questão de perspectiva, de adaptação e de conformidade. Sendo assim, seguimos a evolução deste microcosmo, o mantimento do status quo que condena personagens à marcharem para o seu sacrifício, enquanto estes perguntam “Por quanto?”.

“Microcosmo” significa “uma imagem reduzida do mundo, um pequeno universo”. São várias, as séries que constroem seus próprios universos aproveitando núcleos narrativos diversificados que se complementam, mas nenhuma consegue atingir o mesmo nível de naturalidade e consequencialismo que Simon produz com suas histórias. Em The Deuce, a roda de personagens continua girando nesta segunda temporada, começando a educar o espectador sobre as circunstâncias deste mundo, e proporcionando paralelos interessantes que já podem ser observados neste primeiro episódio. Como é possível vermos novas mulheres adentrarem a profissão das ruas, sem nos lembrarmos de Ruby? Como podemos ver C.C. interagindo com Lori sem lembrarmos de Ashley? São paralelos que, embora não atinjam a trama diretamente, nos fazem enxergá-la com outros olhos. A série torna-se substancialmente mais densa com aquilo que não se propõe a dizer, deixando que a ignorância e impunidade sejam suas maiores tragédias, ao fim.

Seguiremos esta temporada com os personagens tomando riscos maiores. Neste primeiro episódio, vimos que a maioria está vivendo bem, já bem adaptados às suas novas realidades, e planejando seus próximos passos com tranquilidade. Nestas condições, é como se estivéssemos vendo um epílogo para a temporada passada, mas ao primeiro sinal de problema, o sistema será chacoalhado, e precisará se reinventar novamente. A máfia, sempre a distância (porém, sempre presente), deve acabar se envolvendo mais neste novo ano, assim que o primeiro personagem (Frankie é sempre uma aposta) sair da linha. A polícia, de maneira semelhante, também deve trazer algumas inovações na maneira como cobrem o distrito. Cafetões precisarão avaliar o caminhar dos tempos, prostitutas terão novas oportunidades, Vinnie deve ter que escolher entre sua perspicácia e seus valores morais para continuar no controle de sua situação, e Eileen está prestes a enfrentar alguns obstáculos sociais que mal conseguia vislumbrar da esquina.

Estamos na calmaria que antecede a tempestade. Uma tempestade que mal é anunciada, sem ganchos apelativos ou novos núcleos chamativos, mas que, no silêncio entre cada trama, já vai se evidenciando. Diferente do distrito que dá o nome à série, The Deuce pode não gastar muito tempo lutando pela sua atenção, mas não se engane. Ainda há muito o que explorar, tanto longe quanto perto dos holofotes.

The Deuce
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