Game of Thrones finalmente chegou ao fim neste domingo (19) e apresentou a tão aguardada resposta para uma das maiores perguntas da cultura pop: quem ficou com o Trono de Ferro e o comando de Westeros no final da história? A resposta surpreendeu ao trazer um personagem inesperado, o jovem Bran Stark, que nas últimas temporadas havia praticamente abandonado sua identidade humana para atuar como o Corvo de Três Olhos – uma entidade sem desejos ou aparente emoção, apenas à deriva de um raciocínio particular.

Ao ouvir que essa seria a escolha de George R.R. Martin, D.B. Weiss e David Benioff para chefiar os Sete Reinos, confesso que a solução pareceu errada. Exatamente pelos motivos citados acima, descrevendo um ser humano que aparentemente não tinha a capacidade de governar, até porque Bran ficou completamente afastado dos eventos centrais de Game of Thrones pela maioria dos personagens, embarcando em sua própria jornada pessoal e espiritual para entender o passado de Westeros e o mito do Corvo de Três Olhos. E é justamente por isso que, quando olhamos para trás, Bran Stark se mostra – sim – como a escolha ideal para governar em um mundo tão caótico e indeciso.

Claro, quando olhamos de um ponto de vista de narrativa, a resposta deveria ter vindo com Daenerys Targaryen ou Jon Snow. Ambos protagonizavam narrativas de personagens subjugados que caminhavam um caminho de obtenção de poder, ou de reconquista de um reino há muito perdido. O arco de Daenerys Targaryen certamente foi apressado e mutilado nessa temporada, enquanto a revelação de Jon Snow ser um Targaryen não vingou tanto quanto o esperado, e Bran surge como um estepe narrativo nesse sentido. Mas um que certamente impede que o carro da série tombe descontroladamente, e sua escolha foi satisfatória.


Foi no discurso de Tyrion sobre a importância de histórias que realmente vemos o motivo de Bran Stark ter sido a melhor escolha. O anão afirma que é o valor das boas histórias que acaba unindo as pessoas, em um trecho que surge quase metalinguístico ao falar da própria Game of Thrones: por oito anos diversa pessoas ao redor do mundo se uniram para acompanhar cada capítulo desta história, e ainda que alguns insistam em boicotar a série após sua temporada final inferior, estão sim em harmonia em prol do mesmo assunto.

Game of Thrones é sobre os Quebrados

O fato de Bran ter acesso à toda a História, o passado, presente e futuro pode lhe tornar o governante mais sábio que Westeros viu em eras. Também é belo que Bran assuma o título de Bran, o Quebrado, simbolizando um tema que sempre foi forte em Game of Thrones: a virtude dos underdogs. Mesmo aleijado, Bran nunca deixou de ser um personagem forte, e só ficou mais destemido conforme foi avançando, enquanto um bastardo como Jon Snow e um anão como Tyrion eram menosprezados por todos; mas mostraram imenso valor com a progressão da história.

Bran simboliza tudo isso, e fico feliz de ver que seu Conselho também traduz essa faceta: Davos era um homem humilde que nunca teve terras ou poder, Brienne era a mulher que lutava para ser reconhecida em um ramo dominado por homens, enquanto Sam sempre foi ridicularizado por seu peso e covardia. Ver o arco de todos esses personagens, gritantemente diferentes nas primeiras temporadas, atingir o ápice do poder é uma grande catarse.

Sempre me lembrarei da icônica frase de Tyrion no primeiro episódio da série: “nunca se esqueça quem você é, use isso como um escudo. Dessa forma, ninguém poderá te machucar”.

Game of Thrones sempre foi sempre os Quebrados, e o fato de que tivemos Bran Stark como representante de todos os Sete Reinos faz o maior sentido possível. É uma ideia que cresce na cabeça, e que deve ganhar mais reconhecimento com o tempo. Aliás, rever toda a série já sabendo que esse é o desfecho deve ser muito mais fascinante, e também nos fazer valorizar melhor o arco de Bran – um dos personagens que mais viajou por Westeros e conheceu sua História.

Eu só sei que teria adorado ver o reinado de Bran Stark e seu inspirado Conselho para Westeros, mas ao menos em minha imaginação talvez Westeros finalmente tenha um governante sensato. Ao menos a história de Game of Thrones o teve, e estou muito feliz com isso.