Contém spoilers!

A minissérie Chernobyl chegou à conclusão de sua excepcional temporada nesta semana, com o episódio final sendo exibido no Brasil na última sexta-feira. Ao longo das mais de 5 horas de material, a HBO e Craig Mazin exploraram com maestria e tensão como um dos maiores desastres da História da Humanidade aconteceu, e deixaram uma boa explicação para sua hora final.

Em “Vichnaya Pamyat”, o foco da narrativa residiu no julgamento soviético sobre aqueles que foram considerados responsáveis pelo desastre na usina em Chernobyl. Mais do que isso, foi uma verdadeira palestra sobre física e química para explicar, passo a passo, como o reator nuclear 4 da usina acabou explodindo e liberando picos de radiação.


Como explicado por Legasov através de um longo monólogo, entrecortado por maestria com flashbacks da noite da explosão, a intenção inicial era observar o comportamento do reator nuclear quando utilizado com baixos níveis de energia. Contudo, para que o teste fosse possível, os responsáveis pela unidade teriam que quebrar o cumprimento de uma série de regras de segurança indispensáveis. Foi o estopim do desastre.

Entre outros erros detalhados por Legasov, os funcionários envolvidos no episódio interromperam a circulação do sistema hidráulico que controlava as temperaturas do reator (apertando o botão do AZ-5). Com isso, mesmo operando com uma capacidade inferior, o reator entrou em um processo de superaquecimento incapaz de ser revertido. Em poucos instantes a formação de uma imensa bola de fogo anunciava a explosão do reator rico em Urânio-235, elemento químico de grande poder radioativo. Ao passo de toda a descrição, a narrativa certamente aponta Dyatlov como o grande responsável, por insistir na realização do teste mesmo com o alerta dos funcionários, forçados a seguir ordens que resultariam na explosão do reator.

O peso das mentiras

O que se torna o grande dilema após a extensa sequência do julgamento, é também um dos cernes de toda a minissérie: como o governo da União Soviética tentou encobrir o desastre de Chernobyl. Logo após seu longo discurso, Legasov admite que mentiu durante a primeira conferência em Viena, e alertou o governo de que outras usinas espalhadas pela URSS compartilham do mesmo problema do AZ-5 em seus reatores, e o professor implora para que algo seja feito.

Em uma cena tensa, Legasov é levado a uma sala isolada por um superior. Ele praticamente ameaça o personagem de Jared Harris, afirmando que suas acusações não serão levadas a sério, de forma a não sujar a imagem do governo soviético – que custou para revelar e admitir o erro humano no processo do desastre. Isso meio que indiretamente motiva o suicídio de Legasov, que vimos na primeira cena do episódio de estreia, onde o professor se enforca depois de gravar diversas fitas relatando sua passagem por Chernobyl.

O epílogo durante os créditos finais de Chernobyl confirmam que seu suicídio tornou o material gravado “impossível de ser ignorado” pela comunidade soviética, que reconheceu os erros e partiu para avaliar a situação nos outros reatores da nação – a fim de evitar outro desastre nuclear como aquele de 1986. Essa mesma montagem dos créditos finais, inclusive, é extremamente poderosa, especialmente por reforçar como a mentalidade mentirosa do governo soviética não foi alterada, visto que os dados sobre o número de mortos permanecem – inalterados até hoje – como apenas 31, quando a própria série afirma que o número é extremamente mais alto.

Ao longo de seus cinco episódios, Chernobyl se mostrou como uma minissérie essencial e muito bem desenvolvida. Mesmo com eventos em 1986 e em outro contexto político, seu legado ainda mostra-se muito atual e relevante, e assustadoramente humano.

Todos os episódios de Chernobyl estão disponíveis na HBO GO.