A esta altura do campeonato, é injusto comparar os processos da Marvel e da DC para construirem universo compartilhados com seus personagens e histórias no cinema. A Marvel é a absoluta campeã no assunto, tendo conseguido contar uma longa história através de 11 anos e 22 filmes, conseguindo quebrar recordes de bilheteria bilionários, críticas favoráveis e até garantiu importantes indicações ao Oscar.

Quando falamos sobre o percurso da DC iniciado com O Homem de Aço, o resultado é bem agridoce. Os dois primeiros filmes dirigidos por Zack Snyder, com o reboot do Superman e Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, receberam críticas pouco estelares; com o filme de 2013 mais dividindo a crítica do que agradando, e a sequência do embate entre os dois heróis se tornando um dos mais polêmicos filmes que o gênero já proporcionou. Uns os veem como uma obra-prima injustiçada, enquanto outros não veem nada além de um filme medíocre e maçante. A questão é que, para entrar no jogo da Marvel, a DC precisava de mais garantia e estabilidade.

O que se seguiu depois foi mais instabilidade. Esquadrão Suicida foi extremamente criticado e hoje é merecidamente visto como uma vergonha dentre o gênero de quadrinhos. Mulher-Maravilha foi um acerto entre o processo, e mostrou que o público reagia melhor – em termos de crítica e bilheteria – a narrativas mais leves. A Warner correu para tentar alterar o tom com Liga da Justiça, entregando um filme decepcionante e mutilado, que parece tentar manter a abordagem série e pseudo-filosófica de Zack Snyder com o humor mais descontrolado e colorido da concorrência.


Nos últimos dois anos, Aquaman e Shazam! se saíram melhor com as bilheterias e a crítica justamente por serem filmes mais isolados do universo compartilhado, e também com maior controle de seus realizadores (James Wan e David F. Sandberg), o que garante – vejam só – filmes melhores. O processo da Warner sempre foi confiar na visão criativa de seu diretor (algo que a Marvel nem sempre segue, por exemplo), e foi justamente esse método que gerou a impecável trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan – que ainda permanece como um dos marcos inquebráveis do gênero.

O problema do tempo

Quando vemos Vingadores: Ultimato trazer algumas das sequências mais grandiosas e explosivas do gênero, é até difícil pensar na DC. A editora certamente tem o potencial para atingir o mesmo resultado, afinal tem personagens icônicos, narrativas espetaculares e atores e atrizes talentosos por trás da maioria de seus papéis no cinema. O que o filme da Marvel ensina é que o investimento precisa de tempo, muito tempo, mas ele pode recompensar de formas inéditas – basta ver os números de bilheteria surreais de Ultimato em suas primeiras semanas, e que agora segue no caminho para se tornar o maior filme de todos os tempos nas bilheterias.

O grande problema do Universo Estendido da DC nos cinemas foi justamente a pressa, e é algo que já ficou evidente anos depois. O Homem de Aço não foi feito com a pretensão de abrir um universo, especialmente por ser uma narrativa mais contida e muito particular. E seu estilo mais soturno definitivamente não foi a melhor escolha para Batman vs Superman, que tentou enfiar teasers de toda a Liga da Justiça no meio de sua narrativa – e foi pelo caminho oposto ao fazer um filme da Liga já estabelecida com os heróis, ao invés de seguir o jogo seguro da Marvel de fazer um filme solo de cada herói por vez.

Faltou à DC um planejamento melhor, e alguém que desempenhasse o papel crucial de Kevin Feige, que planeja o cronograma dos filmes da Marvel Studios anos à frente. Zack Snyder parecia o homem para o trabalho, mas sua visão sempre trouxe uma parcela de controvérsias (Batman matando, Superman mais sombrio e nem me deixe começar a falar sobre a Martha), e não era exatamente unânime com o público, que também não respondeu com bilhões de dólares como fez com a Marvel Studios.

A nova DC

Agora, a DC parece ter virado a página. O sucesso de Aquaman nas bilheterias aponta para um caminho de aventuras mais isoladas, mas também com tons variáveis. O filme sobre a origem do Coringa não será conectado a nenhuma outra produção, existindo em seu próprio universo isolado, e talvez esse seja o futuro necessário.

Patty Jenkins já afirmou que Mulher-Maravilha 1984 vai ignorar algumas ideias criadas para a personagem em Batman vs Superman, um novo Batman com Robert Pattinson está chegando e apenas alguns elementos da Era Snyder sobrevivem, mas cada um em seu universo. Talvez seja melhor assim, e garante mais diversidade e picos de qualidade para um gênero cada vez mais homogêneo.

Nem tudo precisa ser compartilhado, mas se a DC realmente for apostar no grande universo novamente, Vingadores: Ultimato é o capítulo final de um livro de regras bem eficiente.