Na noite de 18 de julho de 2008, eu sabia que o cinema de super-heróis não seria mais o mesmo. Na verdade, a cultura pop no geral estaria permanentemente alterada, pois Christopher Nolan e a Warner Bros lançavam Batman: O Cavaleiro das Trevas, a aguardada continuação de Batman Begins e que elevaria o gênero para níveis nunca sonhados até então, e serviria para reforçar sua importância como um tipo de história madura e complexa. Há 11 anos atrás, ganhávamos o melhor filme de super-heróis de todos os tempos.

E mal podemos usar o termo super-herói aqui, já que mesmo trazendo diversos dos personagens coloridos dos quadrinhos em versões mais sóbrias, o filme de Nolan é mesmo um épico policial. Derivado e fortemente inspirado pelo cinema de Michael Mann (de Fogo Contra Fogo, Caçador de Assassinos e O Informante), O Cavaleiro das Trevas mergulha no clássico embate entre o bem e o mal, com a história de Nolan e David S. Goyer explorando o que a loucura faz com os homens e como a corrupção pode tomar conta não apenas de uma alma nobre, mas de todo o espírito de uma cidade – aqui representada por uma Gotham City nada expressionista ou gótica, mas ainda assim mergulhado nas sombras do desespero.

A luta entre o bem e o mal está perfeitamente representada através do Batman de Christian Bale e, claro, do eterno Coringa de Heath Ledger. A performance do falecido ator australiano dispensa apresentações, sendo um dos melhores vilões da História do Cinema e uma das figuras mais icônicas da cultura pop do século XXI. É um personagem imprevisível, carismático e assustador, e cuja implausibilidade – e alguns até diriam exagero – em alcançar seus planos aparentemente premeditados, surgem como um oponente digno para o Batman do universo mais realista de Nolan. Ele é uma falha no sistema, não seguindo ordem, não tendo uma origem clara ou um nome real. O Coringa é o vilão perfeito, e acho que ainda discutiremos sua performance até o fim dos tempos.


Mas o que realmente torna o embate em O Cavaleiro das Trevas tão fascinante é que o Coringa não está atrás de um objetivo concreto, ou de um ideal “nobre” como o Thanos de Vingadores: Guerra Infinita. Descrevendo-se como “um cão que persegue carros, e que não saberia o que fazer se o pegasse”, o Coringa quer provar um ponto, o de que qualquer pessoa pode ser corrompida, de que cidadãos comuns poderiam pegar em armas e matar advogados, de que cidadãos comuns poderiam explodir uma balsa cheia de prisioneiros para sobreviver, e de que um promotor público incorruptível pode pirar totalmente ao perder sua amada e metade de seu rosto.

O grande conflito do filme está no esforço para garantir a integridade e o caráter, e mesmo quando Batman falha em impedir a queda de Harvey Dent – que se torna o vilão Duas-Caras no terceiro ato do longa -, ele destrói sua própria imagem para “triunfar” sobre o Coringa e não perder a alma de Gotham City. É um ato de heroísmo que traz uma valiosa demonstração de altruísmo, evidenciando como Batman é um símbolo de esperança que é capaz de se jogar na frente das balas para que seu ideal não seja perdido. Todo o discurso final do Comissário Gordon enquanto o herói foge da polícia e mergulha de volta nas sombras ainda é capaz de provocar arrepios na espinha.

Ainda assim, um espetáculo

É um grande conflito filosófico, mas que não impede que O Cavaleiro das Trevas seja uma tremenda experiência cinematográfica. Aprendendo com os erros e acertos de Batman Begins, Nolan aposta em uma escala de ação impressionante, usando câmeras em IMAX pela primeira vez em um filme de ficção para garantir sequências de tirar o fôlego: desde o assalto a banco com os palhaços no prólogo do filme (uma clara referência a Fogo contra Fogo), até a viagem de Bruce Wayne a Hong Kong ou a sensacional perseguição de carros pelas ruas de Gotham – com o tombamento de um caminhão que é mais impressionante do que qualquer CGI ou tela verde que hoje dominam o gênero – o filme do herói é um verdadeiro espetáculo, além de um grande drama humano.

A tensão que o Coringa provoca em Gotham é bem sentida aqui, e que reforça o ponto de que O Cavaleiro das Trevas é um thriller policial. Vemos o herói usando habilidades de detetives a lá CSI para procurar pistas, acompanhamos o trabalho de Gordon para descobrir quem serão as vítimas do Coringa e sempre ficamos na ponta da cadeira. Quando Rachel Dawes, o grande interesse amoroso de Wayne, morre na metade do filme, é quando percebemos que literalmente tudo pode acontecer. Ninguém está seguro, e poucos filmes de heróis ousam cruzar essa linha.

Batman: O Cavaleiro das Trevas é um milagre. O gênero de super-heróis se tornou algo a ser comparado de igual para grandes obras do cinema após o filme de Nolan, e mesmo 11 anos depois, ainda não chegou nem perto de ser superado. Não é só que os filmes de super-heróis nunca tiveram outro filme assim. Hollywood ainda não teve outro fenômeno que unisse tamanha qualidade de roteiro, direção e elenco.

Um verdadeiro clássico moderno.