Eu adoro Taika Waititi. Flight of the Conchords tem momentos de puro brilhantismo cômico, O Que Fazemos nas Sombras é uma obra prima do subgênero mockumentary, A Incrível Aventura de Rick Baker é sensacional e seu vindouro Jojo Rabbit parece provocador e ácido na medida certa. Mas não gosto de Thor: Ragnarok. É um filme que não representa suas qualidades, e acredito que o retorno do diretor para o já anunciado Thor 4 será uma ideia ruim. Para sua carreira e para o personagem.

Por mais que a maioria dos fãs insista em dizer que Ragnarok “consertou” o Thor dos cinemas, eu não poderia discordar mais. Sim, a Marvel Studios literalmente não sabia o que fazer com o Deus do Trovão de Chris Hemsworth, saltando do teatral shakesperiano de Kenneth Branagh para o épico genérico a la Senhor dos Anéis de O Mundo Sombrio até descambar na releitura de Waititi, na qual Thor é simplesmente um grande palhaço que estaria mais à vontade ao lado dos Guardiões da Galáxia do que os Vingadores – e sendo bem sincero, acho até que esse Thor deveria estar nos filmes do Batman de Joel Schumacher.

Thor: Ragnarok descaracteriza completamente o personagem, e pessoalmente acredito que esse filme represente tudo o que a Marvel tem de pior. Visual genérico, piadas sem fim e zero senso de comprometimento com algum arco dramático. Não peço que os filmes do MCU sejam sérios e realistas como a trilogia do Cavaleiro das Trevas, mas Waititi parece ter medo de realizar qualquer catarse ou crescimento emocional em Ragnarok. Mencionei Guardiões da Galáxia lá em cima, mas até mesmo James Gunn foi capaz de criar dois dos mais lindos e profundos momentos do MCU, e o fez sem deixar de lado o humor, o visual estimulante ou a trilha sonora eclética – traços que Ragnarok tenta desesperadamente replicar, em uma ode fraudulenta à estupidez.


Muitos de vocês devem estar levantando as tocas, machados e os Rompe-Tormentas para falar do visual, então vamos esclarecer algo. Ragnarok tem, sim, momentos visualmente belíssimos. O longa literalmente pára para apresentar alguns deles (a queda das Valquírias, a luta contra Surtur), mas com exceção de quadros muito específicos, prestem atenção nas cenas “normais” do filme – e aliás, é um problema crônico na grande maioria dos filmes do MCU.

É uma iluminação pedestre, sem qualquer charme e que mal combina com as chapas de efeitos visuais – vide a terrível cena que traz Odin, Thor e Loki na Noruega. Ragnarok sabe quando sacudir um objeto brilhante para impressionar o público, mas no fundo é apenas perfumaria. O Thor de Kenneth Branagh e até o péssimo O Mundo Sombrio são, sim, obras com um visual requintado – e que não dependem inteiramente de CGI para criar belas imagens.

O que esperar de Thor 4?

Como Thor: Ragnarok foi um sucesso de bilheteria e crítica (algo que nunca vou compreender), o vindouro quarto filme do Deus do Trovão deve seguir a mesma linha desenfreada de humor infantil e estética devidamente padronizada pela Marvel Studios. Se há um alento aqui, é que Taika Waititi vai escrever o roteiro, algo que não aconteceu em Ragnarok – mas é evidente que muitos dos diálogos daquele filme saíram de improvisos.

Sou também o primeiro a admitir que as possibilidades de Thor 4 são mais interessantes do que as que nos levaram a Ragnarok. Thor passou o reino de Asgard para a Valquíria de Tessa Thompson (um dos únicos elementos que funciona em Ragnarok), e o Deus do Trovão encontra-se em sua forma mais baixa e barriguda. Mas ainda assim, é difícil ter esperança em um produto – nada mais do que isso – que simplesmente não consegue se levar a sério em momento algum, e constantemente está se satirizando. 

Por breves momentos, os irmãos Anthony e Joe Russo conseguiram achar um bom equilibro com Thor em Vingadores: Guerra Infinita (e parcialmente em Ultimato), mas o futuro não parece trazer algo tão complexo e maduro para Thor. Tento ser otimista, mas vejo o que a Marvel fez com o Homem-Aranha em Longe de Casa recentemente, e percebo como o humor pastelão parece estar intrinsicamente ligada a seu DNA. Mas tudo bem, é disso que as massas gostam.

Eu adoro Taika Waititi, mas ele realmente não deveria perder seu tempo fazendo filmes do Thor. Ele merece mais do que isso, e o Deus do Trovão também.