Em 5 de julho de 1989, a emissora americana da NBC exibia o primeiro episódio da série de comédia Seinfeld. Era a concretização de uma ideia arriscada e transgressora para a época, com a dupla de comediantes Jerry Seinfeld e Larry David baseando-se em uma resposta simples quando todos lhes perguntaram a temática da série: o nada. E mesmo 30 anos depois, a série sobre o “nada” é capaz de fazer mais do que a maioria das produções para a televisão – especialmente no que diz respeito a sitcom, um gênero que Seinfeld praticamente apadrinhou.

Primeiramente, é preciso explicar o “nada” a qual Seinfeld se refere. É justamente sobre o cotidiano. Seinfeld se dedica a analisar o comportamento, manias e acontecimentos peculiares do dia a dia, sendo descrito como o “nada” por acompanhar a vida de pessoas normais em situações ordinárias. Um dos maiores exemplos para se ilustrar Seinfeld é o episódio em que o grupo está esperando uma mesa em um restaurante chinês, e todas as situações e piadas desenrolam-se do período em que “nada” acontece. Na vida real, ou em um filme elaborado, esse seria o período em que teríamos um corte ou elipse – mas em Seinfeld, o charme está mesmo na janela de tempo que todos queremos evitar.

Inicialmente, a série foi criada por Seinfeld e David para se basear no processo de criação de uma piada, dada a atividade de Jerry como comediante stand up. Cada episódio mostraria como eventos de seu cotidiano o inspiravam a criar uma nova piada para seu número, que – até a oitava temporada série – sempre aparecia como prólogo da série. O conceito evoluiu para analisar o comportamento humano em suas formas mais engraçadas e, muitas vezes, repreensíveis. Os personagens de Seinfeld abraçam o politicamente incorreto e dispensam qualquer forma de redenção p com suas tramas sempre zombando da falsa modéstia e a necessidade da sociedade em assumir certos modos: se Seinfeld existisse em 2019, não faltaria material para as mais variadas histórias.


Aliás, esse é um dos grandes trunfos de Seinfeld como comédia. Quando olhamos para outras comédias contemporâneas, como Friends, How I Met Your Mother ou The Big Bang Theory, todas elas acabam caindo (ou escolhendo) o caminho do romance e do drama. Sempre há algo para torcer ou se comover em todas essas produções, e esse fator não é encontrado em Seinfeld durante momento algum. É uma série que pode beneficar-se de ser 100% comédia, nunca apelando para o melodrama ou excessos melosos de romance. Por mais que eu pessoalmente aprecie as séries descritas acima, também admito que essas variações de gênero acabam tirando o foco da piada. Seinfeld jamais caiu nessa armadilha, nem mesmo quando a morte foi parte central de uma das temporadas.

Verdadeira até o fim

É algo que se reflete também no controverso final da série, que foi criticado na época, mas era a melhor solução possível. Sem entrar muito em detalhes, Seinfeld termina com Jerry, Elaine, George e Kramer indo para a cadeia após zombarem de um homem sendo assaltado, rendendo um julgamento que reavalia toda a trajetória do grupo. Isso reafirma que Jerry e seus amigos representam uma parte ruim da sociedade, ou simplesmente uma que se recusa a jogar de acordo com as regras de comportamento e tradição, e colocá-los na cadeia é a perfeita solução.

O experimento de Jerry e Larry foi tão longe que, na metade da série, os protagonistas tiveram a ideia de criar uma série de TV sobre o “nada”, e Seinfeld logo se tornava uma grande metalinguagem. Foi quando Seinfeld, dentro dessa narrativa cíclica, conseguiu encontrar sua identidade, como uma série que encontrava a diversão e a criatividade nos menores detalhes. O fato de uma personagem não querer um pedaço de torta ou um carro fedido são o tipo de material que Jerry e Larry conseguem transformar em ouro. Nunca precisou apelar para escatologias, nudez ou palavrões, sempre encontrando o humor na troca afiada de palavras.

Mesmo 30 anos depois, Seinfeld não tem todo o reconhecimento que merece do grande público. É mais importante do que Friends, How I Met Your Mother ou qualquer outra sitcom, até porque sua popularidade nos anos 90 foi responsável pela proliferação do gênero. Não só por isso, é uma grande conquista em termos de roteiro e humor.

Uma das séries mais importantes da História da Televisão.