Era Uma Vez em Hollywood chegou aos cinemas e, sendo um filme de Quentin Tarantino, trouxe sua parcela de polêmicas e discussões online. Porém, em uma obra que discute movimento hippie, Família Manson e tantos assuntos espinhosos, a maior fonte de controvérsia do filme foi surpreendente: o retrato do astro Bruce Lee, que foi acusado de arrogante, presunçoso e até mesmo – pasmem – racista, o que revela uma má interpretação tremenda de um dos melhores momentos do novo longa.

Na cena em questão, acompanhamos um flashback de Cliff Booth (Brad Pitt), que relembra quando teve um bico no set de O Besouro Verde, série de super-herói que contava com Lee (vivido pelo ótimo Mike Moh) como um de seus principais astros. Em um intervalo entre as gravações, Lee fala sobre esportes que trazem combate, e elogia o boxeador Muhammad Ali – que na época usava o nome de Cassius Clay -, e quando é perguntado sobre quem venceria uma luta entre os dois, Lee afirma que aleijaria Clay. Isso irrita (ou melhor, diverte) Cliff, e os dois logo partem para uma disputa amistosa de 3 rounds. Lee derruba Cliff no primeiro, o dublê amassa um carro com Lee no segundo e o terceiro termina sem um vencedor claro; já que é interrompido por uma das assistentes do set.

Isso irritou profundamente fãs de Lee, e também provocou uma reposta acalorada de Shannon Lee, sua filha. Ela publicamente condenou Era Uma Vez em Hollywood e a visão de Tarantino sobre seu pai, defendendo-o ao afirmar que ele “não era arrogante” e que jamais “desrespeitaria o lutador Muhammad Ali”, pintando um retrato de que Lee era literalmente um santo na Terra. E quem sou eu pra dizer o contrário – e que é Tarantino, no caso. Shannon exigiu que o diretor ou “calasse a boca” sobre dizer que Lee era, sim, arrogante ou publicamente “pedir desculpas” pelas afirmações.


Questão de perspectiva

Mas não é necessário pedir desculpas, nem nada do tipo. Primeiramente, Era Uma Vez em Hollywood é um filme fictício, então não tem compromisso algum em traçar um retrato fiel de qualquer uma das figuras que aparecem na história – seja Lee, Sharon Tate, Steve McQueen ou Sam Wanakamer, todos ganhando algum tipo de suspensão em seu retrato. Segundo, a cena de Lee aparece justamente pela visão de um personagem que não era exatamente um fã do artista marcial, e seu retrato mais exagerado (e que, sinceramente, nem chega a ser caricato) é fruto da percepção de Cliff Booth. Se os fãs de Lee encontraram problema em ver o astro levando uma surra de Cliff por alguns segundos, aí é ainda mais ridículo, já que – novamente – estamos falando sobre um personagem que não existe, e que pode fazer o que seu diretor bem entender. E Tarantino ainda deixa tudo mais divertido e enigmático ao deixar a luta como empate, então nunca sabemos quem é o verdadeiro vencedor.

E os cinéfilos raiz sabem que nem precisam desconfiar sobre o que Quentin Tarantino sente a respeito de Bruce Lee. O cineasta é um fanático pelo artista marcial, já tendo afirmado em diversas entrevistas sobre o impacto que Operação Dragão provocou em sua adolescência. E se não fosse o bastante, Uma Thurman literalmente usa o macacão amarelo de Lee em Jogo da Morte em Kill Bill, que é uma grande homenagem do cineasta ao cinema de artes marciais.

“Era Uma Vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino, revisita a Los Angeles de 1969 onde tudo estava em transformação, através da história do astro de TV Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê de longa data Cliff Booth (Brad Pitt) que traçam seu caminho em meio à uma indústria que eles nem mesmo reconhecem mais”, afirma a sinopse oficial.

Além de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio; Timothy Olyphant, Luke Perry, Damian Lewis, Dakota Fanning, Margaret Qualley, Al Pacino, Emile Hirsch, Clifton Collins Jr, Austin Butler, Michael Madsen, Keith Jefferson, Mike Moh, Nicholas Hammond, Bruce Dern e Margot Robbie completam o elenco.

Era Uma Vez… em Hollywood está em exibição nos cinemas brasileiros.