O que o produtor Kevin Feige foi capaz de construir com o Universo Cinematográfico da Marvel não deve ser subestimado. É uma grande conquista comercial, que rendeu mais de US$ 10 bilhões ao longo de 11 anos e 21 filmes de existência, e que ajudou a transformar a marca da Marvel em uma das mais valiosas do planeta, alavancando também novos astros e modelos de mercado. Narrativamente, também é algo pouco explorado no cinema, com múltiplos filmes integrando a mesma história para servir uma proposta seriada que honra o espírito dos quadrinhos.

Como conjunto da obra, é uma conquista excepcional, mas há uma questão que pode não fazer a menor diferença para a esmagadora maioria dos fãs, mas merece reconhecimento: a direção. Quem está por trás das câmeras é fundamental para que uma obra ganhe vida e se torne especial, e infelizmente isso não está acontecendo no MCU. Não que ele traga – sempre – um trabalho ruim por parte de seus diretores, mas nunca temos algo que seja realmente memorável do ponto de vista cinematográfico.

Isso veio a público durante uma entrevista do portal Comic Book Movie com a cineasta Lucrecia Martel, em dezembro do ano passado. Uma das candidatas para dirigir o filme solo da Viúva Negra, a diretora recusou o projeto quando o estúdio pediu que ela se concentrasse apenas no desenvolvimento de personagem, passando a condução das cenas de ação para uma outra equipe. É um processo normal em Hollywood, mas que sempre segue a visão de um diretor – ao menos nas boas produções, claro.


“O que eles me disseram foi ‘precisamos de uma diretora porque queremos alguém que esteja preocupada com o desenvolvimento da personagem de Scarlett Johansson’. Eles também me disseram ‘não se preocupe com as cenas de ação, cuidaremos delas’. Pensei, adoraria conhecer a Scarlett Johansson, mas também gostaria de dirigir as sequências de ação. Os estúdios estão interessados em cineastas mulheres, mas ainda pensam que cenas de ação são para diretores homens. A primeira coisa que pedi foi se, talvez, eles pudessem mudar um pouco os efeitos especiais, porque usam tanto as luzes de laser… acho que são horríveis”, disse Martel na entrevista.

O diretor é Kevin Feige

Porém, não é uma mera questão de sexismo da parte da Marvel em acreditar que mulheres não podem dirigir ação. É mais uma prática condenável de simplesmente não confiar em nenhum nome que venha do cinema independente ou “cabeça” para grandes filmes blockbusters. A Marvel não trabalha com autores, mas sim com diretores geralmente iniciantes e que – por falta de termo melhor – apresentam-se mais como funcionários do que criadores. Não temos profissionais do calibre de Steven Spielberg ou James Cameron no gênero, pois eles seguem sua própria visão, e não de um estúdio. 

Por mais que o MCU seja consistente e faça milagres em sua narrativa multi-filme, do ponto de vista artístico, o resultado tende a ser automático e sem graça. Eles se tornam simplesmente produtos. Ainda mais quando já tivemos obras excepcionais como Homem-Aranha 2, Batman: O Cavaleiro das Trevas e Logan, filmes que foram realizados por autores com visões bem específicas – e que do ponto de vista de direção, são muito mais interessantes do que os capítulos do MCU. Mesmo em suas obras mais irregulares da Fase 1, como Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador, tínhamos diretores mais autorais (Kenneth Branagh e Joe Johnston) trazendo suas visões particulares para seus respectivos filmes – goste ou não, a câmera torta do primeiro filme do Deus do Trovão é mais memorável do que a maioria das decisões de direção em outros filmes do MCU.

A entrevista com Martel também suporta a ideia de que a Marvel realiza toda pré-visualização das cenas de ação de seus filmes antes mesmo de contratar um diretor. Qual o sentido de se ter um artista e apenas “usar a parte que interessa”, com a direção de atores? Quando olhamos para Pantera Negra, conseguimos sentir a força de Ryan Coogler (talvez o melhor diretor que já tenha passado pelo estúdio) por trás das câmeras nas cenas dramáticas. Mas quando chegamos à batalha final em Wakanda, aquilo realmente parece obra do mesmo cara que dirigiu uma luta em plano sequência em Creed? Está escancarado que aquela péssima luta CGI entre T’Challa e Killmonger foi toda projetada por outra pessoa, sentada em um computador.

A grande exceção, claro, fica com James Gunn. O diretor faz o que bem entender no MCU, o que justifica como seus dois Guardiões da Galáxia tem uma personalidade visual muito mais forte do que os demais filmes do MCU. Não está apenas na desculpa de “é fantasioso, o visual é mais colorido”, mas sim na forma como Gunn dirige e enquadra suas cenas. Ali temos um trabalho de direção notável, e que não se restringe apenas às excelentes cenas de ação, mas também em diálogos e momentos dramáticos. Pra se ter ideia, Gunn foi um dos únicos diretores a adotar uma câmera diferente, trocando a Alexa pela Red no deslumbrante Guardiões da Galáxia Vol. 2.

Então chegamos a Anthony e Joe Russo, os “salvadores da pátria” da fase recente do MCU. Por mais que os tenham dirigido algumas das melhores cenas da franquia com O Soldado Invernal, Guerra Civil e os dois últimos Vingadores, pessoalmente a empolgação só vem pelo o que está sendo mostrado, e não da forma como é mostrado. O Capitão América segurando o Mjolnir é uma ideia que só de falar já nos provoca arrepios, e sinceramente não vejo imaginação ou paixão na câmera e enquadramento da dupla ao retratar uma ação tão fenomenal. É pacato e funcional. Não me chamem de DCnauta, mas eu esperava algo mais próximo de um Aquaman de James Wan.

Analisem comigo, do ponto de vista estético e de direção, qual dos quadros abaixo é o melhor? Qual realmente captura a magnitude de um evento épico?

Esperança?

E por mais que isso possa parecer uma grande reclamação (estou de olho nos comentários!), isso é mesmo um pedido de melhora. Como alguém que realmente se interessa por cinema, temo que a arte da direção esteja se tornando uma simples ferramenta em grandes produções do MCU. Por mais que sejam filmes imperfeitos, cresci vendo trabalhos de direção mais apaixonados e elaborados no gênero, e que hoje se limitam a grandes telas verdes e muito CGI. É preciso mais riscos, e mais autores por trás de filmes.

Literalmente, o único anúncio do vindouro Os Eternos que me animou foi o de que a diretora Chloé Zhao usaria película 16mm em algumas cenas – o que é uma decisão arriscada, e justamente por isso desperta interesse. Mas, ainda assim, Zhao vem do cinema indie americano, e nunca teve experiência com grandes blockbusters. Temo que a mesma proposta que Feige e cia fizeram a Martel com Viúva Negra se repita aqui: Zao fará o que quiser com os persongens, mas toda a ação já deve ter sido projetada há meses atrás em uma tela de computador – e por outra pessoa. Eu espero estar enganado.

Então, quando um novo diretor do MCU for anunciado, não deveria gerar dúvida ou curiosidade. Todos os filmes da Marvel são dirigidos por Kevin Feige e sua equipe de pré-visualização.