O Homem-Aranha está mesmo Longe de Casa. Na tarde desta terça-feira (20) foi noticiado que a Sony Pictures e a Marvel Studios interromperam o acordo que mantinha o herói de Tom Holland compartilhado entre os dois estúdios. Disputas financeiras – obviamente – foram a causa para a sisão das duas empresas, e agora o Cabeça de Teia vai continuar em seu caminho solo. Apenas na Sony, mas sem o dedo de Kevin Feige ou a Marvel Studios no futuro. E isso não significa apenas tristeza.

Sim, é extremamente divertido e empolgante ver o Homem-Aranha ao lado dos Vingadores. Tanto nos filmes dos Maiores Heróis da Terra quanto nas duas aventuras solo produzidas entre os dois estúdios, De Volta ao Lar e Longe de Casa, pudemos ver o mundo dos Vingadores pelos olhos de civis e um herói mais juvenil. Também é sempre muito fascinante ver Peter Parker interagindo com outros grandes super-heróis da editora, mas não há como negar: o Homem-Aranha perde cada vez mais seu destaque próprio quando é parte de um todo muito maior do que ele.

De certa forma, a versão do MCU do Homem-Aranha foi uma descaracterização. Nunca tivemos um Peter Parker tão privilegiado, com acesso a trajes tecnológicos milionários, pouca responsabilidade por suas ações e vilões que estão mais interessados em Tony Stark do que nele próprio. Ao longo de seus dois filmes, o Aranha de Holland foi uma mera extensão do arco do Homem de Ferro, onde o inventor de Robert Downey Jr. parecia mais importante em sua vida do que o próprio Tio Ben – e nem precisa comentar o fato de que a Tia May foi reduzida a uma mera fonte de piadas. Como tudo nessa releitura, nada é levado a sério, e parece mirar a Geração Z com seu senso de humor completamente descartável e sem graça. Eu não quero o Menino de Ferro. Parafraseando o grande J. Jonah Jameson, “eu quero o Homem-Aranha!”


Um caminho de esperança

Antes que os fãs devotos da Marvel comecem a levantar as foices e tochas, vamos nos lembrar que a Sony não precisou do MCU para entregar os melhores filmes do herói. Os dois primeiros filmes de Sam Raimi e a excelente animação Homem-Aranha no Aranhaverso foram todos lançados sem qualquer ligação com a grandioso criação de Feige. Foram histórias isoladas movidas por vozes autorais, e é isso o que pode ser o grande diferencial do retorno do Aranha à Sony.

Por mais que Avi Arad e Amy Pascal não sejam os nomes mais confiáveis para lidar com a franquia, ela já triunfou APESAR deles. Escrevi diversas vezes aqui como Homem-Aranha 2 é disparado o melhor filme com o selo Marvel já produzido, e isso se deu justamente pela Sony ter dado completo controle à visão de um autor: Sam Raimi. Isso não aconteceu no terceiro filme ou no reboot de O Espetacular Homem-Aranha, mas milagrosamente se repetiu em Homem-Aranha no Aranhaverso, que muitos até apontam como o longa definitivo do herói nas telas.

Se a Sony voltar o controle criativo para nomes que têm o que dizer – e não meros funcionários como Jon Watts – talvez o Homem-Aranha possa ter algo mais especial na Sony. Imaginem se Phil Lord e Chris Miller, as mentes por trás de Aranhaverso, tivessem a liberdade para fazer o filme do Homem-Aranha que bem entendessem? Ou que até mesmo um sonhado retorno de Sam Raimi para fazer seu cancelado quarto filme do herói? Se até Matrix 4 vai acontecer, nada é impossível em Hollywood.

Outro caminho muito provável é o ingresso do Homem-Aranha no universo de vilões que a Sony desenvolve com Venom e Morbius. O primeiro filme com Tom Hardy não foi uma grande realização, mas tem o potencial para se tornar algo mais divertido e que abrace de vez seu lado mais surtado – algo que Andy Serkis certamente vai trazer na direção. Tom Holland deve permanecer no papel mesmo assim, e seria divertido ver essa versão de Venom interagindo com algum intérprete do Cabeça de Teia.

É hora do Homem-Aranha voltar a ser o herói da vizinhança, e não do universo inteiro.