De uns tempos para cá, o “true crime” vem se tornando um gênero de filmes e séries com crescente aumento em popularidade. Serial killers, assassinos e histórias de crimes reais estão na moda, e a Netflix segue como líder nesse mercado (especialmente no Brasil).

Com um público cada vez mais interessado nesse tipo de história, a Netflix e outras gigantes do mundo do entretenimento estão investindo cada vez mais em produções que não precisam de um orçamento muito alto e conquistam a sociedade com suas tramas chocantes, bizarras e assustadoras.

Sucesso de matar

A Netflix percebeu pela primeira vez que séries sobre crimes reais são um ótimo investimento com Making a Murderer, produção documental que conta o polêmico caso de Steven Avery, um americano que passou anos na cadeia em inocência, apenas para ser exonerado por uma evidência de DNA e acusado de outro crime: o assassinato da fotógrafa Teresa Halbach.


A série foi um sucesso instantâneo, dominando o assunto nas redes sociais por semanas após seu lançamento e provocando desdobramentos no inquérito oficial sobre Steven Avery.

Desde então, a Netflix produziu vários filmes, séries e documentários sobre crimes reais, e fez a alegria de fãs brasileiros do tema. O motivo é simples: a maioria das informações sobre serial killers e assassinos conhecidos mundialmente está em inglês, já que no Brasil o fenômeno do “true crime” é relativamente recente.

Com a chegada de conteúdo original na Netflix, muitos espectadores finalmente conseguiram assistir com facilidade filmes e séries ambientados no mundo real dos crimes, investigações e análises criminológicas.

Fenômeno crescente

Nos Estados Unidos, o “true crime” já conquistou o público há muito tempo. Dominando inicialmente o mercado dos livros e de podcasts, a ascensão do gênero a uma posição privilegiada da cultura pop providenciou a produção de uma quantidade incrível de conteúdo original e permitiu que fãs passassem a discutir publicamente os temas sem medo de serem vistos como “mórbidos” ou “loucos”.

A importância do true crime se tornou evidente com a realização do festival Death Becomes Us, convenção de fãs do gênero que teve sua primeira edição em Washington no ano passado. O evento de uma semana foi dedicado à psicologia, história e importância social de produtos midiáticos sobre crimes reais.

A convenção foi um sucesso e atraiu mais de 7 mil pessoas que tiveram a oportunidade de conhecer figuras icônicas desse mundo obscuro, como Amanda Knox, a americana que passou mais de 7 anos na Itália sendo julgada por ter supostamente matado sua colega de quarto; e John Douglas, pioneiro do departamento de psicologia criminal do FBI e inspiração da série Mindhunter.

Evolução e mudança

As raízes do true crime podem ser traçadas para séculos e séculos atrás. O ser humano sempre foi fascinado com a morte, especialmente e a morte violenta, e inúmeros detalhes da história comprovam esse fato.

Na Inglaterra Vitoriana, histórias sobre crimes reais eram uma verdadeira febre, com museus, peças de teatro e reconstituições de assassinatos e e massacres. O gênero conseguia apelar tanto para a elite quanto para os mais pobres, mesmo sendo considerado vulgar e “de mau gosto”.

Na literatura, o livro A Sangue Frio, de Truman Capote, não apenas revolucionou o jornalismo e as narrativas de não-ficção, mas também foi visto por muitos especialistas como uma obra pioneira e influente na literatura em geral.

Por muito tempo, o true crime ganhou espaço apenas em tabloides escandalosos e programas de TV transmitidos tarde da noite, vistos apenas por quem realmente gostava do tema. No Brasil, o icônico Linha Direta evidenciava essa tendência, trazendo para o imaginário popular as histórias dos crimes mais violentos e famosos do país.

A própria evolução da mídia permitiu a evolução do true crime. Nos anos 70, o público americano ficou fascinado pelo serial killer Ted Bundy. Com uma personalidade carismática, boa aparência e inteligência impressionante, o assassino dominou os noticiários mostrando que monstros não tem rosto e podem ser literalmente qualquer pessoa.

Já nos anos 90, com a cobertura midiática cada vez mais presente e com a introdução do ciclo de notícias de 24h, os crimes mais sórdidos começaram a ser assunto comum em conversas triviais, destacando-se a cobertura dos crimes e julgamento de OJ Simpson.

Os monstros que nos cercam

Por que adoramos histórias de assassinos e serial killers? Segundo o psicólogo, produtor e escritor M. William Phelps, a fascinação com histórias de crimes e tragédias é uma maneira de recuperarmos o controle de nossas próprias vidas e realidades.

“Nós assistimos estes filmes e séries porque somos fascinados pelo psicopata, por suas motivações e pelo que ele ou ela fará em seguida. Se pensarmos sobre isso, podemos sentir que estamos a um passo a frente do assassino. Estamos em uma sociedade consumida por notícias ruins, e não podemos escapar delas. Consumir histórias sobre pessoas mortas brutalmente pode até não melhorar nossa ansiedade, mas pelo menos consegue providenciar um sentimento de ‘pelo menos isso não aconteceu comigo'”, explicou Phelps.

As mulheres e o True Crime

Segundo um artigo publicado pelo The New York Times em julho deste ano, as mulheres constituem a parcela mais expressiva do público de séries e filmes true crime. Um estudo realizado pela Amazon em 2010 comprovou que 70% das críticas sobre livros do gênero são escritas por mulheres.

A maioria dos crimes violentos da vida real são cometidos por homens, e mulheres apresentam chances bem maiores de se tornarem vítimas do que criminosas, já que a cultura da sociedade influencia de forma perceptível crimes como feminicídio, estupro e violência doméstica.

Por que, então, mulheres se interessam mais por histórias onde elas aparecem na maioria das vezes como vítimas, assassinadas e violentadas? Segundo a autora Kate Tuttle, a fascinação por esse tipo de conteúdo se deve ao fato de “querermos aprender com essas histórias de vítimas e sobreviventes”, e de pensar que “se uma mulher conseguiu escapar de um criminoso de um maneira específica, talvez nós também possamos”.

Em My Favorite Murder, um dos podcasts true crime mais populares do mundo, as apresentadoras Karen Kilgariff e Georgia Hardstark apresentam histórias de crime com bom humor e irreverência, conseguindo equilibrar o respeito pelas vítimas com um perceptível desdém pelos criminosos, provocando uma experiência descrita como “empoderadora” para mulheres que vivem sob a ameaça de homens violentos todos os dias.

Preocupações e polêmicas

É claro que a “obsessão” da sociedade com serial killers, assassinos e criminosos pode ser vista como perigosa por certas pessoas. Vários autores já discorreram sobre a dessensibilização da geração atual a cenas e descrições de violência.

No entanto, o argumento não serve apenas para histórias de crimes reais, mas também pode ser estendido qualquer produto midiático que utilize a violência como condutor narrativo, como os filmes de Tarantino, por exemplo.

Outro problema relacionado à ascensão do true crime na cultura pop é a romantização de assassinos e serial killers. Com o lançamento do documentário sobre Ted Bundy na Netflix, diversos internautas foram criticados por postagens exaltando a dita beleza do assassino e deixando de lado seus atos abomináveis.

Não existe uma maneira certa de se consumir true crime. Pessoas diferentes gostam do tema por motivos diferentes. O único consenso é que o respeito pelas vítimas e responsabilidade na veiculação de imagens de assassinatos e crimes violentos deve ser o ponto norteador de novas produções do gênero, seja na Netflix ou fora dela.

E você? Gosta de séries e filmes true crime? Confira abaixo ótimas sugestões de conteúdo sobre serial killers na Netflix!

Mindhunter

Para quem gosta de sentir medo dos monstros da vida real, Mindhunter é a série perfeita. A produção de David Fincher e Charlize Theron acompanha a criação da unidade de psicologia comportamental do FBI, que criou perfis mentais detalhados de alguns dos serial killers e criminosos mais famosos da história dos Estados Unidos. Baseada em fatos reais, a série foi muito elogiada pelo talento de seu elenco, principalmente dos intérpretes dos assassinos. Entre os serial killers apresentados na série estão Charles Manson, Ed Kemper e David Berkowitz, o “Filho de Sam”.

Zodíaco

Zodiáco contra a história de um dos serial killers mais misteriosos de todos os tempos, cuja verdadeira identidade é desconhecida até hoje. O filme de 2007 tem direção de David Fincher e acompanha a investigação policia dos crimes do Zodíaco, um assassino que aterrorizou São Francisco entre os anos 60 e 70. Ousado, o criminoso mandava cartas para a polícia com códigos, charadas e supostas pistas sobre sua identidade e localização. Até hoje, o caso é um dos crimes sem solução mais infames dos Estados Unidos. Zodíaco conta com um elenco repleto de estrelas como Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch e Chloë Sevigny.

Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy

Existe algo mais sinistro do que ouvir um serial killer falando sobre seus próprios crimes? É essa a premissa de Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy. A série documental de apenas 4 episódios conta a história dos assassinatos cometidos por Bundy, e conta com entrevistas e filmagens do assassino, bem como de sua família, amigos, sobreviventes e policiais que atuaram no caso. O material foi escolhido em uma pesquisa minuciosa da equipe de produção, que analisou mais de 100 horas de material sobre o caso.

Eu sou um Assassino

Para quem gostou da série sobre as fitas de Ted Bundy e quer ver mais papos reais com assassinos, esta produção da Netflix é a escolha perfeita. Eu sou um Assassino oferece aos espectadores raras entrevistas com criminosos condenados à pena capital. Em conversas no “corredor da morte”, os assassinos refletem sobre seus crimes, motivações, arrependimentos e emoções. De matadores frios e profissionais a psicopatas raivosos, a série tem episódios para todos os gostos, cada um mais chocante do que o outro. A primeira temporada completa da série está disponível na Netflix.

American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace

Após o sucesso da primeira temporada de American Crime Story, Ryan Murphy investiu na história de um serial killer não tão conhecido para o segundo ano da série. ACS: O Assassinato de Gianni Versace, embora traga o nome do famoso designer de moda em seu título, é mais focada na história do assassino Andrew Cunanan, que matou 5 homens durante um período de 3 meses em 1997. Influenciado inicialmente pelo desejo de riqueza e fama, Cunanan se envolvia com homens mais velhos para manter a fachada de opulência e charme. A série é uma ótima reflexão sobre o estado psicológico do assassino, e traz uma atuação memorável de Darren Criss no papel principal.