Com estreia marcada para 10 de outubro, Projeto Gemini rodou entre diferentes diretores e astros por praticamente quinze anos, à espera da tecnologia certa para sua execução. O conceito soava simples: um assassino veterano deve confrontar sua versão mais jovem, equivalente a ele em quase todas as características. No entanto, a recriação digital do ator selecionado e a interação constante entre as duas partes representava pesadelo logístico, um que apenas os bravos seriam capazes de encarar. Até que o projeto chegou a Ang Lee.

Lee possui uma carreira surpreendentemente eclética, transitando das comédias dramáticas para o espetáculo wuxia de artes marciais e depois até ao filme de super-herói, e mais recentemente tem mostrado sua veia tecnicista ao experimentar o 3D estereoscópico com As Aventuras de Pi e a captação de imagens tridimensionais em alta taxa de quadros (high frame rate) com A Longa Caminhada de Billy Lynn. Não se sabia, até então, o que Lee procurava com a última destas tecnologias além de um deslumbramento passageiro.

Quase tornando-se aquele amigo apaixonado por sua nova televisão, que quer ostentar a qualidade das imagens de seu aparelho para todas as visitas que recebe, Lee pode enfim provar seu ponto com Projeto Gemini ao focar no potencial das novas câmeras para a ação. Após conferir cerca de quinze minutos de cenas do filme ainda inédito, está claro que esta será a inovação principal da obra, estrelada por Will Smith em papel duplo. A natureza cristalina das imagens, exibidas em 60 quadros por segundo, e o uso da estereoscopia saltam aos olhos. (Vale notar que, embora o longa tenha sido captado na taxa original de 120 quadros, todas suas exibições 3D no circuito brasileiro estarão adaptadas para a taxa de 60.)


Entre as três cenas exibidas, duas revelam embates-chave dos dois protagonistas. A primeira delas, uma perseguição a pé em Cartagena, chama atenção pelos planos subjetivos e pelo uso de reflexos em poças e espelhos, tirando proveito da profundidade realçada das imagens. A segunda, por sua vez, apresenta uma luta entre os dois Wills nas catacumbas de Budapeste, e marca por outros quesitos estéticos diferenciados, como um longo plano em visão térmica e a nitidez de partículas como fumaça e poeira, assim como a fluidez acelerada da coreografia.

No entanto, surge o seguinte questionamento: qual será o grande diferencial destas cuidadosas setpieces na versão 2D / 24fps de Projeto Gemini? Embora seja seguro assumir que as lutas muitíssimo bem coreografadas se segurem sem o aspecto inovador, nenhuma delas aparenta especialmente marcante na ausência destes artifícios de “aumento da realidade”. Este é o perigo que correm as obras cujas tecnologias servem como um pilar principal, e resta aos espectadores decidirem o valor da experiência idealizada e prometida por Lee.

Ainda assim, estou deixando de elaborar um importante detalhe: Will Smith. Deve-se ressaltar a ousadia do trabalho do ator, mais aparente na última parte do material exibido. Sua versão jovem recriada digitalmente impressiona pela verossimilhança, favorecida pela limpidez das imagens e a taxa de quadros elevada, mas o maior mérito está na cuidadosa composição de Smith, que assume um tom mais ingênuo, juvenil, e recria até mesmo tiques de interpretações passadas, despindo-se um pouco de sua persona marcada atualmente.

Em um material seguinte, no qual Smith, Lee e o produtor Jerry Bruckheimer conversam sobre a concepção e produção de Projeto Gemini, o ator relata que Lee teria pedido a ele que “atuasse pior” nas cenas em que interpreta sua versão jovem, a ponto de recriar muito mais que a aparência de seus 23 anos de idade. Smith ainda brinca que, quando ficar velho e gordo, pode contar com seu “avatar” jovem de Gemini para novos blockbusters, tornando-se praticamente inesgotável.

Fica claro, portanto, que o maior capricho de Projeto Gemini não está nos feitos técnicos ou em qualquer maquinário, e sim em sua estrela, capaz de manter-se relevante como poucos conseguem. Afinal, 3D ou 2D, 60 quadros ou 24, o grande chamariz deste longa é Smith, e se o público ainda quiser vê-lo por algumas outras décadas, seja real ou digital, opaco ou translúcido, todo o resto ficará como um bônus. Um bônus curioso, mas ainda um bônus.