Hollywood tem feito um trabalho eficiente com a nostalgia. Praticamente todos os grandes heróis do passado retornaram para novas franquias. Star Wars tem feito isso com sua nova trilogia, Arnold Schwarzenegger vai tentar um novo Exterminador do Futuro, a Disney planeja mais um Indiana Jones e, especificamente falando dele, Sylvester Stallone encontrou nova vida de forma admirável para seu Rocky Balboa na franquia Creed. Seu outro grande personagem, John Rambo, já havia ganhado um retorno movido por nostalgia em 2008, mas agora ele retorna com uma ligação nas memórias do público de forma ainda mais forte com Rambo: Até o Fim. 

Os trailers deste quinto filme prometiam algo mais maduro e sóbrio para o personagem. Sendo bem sincero, o filme que me veio à mente foi Logan, na forma como mostrava Rambo vivendo um tipo de vida bem diferente, e que acaba perturbada pela chegada de uma violência incontrolável. É também um tipo de história bem comum em faroestes, outro gênero que Até o Fim remetia por situar grande parte de sua narrativa em um rancho, além de termos um John Rambo sempre de chapéu, andando a cavalo e sem sua tradicional cabeleira longa. Isso é, sem brincadeira, um dos maiores exemplos de marketing enganoso que vi em muito tempo.

O material promocional de Rambo: Até o Fim foi esperto em se concentrar apenas nas cenas de Rambo em seu rancho, escondendo todo o resto – que é ruim de passar vergonha. Dentre todos os filmes, é a trama mais distinta em estrutura e temática, e isso poderia ser uma mudança interessante, mas o que temos aqui parece o simples caso de um roteiro que não foi pensado para ser um filme de John Rambo, mas sim uma aventura de ação genérica sobre conflitos com cartéis mexicanos – algo extremamente batido e que rende, sem surpresa, um retrato extremamente caricatural e que parece ter saído do começo dos anos 2000.


Os diálogos em espanhol e o núcleo dos vilões, representado pelos irmãos Martinez, estão entre as piores coisas que vi no cinema em 2019: clichê, estereotipado e que, mesmo na lógica depreciativa do longa, são incapazes de provocar qualquer senso de ameaça ou personalidade. Não é uma história de Rambo, mas sim uma onde o personagem foi “enfiado” sem qualquer grande esforço, e ainda aguentamos quase 30 minutos de uma relação “familiar” entre Rambo e a jovem Gabriela, que deveria ser nosso grande foco de investimento emocional na história. Nem isso funciona, já que, novamente, os personagens são caricatos demais – e a reviravolta brutal que o filme persegue perde o impacto justamente por não nos importarmos com essas figuras.

Até o Fim?

Mas claro, o grande interesse dos fãs fica mesmo na ação, e infelizmente até nisso o novo filme fracassa. O trabalho de Adrian Grunberg faz parecer que estamos diante de uma produção feita diretamente para DVD nos anos 2000, e sua condução acaba provocando risadas involuntárias graças a movimentos de câmera estranhos, uma montagem frenética demais e um gore exagerado. Tudo bem, o filme até ganha pontos pela violência extrema e cartunesca que marca o aguardado clímax em que Rambo enfrenta o cartel em seu rancho, mas quando chegamos a esse ponto, já é tarde demais.

E quando chegamos ao grande final, Rambo 5 é extremamente covarde. Batizando o filme de Até o Fim (Last Blood, no original), era de esperar alguma finalidade para a jornada de John Rambo, e parece que Grunberg caminhava para isso no final, após o protagonista matar brutalmente todos os membros do cartel. Ferido com alguns tiros, ele se senta em uma cadeira de balanço, e parece que a morte chegará para John Rambo. Eis que uma narração em Voice over breguíssima tenta explicar a óbvia temática da situação, tirando qualquer peso de um momento que até poderia ser belo. O filme corta para os créditos antes de uma conclusão, e somos forçados a ver flashes do herói cavalgando ferido. Ou seja, o filme nem se decidiu se queria matar Rambo ou não, o que é uma covardia tremenda do ponto de vista dramático.

Talvez até mesmo os realizadores já tivessem noção disso, já que os créditos finais literalmente trazem cenas de todos os filmes anteriores. É como se quisessem imediatamente apagar nossa memória de todas as atrocidades que fomos forçados a assistir por 90 minutos. É triste que uma franquia que tenha começado tão bem em 1982 acabe literalmente no fundo do poço depois de 37 anos.

Ao menos ainda temos Rocky Balboa.