ATENÇÃO: Há DIVERSOS spoilers do filme!

Desde que fez uma estreia de peso com Hereditário, o nome de Ari Aster foi colocado em um patamar de diretores a serem acompanhados. Especificamente no gênero de terror, já que o cineasta escolheu mais uma obra sinistra para seu próximo projeto, Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, que enfim chegou aos cinemas brasileiros nesta última quinta-feira (19). E assim como seu primeiro filme, a conclusão de Midsommar também é digna de discussões e diferentes interpretações.

Primeiramente, é preciso recapitular os eventos de Midsommar antes de chegar à seu final, e também localizar seu tema. Por incrível que isso possa parecer vindo de um filme desses, Midsommar é essencialmente uma história sobre relacionamentos, e o término destes. O roteiro de Aster concentra-se no casal Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor), que definitivamente não está na melhor fase do namoro. É evidente que ele quer terminar, mas não tem a força ou determinação para expressar seus sentimentos e encerrar tudo – o que acaba colocando Dani em uma posição complicada, ainda mais quando o aterrador prólogo mostra a morte de seus pais e irmã, provocado por uma ação suicida. Agora que Christian não pode mesmo terminar o namoro.


Christian tem seu dilema, e Dani obviamente passa por um processo de superação de trauma, além do luto por seus familiares. Quando o casal e seus amigos chegam ao festival na Suécia, todos são colocados diante de choques culturais bizarros – e que espantam alguns deles quando temos mortes inesperadas. Mas nosso foco permanece no relacionamento entre os dois, que é constantemente testado quando Pelle (Vilhelm Blomgren) demonstra-se interessado em Dani, e também pela promíscua Maja (Isabelle Grill) que passa boa parte do filme enviando presentes e indiretas (completamente diretas) para Christian.

Tudo muda quando Dani é escolhida, após um jogo com todas as garotas da colônia, para se tornar a Rainha de Maio daquela festividade. Ela assume posição de reverência, e que acaba afastando-a de Christian, que por mais que resista à tentação, acaba se entregando aos sinais de Maja (ainda mais depois de ingerir uma droga). Eis que a próxima etapa, e finalização das festividades, incluem a queimada do templo e o sacrifício de membros da colônia – e Christian acaba sendo escolhido por Dani como uma das oferendas.

Burn them all!

O final espetacular de Midsommar é bem similar ao de Hereditário: a concretização de um processo que estava sendo desenrolado desde o início do filme, e também com a presença de uma figura da “realeza”, com a Rainha de Maio aqui e o Rei Paimon no terror do ano passado. A queimada do templo, com Christian na pele de urso, é uma mera representação do fim do relacionamento dos dois. Christian não foi capaz de tomar a iniciativa para terminar, tampouco Dani, então… Nada como um grande culto sueco para literalmente forçar a mão sobre os dois.

É extremamente simbólico quando Dani testemunha a traição de Christian, já que ela começa a gritar histericamente. Suas “súditas” logo a acompanham nos berros, praticamente simulando-a, mas a mensagem de Aster é clara: todas elas estão dando o apoio que Christian nunca foi capaz de dar. Quando ela chora histericamente no começo do filme, ele está apenas abraçando-a. Agora, todas elas estão gritando juntas, quase como se dividissem sua dor – algo que também acontece quando o templo começa a queimar, já que o processo também significa uma nova perda para ela. Porém, a última tomada do filme traz Dani começando a esboçar um sorriso; finalmente temos a catarse e a superação, tanto pelo luto quanto pela “libertação” de um relacionamento sem amor.

Certamente é mais radical do que as comédias românticas estreladas por Meg Ryan, mas Midsommar: O Mal Não Espera a Noite não está tão distante tematicamente.