No panteão de atores que interpretaram o Coringa nos cinemas, a maioria das listas coloca Jared Leto em último. Não é exatamente um exagero, e não especificamente pelo trabalho do ator em Esquadrão Suicida, mas também pelo altíssimo nível que seus outros intérpretes ofereceram – ainda mais com a chegada de Joaquin Phoenix em seu filme solo de Todd Phillips, que se posicionou como um dos mais elogiados na história do vilão.

Mas sendo bem sincero, e já estou esperando as pedradas e a florzinha com jato de ácido, é que o trabalho de Jared Leto no filme de David Ayer não é ruim como apontado pela maioria. Existem outros fatores que complicam a equação em cima de sua performance. Vamos por partes.

De Gângster a Gangsta

Quando David Ayer anunciou que o Coringa faria parte da trama de Esquadrão Suicida, havia um grande desafio: era a primeira encarnação live-action do personagem desde a performance seminal de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas, que marcou a cultura pop para sempre e ainda conquistou um Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante. Qualquer ator que calçasse os sapatos do Palhaço do Crime sofreria escrutínio, mas Jared Leto parecia uma aposta segura na época, afinal havia acabado de sair de uma vitória no Oscar pelo drama Clube de Compra Dallas.


Assim, Ayer apostou em um conceito radicalmente diferente para seu Coringa. Se Ledger era um gângster, Leto seria um ‘gangsta’. A ideia do diretor e roteirista era fazer um Coringa mais underground, senhor do crime das ruas e que se assemelha ao conceito de chefões de cartel mexicano – um dos temas que Ayer sempre explorou em sua filmografia. De certa forma, isso aproxima o Coringa de uma figura mais realista, já que não é difícil encontrar essa figura criminosa por aí, inclusive no Brasil, onde o Coringa se equivaleria a um chefão de tráfico nas favelas, com as correntes de ouro e relógios caros representando a “ostentação”.

Daí temos as controversas tatuagens. Pessoalmente não sou um fã delas (principalmente da terrivelmente óbvia “damaged” na testa), mas o conceito por trás delas é acertado. Também bem representado no figurino que mistura o exuberante com desleixado e, por fim, os dentes de metal que vieram como consequência de uma surra do Batman – além de serem uma forma interessante de reproduzir o sorriso do vilão, que também justifica a tatuagem de uma boca em sua mão.

As tesouras

A performance de Leto certamente tem seus erros e acertos. A insistência em uma voz pausada e relaxada é um pouco incômoda, e impede que o levamos tão a sério, mas o ator traz algo de fascinante: selvageria. Seu Coringa é sempre inquieto, rosna e parece uma força incontrolável. E é completamente diferente dos outros, o que comprova como a criação da DC pode render múltiplas interpretações. Sinceramente, esse Coringa gangsta funciona para a Gotham underground de David Ayer.

O problema maior do Coringa de Jared Leto é a produção de Esquadrão Suicida. Analisando o filme que temos, a participação do Palhaço do Crime é totalmente descartável, já que é uma mera subtrama da Arlequina. Parece que havia muito mais aí, pois Leto confirmou em diversas entrevistas que muitas cenas suas acabaram de fora da versão final, alegando ainda que seria possível “fazer um filme inteiro” só com suas cenas deletadas. Por esse motivo, o contexto em torno de sua performance é bem limitado.

Mas eu preciso também traçar um elogio para o Coringa de Leto: por mais que seja um chefão de tráfico MC, seu Palhaço do Crime traz fortes características de um quadrinho old school. A imagem do vilão de tuxedo com uma metralhadora na porta de um helicóptero soa bem desenho animado, assim como sua capacidade de se disfarçar e “brotar” em qualquer lugar, vide o final do filme onde Leto aparece vestido como guarda da prisão em um traje que até traz o bordado “Coringa”, algo que vem como uma herança divertida de sua origem nas páginas de papel.

Não é um exagero colocar Jared Leto como o pior Coringa dos cinemas. Afinal, todos os intérpretes foram excelentes, e eu até arriscaria dizer que seu trabalho não foi ruim. Só precisaria de um espaço melhor e um contexto melhor estabelecido, algo que Esquadrão Suicida não seria capaz de oferecer.

Uma pena que, muito provavelmente, nunca veremos a visão completa do que Leto tinha para o Palhaço do Crime, e seu legado será o de vergonha.