Atenção! Contém spoilers (importantes) de Coringa.

Coringa está em cartaz atualmente nos cinemas, apresentando ao público uma perspectiva diferente e criativa sobre o vilão mais icônico da DC.

A obra de Todd Phillips explora um lado interessante da descida de Arthur Fleck à loucura e sua conversão em assassino. No entanto, Coringa não é o grande vilão do filme, e muito menos o maior inimigo de Gotham.


O maior inimigo de Gotham não é nenhum vilão desequilibrado. O verdadeiro inimigo de Gotham é… a própria Gotham.

A cidade em todos nós

Gotham é claramente a vilã de Coringa. É a cidade (e seus habitantes) que faz Arthur Fleck chegar ao limite de sua sanidade e ultrapassar essa linha tão perigosa. E o protagonista está longe de ser a única vítima de Gotham. A cidade é repleta de pessoas abandonadas e oprimidas por uma estrutura desigual, e Arthur Fleck é apenas quem decide tomar uma atitude sobre isso.

O Coringa nem tinha a intenção de iniciar um movimento político, de revoltas e protestos, com suas ações. No entanto, quando ele vê os cidadãos ateando fogo à cidade no final do filme, Fleck se sente vingado.

Normalmente, nas narrativas do Batman os vilões são criados por desejo pelo dinheiro, poder e controle. No caso de Coringa, os vilões nascem pela frieza e desumanidade da sociedade.

Quando Arthur atira em 3 banqueiros em plena luz do dia, o filme deixa claro que a cidade não liga para ninguém que não faz parte do “1%.

Eles não ligam para nós

Antes de entrar em seu espiral de loucura, Arthur Fleck procura ajuda psicológica, mas descobre que o programa que o atendia teve seu financiamento cortado. Ele sabe que pacientes com distúrbios mentais vão sofrer terrivelmente com a decisão de alguém no alto escalão, mas ninguém dá a mínima para suas reclamações.

É interessante observar que a Gotham de Coringa passa por uma “mini-depressão”, com altos níveis de desemprego, pessoas desesperadas e adolescentes se envolvendo no mundo do crime. É nesse cenário que Arthur concluí que tudo isso acontece devido à exploração dos mais pobres e a ganância dos mais ricos.

Corrupção e ego

A corrupção de Gotham é perfeitamente retratada na campanha de Thomas Wayne para prefeito. É um teatro de egos, publicidade feita simplesmente para alimentar seu ego e alavancar sua carreira política.

O pai do Batman defende acima de tudo os ricos, e contribuí ainda mais para a segregação social ao chamar de “palhaços” as classes mais pobres após o assassinato dos banqueiros. Os policiais sabiam que uma pessoa vestida de palhaço matou o trio, mas como Thomas Wayne pôde concluir que alguém pobre foi o responsável? A resposta, no final das contas, é bastante simples.

O sistema

O problema de Gotham em Coringa também pode ser observado na vida real. O “1%” suga dos recursos de uma cidade em nome do lucro, aproveitando a oportunidade para investir em polarização com a disseminação da ideia de que os pobres odeiam os ricos pois “têm inveja” ou “não conseguiram trabalhar o suficiente.

O discurso de Thomas Wayne é extremamente irresponsável, e ignora o fato dele morar em uma mansão enquanto a maioria da população de Gotham sofre e é explorada. As ações do pai de Batman, dessa forma, pode ser consideradas como uma das principais razões para o “Occupy Gotham”, movimento na qual a população “toma de volta do que é dela”.

Quando Arthur se “transforma” no Coringa ao vivo na TV, seu discurso diz tudo.

“O que você ganha quando cruza um doente mental solitário com um sistema que o abandona e o trata como lixo? Você ganha o que merece.”.

Infelizmente, Gotham era um barril de gasolina, e o Coringa foi só o fósforo necessário para iniciar a explosão.

Coringa continua em cartaz nos cinemas.