A ficção e a realidade sempre se misturam no audiovisual, e o cinema de terror foi bem feliz em explorar essa barreira em diferentes ocasiões. Quando pensamos em exemplos mais populares, filmes como A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal logo vêm à mente, visto que ajudaram a construir o subgênero chamado de found footage, onde a história que assistimos é feita para parecer ser real. Mas existe uma versão dessa brincadeira que foi feita anos antes, e que muitos e vocês provavelmente nunca ouviram falar: Ghostwatch.

Na noite de Halloween de 31 de outubro de 1992, a BBC exibiu um telefilme que resultaria em um dos eventos mais infames e notórios da emissora britânica. A ideia era ousada: um filme de 90 minutos que tem o formato de um programa de TV ao vivo, onde uma equipe jornalística investigaria uma casa mal assombrada na Inglaterra. Acompanhamos o âncora de um programa dedicado a fenômenos paranormais e também a equipe de campo, que embarca na casa de uma família composta por uma mãe solteira e suas duas filhas pequenas – supostamente atormentadas por um espírito maligno. No melhor estilo de um grande terror, as coisas tomam uma virada bem sombria e assustadora – vale apontar também que a narrativa é bem inspirada na assombração de Enfield, que também foi tema do roteiro de Invocação do Mal 2.

Por isso, é extremamente fascinante que Ghostwatch de fato tenha existido. A ideia do roteirista Stephen Volk era trazer um relato realista e que servisse bem à emissora na noite do Dia das Bruxas, sugerindo inicialmente uma minissérie em 6 partes. A BBC acabou concordando com um longa de 90 minutos, contando com um elenco que certamente corrobora para o efeito da realidade: Michael Parkinson e Sarah Greene trabalharam como jornalistas na BBC, então isso trouxe o efeito de verossimilhança que Volk e a diretora Lesley Manning buscavam para o experimento audacioso.


A Guerra dos Mundos da TV

E como deu certo. Durante a noite de exibição de Ghostwatch em 1992, mais de 11 milhões de espectadores sintonizaram a BBC. Naturalmente, antes do programa começar, havia um aviso de que tratava-se de uma ficção e também créditos de abertura, mas há algo a se considerar: como o filme não tinha comerciais, a fim de manter sua simulação, quem sintonizava a BBC pela metade ou após o início da programação realmente acreditava que estava diante de um programa real. Muitas pessoas acharam isso, na verdade. Afinal, estamos falando de uma época sem internet ou redes sociais, então o que estava na televisão era mesmo a verdade.

Como parte da atração, havia uma linha telefônica aberta onde os espectadores tinham a chance de interagir com o programa. Porém, como a procura era imensa (mais de 30 mil ligações), todas as linhas foram congestionadas. Assim, o pânico generalizado foi se instalando na terra da Rainha, que se viu vidrada por 90 minutos no experimento de Ghostwatch, que fica consideravelmente mais tenebroso em seu ato final, e que é bem audacioso para uma exibição na televisão – especialmente considerando o efeito de algo “real”. Além de sofrer diversas reclamações, cartas furiosas e ligações telefônicas, a BBC ainda foi acusada de provocar estresse pós-traumático em crianças, que assistiam ao programa. Não é exagero algum comprar seu efeito com a famosa transmissão de Guerra dos Mundos, por Orson Welles, nas rádios americanas em outubro de 1938.

Por anos, a BBC tentou “esconder” a existência de Ghostwatch, algo que foi bem sucedido até a emergência da internet. Através de fóruns e postagens em blogs, o terror da BBC começou a ser redescoberto, já que diversas pessoas que assistiram ao programa em sua exibição original em 1992 se revelaram como grandes fãs do experimento. E com razão, já que Ghostwatch é algo verdadeiramente único.

O brilhantismo de Ghostwatch

Lendo o artigo, claramente podemos ver a influência que Ghostwatch teria no gênero do found footage, como Atividade Paranormal, A Bruxa de Blair e – em especial – o terror espanhol REC. Com exceção de Holocausto Canibal, que trazia elementos de um documentário falso, não existem muitos precedentes desse tipo de narrativa. E, até hoje, não há nada parecido com o que a BBC fez, afinal estamos falando de uma “pegadinha” que foi exibida em horário nobre em uma das maiores redes de televisão do planeta. Ousadia define.

No que diz respeito à execução, Ghostwatch é extremamente convincente. As performances funcionam, a estrutura e linguagem jornalística agregam a experiência e até mesmo elementos de exposição e narrativa são inseridos; como o repórter que sai pela rua coletando depoimentos de vizinhos, garantindo a expansão de “universo” dessa história fictícia. O fato de termos “telespectadores” ligando esporadicamente para trazer informações também soa bem natural dentro da proposta.

Como o realismo é a carta a ser seguida, claramente não temos uma experiência cheia de sustos, jump scares ou momentos eletrizantes. Mas é justamente isso que torna Ghostwatch, por consequência, assustador. A aparição sobrenatural referida como “Sr. Pipes” nunca é vista claramente, apenas escondida em cantos, reflexos ou breves aparições, imediatamente dando ao espectador a impressão de “ter captado algo”, e que certamente garante sua imersão na história.

Neste Halloween, descobrir Ghostwatch é uma excelente pedida. Infelizmente, o filme nunca foi lançado no Brasil de forma oficial. Mas vocês sabem como encontrá-lo…