É impressionante observar como a percepção dos fãs em relação a Star Wars mudou radicalmente nos últimos anos. Em 2015, a expectativa era quase religiosa antes do lançamento mítico de O Despertar da Força, que traria o Episódio VII e injetaria uma nova vida na franquia nerd mais adorada por gerações. Era algo importantíssimo, até porque daria continuidade aos eventos da Trilogia Original, que foi encerrada em 1983.

Mas os tempos mudaram. A Disney tomou diversas decisões arriscadas e que fizeram parte da base de fãs torcer o nariz, com o próprio Episódio VII sofrendo algumas críticas por ser “seguro demais” e praticamente uma cópia da estrutura de Uma Nova Esperança. Porém, uma explosão que supera a da Estrela da Morte aconteceu em 2017, quando Star Wars: Os Últimos Jedi chegou aos cinemas, trazendo uma recepção assustadoramente divisiva entre os fãs; e até hoje o diretor e roteirista Rian Johnson encontra-se na mira de alguns caçadores de recompensa, já que alguns fãs detestaram seu trabalho no Episódio VIII – eu não fui um deles, muito pelo contrário.

A grande questão é que a LucasFilm encontra-se em uma posição delicada com a chega de A Ascensão Skywalker, que encerrará a história principal com o Episódio IX: como reunir essas duas porções da base de fãs?


Equilíbrio na Força

Acredito que a chave do segredo esteja naquilo que a Profecia Jedi tanto almejava na Trilogia Prelúdio: o equilíbrio. O retorno de J.J. Abrams indica um certo comodismo por parte de Kathleen Kennedy: é melhor não arriscar em novos nomes, e Abrams acertou e entregou o que o estúdio quis com O Despertar da Força. Inclusive, é muito bom que tenhamos J.J. e não o picareta de Colin Trevorrow, que foi merecidamente demitido da direção do Episódio IX há dois anos atrás, e atualmente prepara mais um massacre aos dinossauros com Jurassic World 3.

Abrams é a escolha segura, e vemos isso já no marketing do Episódio IX. Os trailers novamente voltam a apostar em imagens saudosistas para evocar a nostalgia, além de termos o retorno de Billy Dee Williams como Lando, Mark Hamill voltando ao papel de Luke Skywalker mesmo depois de seu personagem ter morrido e, literalmente, Carrie Fisher sendo ressuscitada através da magia de CGI e imagens de arquivo para um desfecho emocional da General Leia. E nem preciso falar que o Imperador Palpatine foi anunciado de surpresa. Isso é bom, em partes.

Olhando por esse âmbito da nostalgia, há um perigo que A Ascensão Skywalker cometa o mesmo erro de O Despertar da Força: muita dependência no passado. O novo filme precisa sim prestar suas homenagens, afinal é o capítulo final, e os fãs certamente gostam de ver seus heróis em tela novamente. E talvez eu fale por uma pequena maioria, mas também gostaria de ver mais elementos da Trilogia Prelúdio incorporados a essa nova trilogia.

Mas é preciso ter cuidado, e aí entra o outro elemento a ser equilibrado: novidades. Star Wars IX precisa ter tudo o que adoramos na saga, mas também trazer algo totalmente inédito. Falem o que quiser da Trilogia Prelúdio, mas George Lucas sempre trouxe inovações tecnológicas e de design que são marcantes até hoje, e temo que A Ascensão Skywalker careça disso – já que temos, mais uma vez, planetas desérticos e florestais.

O Episódio IX ideal?

E o que exatamente o Episódio IX precisa fazer para encerrar a história de forma satisfatória? Essa resposta talvez nem exista, afinal nada nunca vai agradar a todos; principalmente quando falamos de fãs de Star Wars. Mas analisando o arco que a nova trilogia vem construindo com O Despertar da Força e Os Últimos Jedi, a conclusão do ponto de vista de roteiro parece lógica: a redenção de Kylo Ren.

Sim, os fãs certamente terão problema em aceitar que o vilão que matou Han Solo venha para a Luz, mas é o que a história parece construir. A dualidade em Ben Solo sempre foi destacada, sem falar que seu arco é a perfeita inversão daquele de Anakin Skywalker na Trilogia Prelúdio: antes tínhamos um homem bom sendo atraído pelas trevas, e agora a jogada é justamente o contrário, onde Ben é chamado pela Luz.

Outro elemento que precisa ser resolvido é Rey. A misteriosa personagem é carismática e Daisy Ridley entrega uma boa performance, mas os fãs estão divididos quanto à sua origem: ela é mesmo filha de “ninguém” ou é descendente de alguma família poderosa da saga? Se estamos seguindo a linha que a trilogia conta, não seria interessante se ela fosse simplesmente Rey Skywalker. Por mais que essa seja a saga da família de Luke e Leia, o conceito de Rey parece ser o de uma “pessoa comum” que se envolve com uma grande história.

Se Star Wars: A Ascensão Skywalker vai dar certo, ainda não sabemos. As respostas chegarão aos cinemas brasileiros em 19 de dezembro.