Quando Kylo Ren tirou sua máscara pela primeira vez em Star Wars: O Despertar da Força, todos se surpreenderam ao ver a face de um rapaz entre os 20 e 30 anos, e não uma criatura horrenda ou cicatrizes profundas. O rosto revelava Ben Solo, um dos personagens mais humanos e complexos de toda a saga criada por George Lucas, e que se encaixa no papel de grande antagonista da nova trilogia de Star Wars tocada pela Disney ao longo dos últimos anos.

Certamente não é a imagem que os fãs de Star Wars estão acostumados a ver em seus vilões, sempre marcados por máscaras imponentes, vozes graves e até pinturas faciais diabólicas. Kylo Ren tem a máscara e a voz, mas é inseguro, teimoso e se comporta como um garoto perdido em muitas ocasiões. Sei que muitos vão discordar, mas é justamente isso que o torna o melhor e mais complexo vilão de toda a saga, algo que pode se concretizar em A Ascensão Skywalker.

O Anakin que deu certo

Com o arco de Ben Solo/Kylo Ren na trilogia, fica claro que J.J. Abrams e os demais roteiristas envolvidos estão fazendo o inverso do que George Lucas fez em sua trilogia prelúdio; composta de A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith. Se naqueles filmes acompanhávamos a jornada de Anakin Skywalker para se tornar Darth Vader, falhando em resistir à tentação do Lado Sombrio da Força, a nova trilogia coloca Kylo Ren em jornada para voltar a ser Ben, com a Luz sendo sua maior tentação.


É uma inversão engenhosa, e que traz uma originalidade necessária à franquia. Sem falar que, ainda que o torne mais vulnerável e menos “maligno”, acaba tornando-o mais complexo e multifacetado. É o retrato de um homem que quer ser mau por acreditar no legado de seu antepassado, Darth Vader, e também por acreditar ter sido vítima de uma tentativa de assassinato de seu próprio tio, Luke Skywalker. Junte isso a uma figura sombria misteriosa como Snoke, que o corrompe, e temos um personagem completamente desequilibrado – e que foi até o limite quando matou seu pai, Han Solo.

Anakin Skywalker também sofria com esses dilemas, e fez o que fez acreditando em seu amor por Padmé, mas Kylo Ren tem um grande diferencial: Adam Driver. É chover no molhado comentar que Hayden Christensen era um ator extremamente limitado na trilogia prelúdio, e o motivo do arco não ser 100% convincente está em suas capacidades de atuação. Driver é 10 vezes o ator que Christensen nunca foi, e transmite toda a dúvida e emoção perturbada de Ren através de uma fortíssima performance – tanto em O Despertar da Força quando em Os Últimos Jedi.

Matando o passado

Por falar em Os Últimos Jedi, é notável como Kylo passa por uma transformação importantíssima ali. No Episódio VII, ele era o jovem adulto desesperado em obter aprovação e fazer jus ao legado de Vader, sendo praticamente uma réplica dele. Um filme depois, com Snoke morto e sua conexão com Rey estabelecida de forma quase íntima, Ben Solo tem um novo objetivo: deixar o passado morrer, iniciar algo novo.

Além de destruir seu capacete, ele se torna novo o Líder Supremo da Primeira Ordem (posição onde o encontraremos em A Ascensão Skywalker) e até propõem essa aliança a Rey; que recusa. Mas Kylo terá seus próprios seguidores no Episódio IX, com a chegada dos Cavaleiros de Ren, e será interessante ver como é a postura de Ben Solo liderando outros que acreditam em seus ideais – diferentemente da Primeira Ordem, mais atrelada ao General Hux.

A verdade é que Kylo Ren é muito mais do que apenas o maior vilão da saga Star Wars. Não seria exagero algum considerá-lo como um dos personagens mais interessantes e complexos da franquia, e mal posso esperar para ver como seu arco será finalizado no Episódio IX.

Star Wars: A Ascensão Skywalker chega aos cinemas brasileiros em 19 de dezembro.