Os fãs da DC estão em festa no feriado. Nesta sexta-feira, 15 de novembro, a Forbes confirmou que o polêmico Coringa conquistou oficialmemte a marca de US$1 bilhão nas bilheterias mundiais, algo que os analistas só começaram a crer que seria uma realidade neste último mês. Praticamente uma piada quando o projeto foi anunciado anos atrás. O que a Warner Bros e o diretor Todd Phillips conquistaram aqui não deve ser subestimado, nem visto como uma realização qualquer.

Claro, atualmente, não é raro ver um filme cruzando a famosa marca do bilhão. Nos padrões Disney, seria até mesmo uma decepção se um de seus grandes lançamentos não entrasse nesse grupo; vide os sucessos de Capitã Marvel, Vingadores: Ultimato, Aladdin, O Rei Leão e Toy Story só nesse ano; adicionando mais de US$7 bilhões à caixa do estúdio do Mickey Mouse. Porém, o triunfo de Coringa, ainda que ainda inferior aos US$2.7 bilhões de Ultimato, acaba surgindo como mais especial; justamente por considerarmos todas as circunstâncias e barreiras que o longa superou.

Salvando os autores

Primeiramente, vamos falar sobre o óbvio: Coringa é um filme para maiores de 17 anos; a famosa classificação R nos EUA. Isso já limita boa parte do público, que é bem maior quando a normativa PG-13 acaba sendo utilizada. Coringa é o primeiro filme para maiores a cruzar a marca do bilhão, algo que é ainda mais impressionante quando consideramos que – ao contrário da franquia Deadpool, que até então dominava o pódium de bilheterias adultas – o filme de Todd Phillips não tem grandes cenas de ação ou efeitos visuais; tampouco o humor metalinguístico do mercenário vivido por Ryan Reynolds.


Além de não ter a vantagem do 3D (ingresso mais caro) e de um lançamento na China (que tem um dos maiores mercados de exibição do mundo), Coringa enfrentou algo pior: uma campanha negativa. Antes mesmo de chegar aos cinemas, diversos veículos dos EUA iniciaram um movimento de boicote ao filme, temendo que ele fosse incitar violência e tiroteios, sendo acusado de ser um “hino aos incels”. Nem precisamos dizer o quão ridícula e tendenciosa foi essa suposição, mas ao mesmo tempo, o movimento acabou atraindo mais atenção: não existe má publicidade, como dizem.

A (nova) Nova Hollywood

Mas como fica Hollywood pós-Coringa? Não é exagero dizer que seu sucesso vai fazer muitos executivos reverem suas estratégias. Afinal, estamos falando de um filme de US$55 milhões de orçamento que arrecadou mais de 1 bilhão; sendo também o mais lucrativo da história do gênero de quadrinhos. Ao menos a Warner Bros parece bem satisfeita, e a que saiu ganhando na equação.

Em um cenário ideal, isso provoca uma grande mudança para Hollywood em geral. Como o grande objetivo dos estúdios é obter lucro, Coringa provou que não é necessário gastar tanto ou depender de mercados internacionais para se obter sucesso; só nos EUA, o filme arrecadou mais de US$310 milhões.

Mas a chave do sucesso do Coringa é mesmo seu valor artístico. Livre das correntes de uma continuidade pré-estabelecida ou um universo compartilhado. Antes da estreia, os trailers já geravam expectativa pela performance de Joaquin Phoenix como o Palhaço do Crime. A ansiedade ficou ainda maior quando o longa foi exibido no Festival de Cinema de Veneza, onde também foi premiado com o Leão de Ouro; uma conquista que poucos filmes de estúdio já tiveram, e que seria inimaginável para filmes de quadrinhos. Isso já engatilhou Coringa para o Oscar, com a performance de Phoenix sendo a grande aposta da Warner para a Academia.

O sucesso de Coringa pinta o caminho para uma Hollywood mais autora. Todd Phillips lutou para fazer um filme no espírito da filmografia de Martin Scorsese, repleto de ideias e simbolismos que continuam sendo debatidos. Ter um sucesso com a crítica e também uma bilheteria bilionária é algo raro, e talvez esse seja o grande argumento para que o cinemão seja devolvido à ideias audaciosas e desafiadoras de autores – e não de corporações.