Sendo um serviço relativamente novo em Hollywood, a Netflix busca o que todos os demais competidores no ramo do streaming querem: uma expansão de seu catálogo, na forma de filmes e séries de TV originais. Nessa proposta, além de desenvolver projetos do zero, a Netflix também atua como “salvadora” de produções condenadas, pegando projetos no qual ninguém apostava e, mais notoriamente, sendo também a “lixeira” de alguns estúdios.

Os exemplos mais famosos vêm do mesmo estúdio: a Paramount Pictures, que aprontou no mesmo ano. A primeira veio como um golpe publicitário sensacional: o estúdio lançaria O Paradoxo Cloverfield nos cinemas no começo do ano, atraindo curiosidade por fazer parte do discreto universo cinematográfico apadrinhado por J.J. Abrams – e que teve capítulos anteriores em 2008 e 2016. A surpresa veio durante o intervalo do Super Bowl, evento da NFL que representa a maior audiência da televisão americana, quando o primeiro trailer do filme foi revelado oficialmente, mas com um aperitivo ainda maior: o filme inteiro seria disponibilizado no catálogo da Netflix após o jogo. Algo sem precedentes, e que alegrou a todos. Até o filme ser assistido.

O Paradoxo Cloverfield é um dos piores filmes de 2018, sendo quase insuportável de se assistir até o final e não cair no sono. Nesse momento, a estratégia que parecia transgressora e ousada da Paramount se revelou como uma tentativa de evitar uma bomba. O filme era ruim e certamente teria um desempenho fraquíssimo nas bilheterias. A estratégia do estúdio de cinema? Vender sua distribuição para a Netflix, já que ali ao menos o filme seria visto e comentado (ainda mais depois do anúncio no Super Bowl), e a Paramount não perderia dinheiro com exibição nos cinemas. 


No mês seguinte, a Paramount usou uma estratégia similar com outro de seus lançamentos: a ficção científica Aniquilação. Mas ao contrário de Cloverfield, o filme de Alex Garland com Natalie Portman é realmente bom, mas foi despejado parcialmente na Netflix (apenas algumas salas nos EUA e Canadá o exibiram) pois o estúdio já previra um resultado negativo nas bilheterias. Como o longa mal foi assistido em suas exibições já limitadas, foi uma previsão acertada.

Quando a lixeira contra-ataca

Mas às vezes, a “lixeira” surge como uma verdadeira revitalização. Basta olhar para a quantidade de talento cada vez maior que assina para produções originais na Netflix, com 2019 tendo o elogiado O Irlandês, de Martin Scorsese, como grande competidor na temporada de prêmios. Como os fãs devem saber, o drama de máfia é um projeto antigo que o cineasta já desenvolvia e sonhava em fazer há muito tempo, mas cuja necessidade de um orçamento elevado acabou atrasando sua produção – nenhum estúdio queria investir tanto em um projeto que não traria retorno financeiro. Mas a Netflix rapidamente garantiu os direitos de produção, dando origem a um dos filmes de maior prestígio de 2019.

E esse é apenas um dos exemplos. O mexicano Alfonso Cuarón levou 3 Oscars para casa com o elogiado Roma, outro projeto passional que acabou sendo aprovado pela Netflix, os irmãos Coen fizeram um filme que jamais seria aceito pelo circuito comercial com A Balada de Buster Scruggs e no ano que vem o badalado David Fincher retorna com um projeto experimental sobre os bastidores de Cidadão Kane. 

Então, quando dizemos que a Netflix é a lixeira de Hollywood, não é exatamente um demérito. Sim, alguns projetos são “jogados” no streaming para serem esquecidos, mas a empresa constantemente está dando segundas chances para projetos que nunca veriam a luz do dia. Talvez esse mérito seja reconhecido com um Oscar no começo do próximo ano.

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